LONGAS ALAMEDAS GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA ***
Não toco
as pirâmedes de Queóps.
Transporto
comigo aqueles que ficaram para trás. Urna eu própria de minhas cinzas
particulares. Por que morre o homem? Campear outro modo de existir sem vida?
Por que o homem mente para si próprio a vida?
***
Dedos
tamborilam cinzas e fumaças.
***
Linces de
re-versos olhares veem mistérios, vislumbram ânsias do medo e desespero.
***
Hora.
Tempo. Oito horas e quarenta e cinco minutos.
***
Alvorecer
de cânticos de pássaros em con-sonância com os raios de sol. À distância, o
morro afigura-se desfeito.
Mar de demônios...
Lanço a corda e alguém devia descer para retornar com a mulher. Lavo os pedaços
rudes de pedras. Um prazer estranho penetrando a luz pelas frinchas da janela.
Muita palavra para o pobre muro de cimento. Muita areia para o caminhãozinho
furreca. Solto o ar no fim do dia. Gestos amargos na boca. Perdi a amargura da
solidão. Sinto a serena, suave dor do câncer, saltitando de contentamento e
alegria. Glória aos deuses por minha dor. Reliosa solenitude desta noite. A
deusa é um riso. Imagens de voz fazem oscilar a luz da lâmpada. Galgar e vagar
de mortais.
***
Vísceras.
Reticências mudas e surdas lançam recursos a prazeres ilusórios. Água empanada
de risos e gargalhadas. Taça nas águas. Sonho povoado de expressões. Apoteose.
Nostalgias. Luzes. Voz soprando nas longas alamedas do sono. Rosto navegando
barcos de brinquedo. Vozes enrouquecidas ruminam contradições, o eterno não
preenche o efêmero.
***
Sinto
saudades. Relembro passos. Revejo o sorriso, o olhar. Ouço letras desconexas.
Vontades. Esperanças. Vidraças. Encruzilhadas. Feições expressivas se eliminam
ao reconhecerem o lugar em que iniciaram imagens.
***
Abro a
torneira do chuveiro. Deixo a água cair. No chão, vários produtos de beleza e
higiene pessoais. Tão pequena esta casa de banho. Tão nada este apartamento.
Fecho um pouco a torneira. Detesto água fria ou morna. Puxo a cortina de
plástico. Ensabuo o corpo.
***
Devo
fazer um esforço para dissipar-me. Olhar cheio.
Registrar
o que em nada esclarece. Sou MULHER sustentando um corpo. Sou mulher agrilhoada
às utopias, a "anima" tecendo angústias e o Ser, as tristezas e o
Verbo.
***
Não
compreendo isto de haver-me tornado a mentira. Atriz que sou no tablado,
vivendo tantos papéis, poderia dizer que re-presento um papel, agora mesmo
haverem pessoas a assistir-me, tudo estaria explicado, explicitado, mas no real
das coisas e dos objetos, dizer isto seria uma justificativa, uma fuga, conduta
de má-fé, e é o que escolhi viver, era-me mágico.
***
Beleza.
Sensibilidade. Nada... remete-me ao futuro. Negando o racional e rejeição. Se
não mostrar sou capaz de um último ato em nome de ser a minha verdade.
Confessar esta atitude causa-me prazer em todas as dimensões.
***
Mulher.
Ùtero da ec-sistência, da espiritualidade e sublimidade. Declamar rasgada e
solenemente os restos de mim. Não rogo ouçam-me, escutem-me, sintam-me. Deixe
que os ventos levem, assim sou bem servida.
***
Deixo a
água escorrer no corpo. Está quente. A voz sai da boca. Expressa-se na parede.
Desliza-se. Escorre no ladrilho, buscando o chão. Mistura-se à água que
escorre. Ouço. Não a sei dizer...
***
Ouço
palavras. Nada compreendo. Não posso entender o que dizem. Não me é dado saber
a compreensão de suas mensagens, a-nunciações. Deixo os olhos irem deambular no
interior da voz. Deixo a língua mover-se, mostrar todos os seus trejeitos,
engrolações, dar nomes às viperinidades de meu caráter, fraquezas da personalidade.
Solitários, olhos e língua, sendo a leveza de estar solta. Não há angústia. O
carinho anda cambaio pelas arestas. Loucura. Seduções. O corpo frouxo no chão.
Ladrilhos amareliçados. Vago a esmo pelo universo das coisas às avessas.
***
Quem sou?
***
Os dedos
da mão não se mexem. Nunca desejei encontrar-me. Com que propósito?
Encontrar-me não me liberta de haver sido a mentira. De ir residir numa
sepultura.
Encontro-me
de pé.
***
Olhos de
lágrimas. Abatimento. Amenizo o mover dos pés. Vago no jato de luz morta.
Arrasto a sandália pelo chão da casa. Deito na cama, debulho o terço de
angústias, medos, falsidades, farsas, hipocrisias.
***
Por que
estar no mundo? Nada pode explicar como fui escolher a mentira. Guardar a
paixão. Nada sou. Não posso perceber. Dimensões sensíveis perdidas por haver
escolhido...
***
Um abraço
de despedida. Acenar de mãos. Voz. Manhã do desconhecido. Um arrastar de
formigueiro vem de muito distante.
***
Restos de
mim erguem-se brancos e brandos.
#RIO DE
JANEIRO(RJ), 02 DE JUNHO DE 2020, 07:56 a.m.#

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