Sonia Gonçalves ESCRITORA POETISA CRÍTICA LITERÁRIA INTERPRETA E ANALISA A SÁTIRA /**DE UMA CAVEIRA PARA OUTRA CAVEIRA**/ #Data de Publicação: 20 de janeiro de 2020#
Nossa
Manuuuuu! Um dos escritos mais bonitos que já li seu, senão o mais belo!
Impressionante, impressionada com a tua prosada melopeia, quase cantada nas
letras tantas.Tão belo e profundo, de fato, viver nesse mundo não é fácil, a
velhice e a chatice das pessoas que se acham ou melhor se perdem, na verdade é
isso a idade, a velhice é tudo uma ilusão, tudo uma coisa que colocaram na
cabeça de tantos que agora ficam procurando os "piolhos" pelo lado de
fora quando na verdade eles estão é por dentro, é lá onde se permanece o que se
é. A idade não é importante, mas todos insistem em enxergar o ser de acordo com
seu número de anos novos nessa Terra velha, tão velha que nem me lembro de
quando. As agonias os queixumes, o sofrer por costume já se tornou sistemático,
atingiu uma certa idade ah!, olha o coração, olha os olhos, olha isso, olha
aquilo...E por se ter vinte acredita-se que o tempo lhe é privilegiado que
nunca terá cinquenta...Setenta, oitenta vou nem comentar. Sua capacidade
filosófica e inspirativa dando show nessa narrativa, veio tudo à tona no melhor
estilo, estilo que lhe é inerente e diferente dos demais....Muito que amei tudo
o que você disse, de uma forma tão suave que me chegaram feito cantilena de um
poema do Manu, e já que o dissestes tudo isso cansa mesmo viu? Os namoricos, as
futricas, os fornicos, enfim...Vivo também esse estado de reticências
permanentes de interrogações nunca pretéritas apenas futuras, ás vezes, pois
nem essa me toca tanto... Mas é isso aí você disse tudo o que me vai na alma e
esvaiu-se entre seus dedos nos teclados... Amei. Parabéns! Bjos...Obra da Graça
maravilhosa como sempre. Bjão para ela também.
Sonia
Gonçalves
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RESPOSTA
À CRÍTICA SUPRA
Muito
interessante você, Soninha Son, dizer: "Um dos escritos mais bonitos que já
li seu, senão o mais belo!", pois que minha Companheira das Artes e
Esposa, Graça Fontis, dissera o mesmo noutras palavras: há tempos estamos
vivendo juntos nunca havia escrito algo tão belo, simplesmente toquei na ferida
da humanidade de todos os séculos e milênios.
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Bem, esse
texto me veio como presente. Iniciei a escrever e fui escrevendo sem parar,
fluxo de idéias. Neste "instante-já" de uma escritura, só vejo os
digitos sendo registrados nos espaços brancos, nada sei do que penso, nada sei
do que sinto. Assim acontecera com a feitura deste aforismo melopéia.
Terminando, pensei comigo não ter muito valor pois que saiu aos borbotões, e
sempre que uma coisa é fácil não damos muito valor. Quando reli o escrito,
quase caí duro e fedendo. Um presente. Quiçá uma autopoiésis! Um texto que
revela tudo de meu pensamento, de minhas idéias. Impressionante. São
instantes-já que não voltam mais, se o intuí, percebi, ótimo, se não, jamais o
sentirei de novo. Mas uma das terapias a que me submeti ensinaram-me isto de
estar atento às oportunidades e possibilidades. Acontecem outros instantes-já,
mas diferentes, inusitados, inéditos. Off-limits, a obra apresenta o fastio do
mesmo, de que estou enfastiado, entediado está aqui presente, mas o que estou
intencionando criar para preencher este vazio está sendo artificiado ao longo
do tempo, a "Sorte agracia os audazes", "Audaces fortuna
juvat", como diz o poeta Virgílio.
Gracias
muchas por crítica tão percuciente.
Beijos
nossos.
