LONGAS ALAMEDAS GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA ***



Não toco as pirâmedes de Queóps.
Transporto comigo aqueles que ficaram para trás. Urna eu própria de minhas cinzas particulares. Por que morre o homem? Campear outro modo de existir sem vida? Por que o homem mente para si próprio a vida?
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Dedos tamborilam cinzas e fumaças.
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Linces de re-versos olhares veem mistérios, vislumbram ânsias do medo e desespero.
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Hora. Tempo. Oito horas e quarenta e cinco minutos.
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Alvorecer de cânticos de pássaros em con-sonância com os raios de sol. À distância, o morro afigura-se desfeito.
Mar de demônios... Lanço a corda e alguém devia descer para retornar com a mulher. Lavo os pedaços rudes de pedras. Um prazer estranho penetrando a luz pelas frinchas da janela. Muita palavra para o pobre muro de cimento. Muita areia para o caminhãozinho furreca. Solto o ar no fim do dia. Gestos amargos na boca. Perdi a amargura da solidão. Sinto a serena, suave dor do câncer, saltitando de contentamento e alegria. Glória aos deuses por minha dor. Reliosa solenitude desta noite. A deusa é um riso. Imagens de voz fazem oscilar a luz da lâmpada. Galgar e vagar de mortais.
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Vísceras. Reticências mudas e surdas lançam recursos a prazeres ilusórios. Água empanada de risos e gargalhadas. Taça nas águas. Sonho povoado de expressões. Apoteose. Nostalgias. Luzes. Voz soprando nas longas alamedas do sono. Rosto navegando barcos de brinquedo. Vozes enrouquecidas ruminam contradições, o eterno não preenche o efêmero.
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Sinto saudades. Relembro passos. Revejo o sorriso, o olhar. Ouço letras desconexas. Vontades. Esperanças. Vidraças. Encruzilhadas. Feições expressivas se eliminam ao reconhecerem o lugar em que iniciaram imagens.
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Abro a torneira do chuveiro. Deixo a água cair. No chão, vários produtos de beleza e higiene pessoais. Tão pequena esta casa de banho. Tão nada este apartamento. Fecho um pouco a torneira. Detesto água fria ou morna. Puxo a cortina de plástico. Ensabuo o corpo.
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Devo fazer um esforço para dissipar-me. Olhar cheio.
Registrar o que em nada esclarece. Sou MULHER sustentando um corpo. Sou mulher agrilhoada às utopias, a "anima" tecendo angústias e o Ser, as tristezas e o Verbo.
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Não compreendo isto de haver-me tornado a mentira. Atriz que sou no tablado, vivendo tantos papéis, poderia dizer que re-presento um papel, agora mesmo haverem pessoas a assistir-me, tudo estaria explicado, explicitado, mas no real das coisas e dos objetos, dizer isto seria uma justificativa, uma fuga, conduta de má-fé, e é o que escolhi viver, era-me mágico.
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Beleza. Sensibilidade. Nada... remete-me ao futuro. Negando o racional e rejeição. Se não mostrar sou capaz de um último ato em nome de ser a minha verdade. Confessar esta atitude causa-me prazer em todas as dimensões.
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Mulher. Ùtero da ec-sistência, da espiritualidade e sublimidade. Declamar rasgada e solenemente os restos de mim. Não rogo ouçam-me, escutem-me, sintam-me. Deixe que os ventos levem, assim sou bem servida.
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Deixo a água escorrer no corpo. Está quente. A voz sai da boca. Expressa-se na parede. Desliza-se. Escorre no ladrilho, buscando o chão. Mistura-se à água que escorre. Ouço. Não a sei dizer...
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Ouço palavras. Nada compreendo. Não posso entender o que dizem. Não me é dado saber a compreensão de suas mensagens, a-nunciações. Deixo os olhos irem deambular no interior da voz. Deixo a língua mover-se, mostrar todos os seus trejeitos, engrolações, dar nomes às viperinidades de meu caráter, fraquezas da personalidade. Solitários, olhos e língua, sendo a leveza de estar solta. Não há angústia. O carinho anda cambaio pelas arestas. Loucura. Seduções. O corpo frouxo no chão. Ladrilhos amareliçados. Vago a esmo pelo universo das coisas às avessas.
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Quem sou?
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Os dedos da mão não se mexem. Nunca desejei encontrar-me. Com que propósito? Encontrar-me não me liberta de haver sido a mentira. De ir residir numa sepultura.
Encontro-me de pé.
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Olhos de lágrimas. Abatimento. Amenizo o mover dos pés. Vago no jato de luz morta. Arrasto a sandália pelo chão da casa. Deito na cama, debulho o terço de angústias, medos, falsidades, farsas, hipocrisias.
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Por que estar no mundo? Nada pode explicar como fui escolher a mentira. Guardar a paixão. Nada sou. Não posso perceber. Dimensões sensíveis perdidas por haver escolhido...
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Um abraço de despedida. Acenar de mãos. Voz. Manhã do desconhecido. Um arrastar de formigueiro vem de muito distante.
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Restos de mim erguem-se brancos e brandos.
#RIO DE JANEIRO(RJ), 02 DE JUNHO DE 2020, 07:56 a.m.#

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