ENTRE A INSPIRAÇÃO E A RESPIRAÇÃO GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: AFORISMO POÉTICO ****



Epígrafe:
"A volátil atmosfera assanha
Carícias, conquista, êxtases
No tempo que cabe o mais
Policromático, assediares sutis
Outros audazes
Lá, adiante, polo do claro assento
O pensamento se perde
Humanos, baixos honrados
Esquecidos, se alertam co'um som..." (GRA.ÇA FONTIS, IN:
Coração de ouro e diamante,
o vazio esvaiu-se, esvaece-se de por trás das constelações do universo, harmoniosas com o espaço das estrelas e planetas!
Jacências ad de veias
À esquerda de planetas enigmáticos,
Flanando no tempo
As pulsações comedidas,,
A ardência sanguínea em efusões dilacerantes,
Entre a inspiração e a respiração...
Eu me lembro... eu me lembro...
Portões abertos dessa inteligência, indiferentes aos corais ardilosos, pueris, a lógica quanto às variantes perspectivas d'um horizonte luminoso, a ilógica conspiração no concernente aos consensos, recortada bizarramente de arvoredos...
***
Há momentos em que,
mesmo aos olhos serenos da razão,
de Insolentes linces do intelecto,
o mundo de nossa triste Humanidade pode assumir a imagem de Inferno,
re-presentar as cores
de estados d´alma adversos,
num cenário de eloqüências e mudez,
mas a imaginação do homem não é Carathis para explorar impunemente todas as suas cavernas.
***
Deter-me, por átimos de instante que sejam, em qualquer concessão a essa idéia é estar inevitavelmente perdido, sem chão de por baixo dos pés, restando a entrega às profundezas, a reflexão ordena que fuja sem demora e, portanto, digo-o, é isto mesmo que não posso fazer, com súbito esforço recuar da beira do abismo. Se me desse à aventura, consentisse, inda assim permanecer-me-ia à beira, visionando pensares-sentires. Não há na natureza paixão mais diabolicamente impaciente como a daquele que, tremendo à beira dum precipício, pensa dessa forma em nele se lançar, abraçar a queda com todo fervor.
***
Dia tenso, ensimesmado e mudo de outono, em que nuvens baixas amontoam-se opressivamente no céu, percorro trecho de bosque singularmente triste, e finalmente me encontro, quando as sombras da noite se avizinham, à vista da melancólica Casa de Chamone, paredes marrom claro, descascadas pela ação do tempo, vidraças de janelas encardidas. A imagem do universo. A casa significa o ser interior, seus cômodos, seus andares, seu porão e sótão simbolizam diversos estados de alma. O porão corresponde ao inconsciente, o sótão à elevação espiritual. A casa é também um símbolo feminino, com o sentido de refúgio, de mãe, de proteção, de seio maternal. A vida dentro da casa está protegida, segura, inabalável. Dentro da casa nada de ruim pode entrar e afugentar quem nela se encontra e se abriga. A casa é uma espécie de cavalheiro, de mãe zelosa e acolhedora.
***
O sol raiava, era inverno, no inverno o raiar do sol é sempre diferente. Tudo era festa em volta de minha casa. Cantava o galo “crista” – nome que lhe dei por sua crista enorme cair-lhe no olho esquerdo – alegre no terreiro, o mugido das vacas misturava-se ao relincho das éguas no pasto que corriam de crinas soltas pelo campo aberto da fazenda, aspirando o frescor da manhã, a cadela Turka parindo no celeiro,
Catarina toda carícias e ternuras alisando a sua cabecinha. magias de átimos de segundos passando na sua mente, tantas alegrias, contentamentos, os pegas-pegas no crepúsculo,
o rabinho balançando de prazer, os pelos ao ar, sentimento quase agradável na sua poesia, com o qual a mente ordinariamente acolhe mesmo as imagens... Imagens também despertam aperto no coração: corredores escuros e intrincados; excessiva antiguidade; descoloração; sombrias tapeçarias nas paredes; negrura de ébano dos assoalhos; fantasmagóricos troféus; mobiliário incômodo.
***
O que passou não retornará. Sombras no âmago.
***
Passarinhos do céu, brisas da mata,
Cantos exclusivos na solidão do mundo,
Às nuvens, ao sol,
Na grandeza da luz nascente
Trinos de passarinhos que cantam,
Voz da paisagem de neblina à distância sarapalhada,
Enquanto palmilho passos na areia,
Há pelo mundo infinidade
De passarinhos cantando,
patativas saudosas dos coqueiros, fontes do deserto, ventos da várzea!...
Rio de Janeiro(RJ), 05 de maio de 2021, 13:08 p.m.

 

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