Manoel
Ferreira Neto
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DE UMA
CAVEIRA PARA OUTRA CAVEIRA#
GRAÇA
FONTIS: PINTURA
Manoel
Ferreira Neto: AFORISMO MELOPÉIA
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Farto de
vendavais, naufrágios, chacinas presidiárias, corrupções, boatos, mentiras,
polêmicas, fofocas, preconceitos, paixões mal resolvidas e amores divorciados,
farto de ver como se des-compõem os homens, bancários e diretores, advogados e
engenheiros, políticos e delegados, professores e jogadores, papas e cardeais,
artistas e o povão, farto de mim, de todos, de um tumulto sem vida, de um
silêncio sem quietação, de algazarra de vozes sem som, farto de só amizade
verdadeira duma caveira para outra caveira, do meu sepulcro para o teu
sepulcro?! Eu, que espero e me estorço e luto com ar sem ramos onde não nutro
meu corpo, lasso do abraço em vão, áspide aguda. Como quem esmigalha
protozoários, meti todos os dedos, carne e unhas mercenários na consciência
daquela multidão... E, ao invés de achar a luz que os Céus inflama, somente
achei moléculas de lama e a mosca alegre da putrefação. Não fora Raul Seixas
quem compôs a música: "Eu sou a mosca que pousou na sua sopa..." Na
infância, ouvia minha avó dizer: “Estou farta de ser paraplégica. Estou farta
de ficar sentada nesta cadeira dias, meses e anos, faça sol, faça chuva, faça
frio”.
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Tudo isso
cansa, tudo isso exaure, o suor frio corre no rosto a todo instante, haja
lenços para enxugar – é só ligar o aparelho de televisão em jornais: crimes,
drogas, desastres de ônibus, aviões, corrupções políticas. Estou mesmo de “saco
cheio” de tudo. Este sol é o mesmo sol, de por baixo do qual, segundo uma
palavra antiquíssima, os tempos são imemoriais, nada existe que seja novo. A
lua não é outra lua. As estrelas não são outras estrelas. As constelações, os
planetas não são outras constelações, não são outros planetas. O céu azul ou
embruscado, as nuvens, o galo da madrugada, é tudo a mesma coisa. Tocador de
anu, naquele adágio "Tocar anu pra Cantagalo" seria um vagabundo,
andarilho, ocioso, que teria, em comum com os tocadores de burros e de bois, o
fato de tangerem em manada seres vivos. Lá vai um para o fórum, defender
culpado, enjaular inocente, outro para o consultório médico, prescrever
receitas, o pintor vai ao ateliê sujar-se todo de tinta na criação de uma peça
de pintura, a dona de casa prepara o almoço do marido, este vende, aquele compra,
aqueloutro empresta a juros exorbitantes, enquanto a chuva cai ou não cai, o
vento sopre ou não; mas sempre o mesmo vento e a mesma coisa.
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Em tempos
verdadeiros de travessias de nonadas ao antes era o mistério, depois o desejo
da luz, ao antes era o nada, depois a vontade de tudo ser, ao antes era o
verbo, depois o verbo se tornou carne, ao antes da bonança, a tempestade, ao
antes da tempestade, a bonança, roda-viva de sentidos, pá-lavras, cata-ventos
de metáforas, signos, símbolos na lingüística das raízes imanentes e
trans-cendentes do ser e do verbo, do verbo e verso, redemoinho de katharsis e
mimesis. Há instantes que estão muito profundos na memória, por mais que se
tente lembrá-los é quase impossível.
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Pois que
vede com os linces, as pupilas, as íris, o que vos digo em pé neste bujão de
gás, nesta feira dominical, todos divertindo-se e comprando, vendendo, e todos
vós ouvindo-me, estupidificados, mas atentos, com a minha verbórreia, mas
pensativos, introspectivos. Sou um louco? Não credes tanto na loucura, mas está
a faltar-me algum parafuso na cachola. Nem pastor sou para des-andar a língua a
tagarelar para a multidão.
