#AO COMPASSO DE SABEDORIA ANTIGA# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA ***
Não há
pressa. O rio não tem margens, o rio não tem pressa. A decisão de re-nascer não
é o produto de algumas horas, é o vento do destino cujo próximo sopro haverei
de erguer ao topo, ao compasso de música antiga, toda a serena, clara e
sorridente sabedoria.
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A
melodia, doce e cheia de sentimentos os mais nobres, de emoções as mais
singelas, de desejos os mais puros, de paixão, domina o coração desde o
primeiro acorde; todo eu brilho, abundo em inspiração, felicidade, beleza,
cresço e escôo; diz respeito a tudo que na terra há de entranhado, secreto e
sagrado. Como penetram em minha alma, ainda vibrante de amorosa dita! Eles
próprios ardem no fogo do amor e do desejo de santidade.
***
Posso eu
contemplar os fundamentos da existência, adivinhar a sua profundidade e também
as superficialidades existentes, observar o labor da construção, esse árduo
trabalho, e esperar que tudo seja abandonado, desprezado, destruído, apenas
porque desejo uma resposta, a mínima que seja, acerca da vida e do mundo. Não
tenho apenas carne, sangue e osso em comum com todos os homens, mas também
sabedoria, e não só a sabedoria, mas também a chave dela. Só tenho esta chave
quando unido aos amigos e aos de minha estirpe e laia. Os ossos mais duros,
contendo o tutano mais suculento, só podem ser vistos e vislumbrados pelo
trincar simultâneo de todos os dentes unidos.
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Uma vez
mais, não sem hesitação e tédio, creio estar numa fase de repetir muito as
idéias e pensamentos, não vendo uma solução para isto, faço o longo trajeto que
conduz ao entendimento e compreensão. Tudo o que me rodeia parece agitado e com
os olhos postos e voltados para mim, até creio que os olhos olham-se para si
mesmos, desviando-os em seguida, para me não apoquentar de todo, contudo sem
poder deixar, logo a seguir, de tentar ler na minha expressão se já tenho
alguma solução verdadeira e salvadora para o drama e conflito das dificuldades
todas que se me apresentam dia a dia e que posso apenas protelar e esperar que
o tempo os solucione vez por todas.
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O
problema assaz difícil de assumir é que todas as coisas têm o seu instante de
acontecer, necessito delas antes deste tempo de acontecerem. Dotado de uma
inteligência clara e sã, embora algo lenta, de tendência à teimosia,
contemplação e preguiça, deveria desde os tenros anos ter sido lançado ao
torvelinho da vida, mas me mantiveram num isolamento artificial. Eis que de
súbito o círculo encantado se desfaz e eu continuo no mesmo lugar, fechado e
envolvido em mim mesmo. Seria ridículo em minha idade vestir o uniforme de
estudante. Não temo as zombarias. Isto não. Ridículo por não acreditar em uma
única palavra de professores, de seus ensinamentos, de suas certezas.
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Se às
vezes menosprezo, negligencio, numa outra palavra, mais conhecida e
inteligível, faço menos dos homens e até me burlo deles nestas linhas, não será
por isto que os responsabilize, culpe-os de minha indigência pessoal! Eu, que
cheguei tão longe disto de os braços mergulharem aberturas, eu que estou à
margem da vida, de onde se sente nos ossos toda a extensão do subsolo sem-eiras-nem-beiras.
Se eu tivesse agora uma necessidade de me definir, encontrar um pensamento e
idéia que sejam coerentes com quem sou, diria com toda a certeza que sou um
“maldito”, figuro no méttier dos “malditos”. Aqui, em vez de rezar uma oração
ou cochilar um pouco, sigo um impulso compulsivo, no qual não faltam nem o
célebre fogo do olhar nem o traço de solitário como um ligeiro véu de
compaixão.
***
Então um
silêncio, longo, enorme, estende-se pela sala de estar. Ouço-o nítido,
metálico, vem dos confins da eternidade, do vazio do horizonte... Detesto as
recordações, não tenho passado, não o desejo. Rompi com os ajustes de minérios.
***
Tenho
diante de mim o original de que não sou senão a criação; a essência encarnada
de tudo o que me falta: esta faculdade de sentir prazer com a consciência, de
impor-me à sorte e de não ceder a mui poucas metamorfoses. O ardente aspirar
pelo reino do espírito em eterno conflito com os mistérios das águas em mim,
com a inocência da natureza, igualmente sagrado e fascinante.
***
A lenta
decomposição da felicidade que me anestesia para me fazer enganar que o tempo
passa em vão e que ando em passos lentos, um mergulho em mim com uma lentidão
precisa e segura, um nada irreal, de escafandro. Não é verdade que não exista
amor feliz. O que acontece é que a felicidade dá tempo ao tempo e a agonia
busca solidão de alhures.
***
Sinto que
meu lugar não é aqui. Despedi-me de tudo. A todos da casa dirigi o último
adeus. Algo me chama. Sinto náuseas, quero encerrar-me num claustro para
sempre. A seriedade, meu jovem, é uma conseqüência do tempo; permita-me
confiar-lhe, numa ufanização do tempo. Também eu, jovem, dei valor ao tempo em
demasia, por isso quis viver a eternidade...
***
Não
procure reter-me, não queira dissuadir-me, ajude-me, pois do contrário irei
sozinho...
#RIO DE
JANEIRO(RJ), 03 DE JUNHO DE 2020, 03:10 a.m.#

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