**DE VOLTA PARA CASA** - Manoel Ferreira


Cada batida de meu coração dizia-me de saudades, melancolias, nostalgias, dizia-me de tristezas, desolações, desconsolos, angústias... A cada amanhecer, por todo o dia, a esperança, o sonho, o desejo do retorno. Não era possível que o fim estava escrito seria distante de casa, naquele buraco de mundo.
O ônibus deixava montanhas, serras para trás, seguia o seu itinerário. Tantos anos esperando este momento, a liberdade estava nas minhas mãos, era a minha vida a partir daquela viagem de duas horas e meia. Não mais pela manhã dizendo: "Meu Deus!... Quando a minha liberdade?"
Estava de volta à minha casa, ao meu lar, à minha verdadeira terra, terra-natal. Voltava para casa com a minha cultura intacta, nada assimilei da outra que vivi por longos e invernosos anos.
Dizem que o "bom filho" sempre volta para casa. Nada disso de "bom filho". Apenas um homem que não consente com os nonsenses de uma cultura. Terra-natal é onde se nasce, forma-se, cresce, é o sangue da cultura que corre nas veias. Algo estava muito modificado em mim: a terra era a minha cultura, mas eu mesmo era de quem vivia, era quem era, sozinho diante da vida, sozinho diante do mundo, sozinho diante de meu Ser.
O ônibus estacionou na plataforma da rodoviária: "De volta para casa. Livre... Construir outra vida... O sonho é ser cidadão do mundo... O tempo tornará verdade ou não..." Serras, montanhas, velharias ficaram para trás efetivamente. Teria de voltar única vez para assinatura de divórcio. Nada mais.
De volta para casa. Entrei no táxi direto para o Hotel.



Manoel Ferreira Neto.
(07 de fevereiro de 2016)


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