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Tendes o
atrativo da beleza, que com a mais divina das razões e mais absoluta das
expressões preferis a todas as outras coisas, a todos os outros pensamentos e
idéias, a todos os valores e virtudes, pois é graças à beleza que exerceis
absoluta tirania mesmo sobre os mais bárbaros tiranos, mesmo sobre insensíveis
carrascos e ditadores, mesmo sob os políticos analfas de pai, mãe e betos.
Podereis saber de que provêm aquele feio aspecto, aquela pele híspida, aquela
barba cerrada, que, muitas vezes, fazem parecer velho um homem que se acha
ainda na idade da flor desabrochada e esplendorosa, se acaso não houver a perda
dele nalgum covil de idôneos indivíduos, que professam com suas piadas de
caserna, suas brincadeiras, suas bobagens, o silêncio e a melancolia.
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Gesto
ardido, em cujas veias o entusiasmo ilusório prostra morto na areia. Para além
da morte, ao inferno dirige-se o corpo que tenha vida. Glup... Glup... Golpes
descarregam na paragem as injúrias agonizantes. O peito descoberto torce o
exílio sanguíneo. A alma injuriada de mazelas e pitis entorce em ais. O corpo
pelo insólito arrasta as míseras perfídias. Tristes penachos nos rochedos da
praia, afastados. Um só apelo venera e desonra na ausência da desgraça.
Precipitam da garganta as línguas suplicantes. Distância inacabada de assistir
a atitudes simples à certeza erguida. No regato, o brilho do sol. Improvisada
nas contundências excessivas da indiferença casuística, desliza-se no olhar
mesmo a aberta palavra. Preso pelo fundo da pirâmede é o salto do silêncio.
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Tudo isso
cansa, tudo isso exaure. Não fosse tudo isso o suficiente, a vida é a mais
velha, juntamente com os homens, tão logo a vida, de imediato o homem e todas
as criaturas de Deus; o corpo dividido em três partes, cabeça, tronco e
membros, o corpo dos hipopótamos, dos jegues, das galinhas, o corpo de cada um
deles é o mesmo, salvo pouquíssimas aberrações da natureza. O homem, que, nesta
terra desgraçada, mora, entre feras, reside, entre serpentes, habita, entre
sereias, sente inevitável necessidade de também ser fera, ser serpente, ser
sereia. Os deuses vão-se, as feras vem-se. A morte é a mesma para todos:
cerimonial de velório, lágrimas verdadeiras e de crocodilo, angústias,
tristezas, o fechamento do caixão, quatro homens carregando-o, o enterro, ao lado
de um mausoléu sempre várias sepulturas sem cruz; ou são alimentos dos lixeiros
da humanidade, em se tratando de animais. No ardor do sonho, que o fonema
exalta, encrespa-se, ponteia-se, frisando-se, construí de orgulho, empáfia,
soberba ênea pirâmide alta... Hoje, porém, que se desmoronou a pirâmide real do
meu orgulho, de minha empáfia, soberba, e quase me esqueciam as vaidades e
prepotências, pernosticismos, hoje que apenas sou matéria e entulho tenho
consciência de que nada sou! E olho o teto, há uma fresta na telha, um buraco.
E vejo-o ainda, igual a um olho, circularmente sobre minha rede. Pego de um
pau. Esforços faço. Chego a tocá-lo. Minh’alma se concentra.
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Seria que
devesse incolumemente referir-me com embófia o verbo "desfiar" ao
invés de rasgar, rasgar é exclusivo para os verbos, dizer-lhes, e não usar-lhe
como aqui tange? Desfiar é o apropriado, traz no seu bojo o que intenciono
dizer com a transparência do diamante originalíssimo. Desfio dos mundos o
velário espesso; e em tudo, igual a Goethe, reconheço o império da substância
universal!
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Tais
lamúrias, regougos, casmurrices podem habitar-me, no mais enraizado de minhas
pré-fundas, e só neste instante a pachorra deslavada coube-me verbalizar, até
com voz áspera, a cor-agem se me revelou por inteira, não fora apenas uma ponta
do iceberg, a rouquidão esplende-se por todos os cantos e recantos, vozes
agudas e sensatas, indagando-me se mágoas, se as tenho, subjugo-as, com que
intenções não as sei, não as conheço, ou disfarço-as, as intenções são de
tripudiar... E não há uma alma que me entenda a angústia transoceânica medonha
no rangido de todas as enxárcias! Se tais lamúrias são o desejo incólume de ser
vítima de algo, de alguma coisa? Não o sendo: o que estou dizendo foi-se
esperado por milênios, só agora sou quem verbaliza, todos sabiam desde a
eternidade até mim, ninguém dizia por falta ou ausência de cor-agem, por ser
risível.
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Realizai
vós que deveria sentir-me o mais dos mais, a fina pérola do saber, estar
dizendo sobre o tédio de ec-sistir, mas, ao re-verso disso, estremeço-me por
saber que digo de mim próprio, o que posso saber da alma alheia? Rides à
vontade! "Quiçá não sou o tédio?", alguém de vós refutaria ou
confirmaria? Que tendes algo a dizer? Desço-me deste bujão de gás e ofereço-vos
para subirdes e debulhardes as contas da língua.
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Em
quaisquer ângulos que se analisem tudo é velho neste mundo sem cancelas, sem
cercas de arame farpado ou liso. Os homens de vinte anos dizem-se jovens,
fantasiam tudo, têm namoricos fugazes, vão aos botequins e restaurantes encher
a cara, as gatas felizes por se tornarem mulheres, sentiram prazeres
inusitados, ninguém dissera ser tão gostoso, às festas para a paquera, entram
na universidade, tornam-se profissionais graduados, com ou sem qualquer
eficiência, alguns gênios na pista, intelectualóides de plantão. Os de
cinqüenta dizem-se não tão jovens, mas ainda jovens, há muita água para passar
debaixo da ponte. Os de sessenta alimentam-se com fulgor de estarem
con-sentindo a consciência de que a seiva não se esgota, conscientes da
velhice, conscientes da morte, mas regougos de pensamentos e ideais. Os de
setenta, oitenta dizem-se velhos, mas não senis, caducos. Esquecem-se de que
isto é visto em termos de idade, de estar habitando o mundo, não se lembram de
pensar que tudo isto é ilusão, fantasia, quimera, quiçá doidura das bravas: a
vida é velha, antiqüíssima. Tudo isso cansa, tudo isso exaure.
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Nada
sobra ou nota sobre?: idéias, ideais, pensamentos, sonhos, utopias, angústias,
tristezas, etc., etc. Ninguém pensa ou quer fazê-lo, é acumular dores e
sofrimentos, tédios os mais sublimes e variados, não restando alternativa senão
o suicídio em massa, no mundo ficarão só as coisas e objetos, que, ao longo do
tempo extinguirão com a ação das chuvas e sol, ou, inda que afigure ser
disparate dos mais elevados, arrasou com os limites, a depressão, que, na minha
visão e concepção das coisas, depressão é a ausência de convivência com o eu,
com as coisas, objetos, com os homens, com as intempéries da ec-sistência, não
é uma doença, quem não sabe disso? Tudo isso cansa. Tudo isso exaure.
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Deixo-me
em estado de reticências... Haveria de tecer, inda que ínfima consideração
sobre isto de "estado de reticências", não me esquecendo de o
"estado de suspense" ser-lhe oposto, contradictório, dialéctico, não
consideração intempestiva, mas suave, sereno como as folhas misérrimas de
minhas orquídeas caem como quaisquer outras belas e vistosas, fossem-me dados
os olhos, dar-vos-ia uma lágrima pujante de saudade e enternecimento, mas se é
"estado de reticências" mister que nada diga, nada considere, nada
insinue, as idéias e pensamentos seguem livres, e mesmo porque o distinto
leitor iria enfadar-se, pois que ele, o estado de reticências, se não deixa
boca para rir, muito menos deixa olhos para chorar.
#RIO DE
JANEIRO(RJ), 02 DE JUNHO DE 2020, 16:28p.m.#

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