#ENERGIAS DE PUREZA, INGENUIDADE..# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA ***
Amo estes
mundos possíveis, mas a alma está agitada, inquieta.
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As águas
deste novo mundo já valem mais que os mares e rios; são calmas, ventos passam
de entre as montanhas, sibilos entoam canções que não nascem apenas de
sentimentos, palavras, mas da vida que se re-nova, a neblina que cobre as
montanhas oferece aos olhos o deleite de ver a beleza, o orvalho da madrugada
está inda mais incentivando a coruja a cantar euforicamente, canta e canta e
canta. "Isso aí, Coruja... Cante, cante, cante. Quem sabe algum homem de
palavras re-presente o som de seu canto, leia as suas angústias e tristezas e
seus desejos, sonhos!"
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Chuva
forte irá cair!...
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Se o
melhor dos mundos possíveis é este, o que será dos outros? Não há mais a ser
dito, declamado. Quem sabe serão a liberdade, beleza sem par das palavras
declamadas à luz da sabedoria, inteligência; palavras que não apenas embelezam
o cenário de todos os ideais, abertos, contudo, às manifestações, que, na
continuidade da vida, tornam possíveis o encontro.
*&**
Esqueceu-me
a língua; a palavra se torna breve e hesitante. Versos e estrofes seguem os
caminhos da Língua Latina: vulgarizaram-se, tornaram-se versos e estrofes
mortos, resta apenas o Decreto Oficial das autoridades: "Os versos e
estrofes estão mortos." O desejo de conduzir me abandonou, o contato longo
e íntimo com os abismos me leva, antes, ao silêncio: “Quem sou para atingir o
milagre da expressão, expressão do milagre, e libertar as algemas e
correntes?”. Pobre de mim, não sei falar da vida, do que é isto viver. Houvesse
vindo ao mundo para ensinar como libertar os mortos, dar-lhes-ia a vida
novamente; sei de mim, vim para trilhar os caminhos-da-roça. Houvesse vindo ao
mundo para traçar as diretrizes da existência, o que fazer com um angústia no
seu auge?, se é que possa algo dizer, digo apenas que vim para refestelar-me na
rede de inquietudes.
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Empurrar-me
para a margem da estrada por afirmar a "poesia está morta" tão
radicalmente, recusar-me a ajudá-la a prolongar-se no mundo, estão me fazendo
um grandésimo favor: ando tranquilo, evito de atolar os pés na poeira até às
canelas. Somente após todos me houverem renegado, voltarei a todos.
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Resta-me
cumprir a solidão peremptória, eu diante de mim próprio com os meus mundos
possíveis, quatro misericordiosos segurando as alças do esquife, levando-me
para o descanso final. "Acreditai em vós. Sede quem sois", ouvira
tais palavras não faz muito, sorri com ironia: tais palavras lembraram-me os
psicólogos, com aquela prepotência de sabedoria: "... o que me falta é
justamente isso saber quem sou, acreditar em mim." Nada respondi. Só a mim
devo a satisfação de me não ser, de em mim não acreditar.
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Chuva
forte irá cair!...
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Uma
palavra simples, quase trivial (cada época parece ter a palavra que merece, não
é?!), uma palavra que se precisa verificar ou encarnar nos foi oferecida: “Sê
consciente e faze aquilo que quiseres!”.
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Ser
consciente – instante após instante – e fazer o que se quer (não aquilo que se
pode). Eis aqui uma espécie de realismo, capaz de nos libertar das nossas
esquizofrenias e paranóias contemporâneas, neurastenias e esquizoidias.
Nada sou.
Nada preciso fazer, repito estas palavras, os olhos mentalmente fechados. Às
vezes, por puro deleite, invento reflexões: se a música toca, esta música
existe, houve um criador, quem a tornou sentimentos e emoções profundos. Creio
nada escapar à inspiração, a não ser o próprio mistério da criação.
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Posso até
pensar que o ombrear-me com os sentimentos, trocarmos energias de pureza,
ingenuidade, ficou-me isto de dizer da vida em sentido de elevá-la, torná-la um
ser que se renova.
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A
conciliação entre as palavras e sentimentos é que tornam possível a re-novação,
possibilidade de con-templar as imagens que hão-de criar outras realidades,
outros horizontes.
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Chuva
forte irá cair!
#RIO DE
JANEIRO(RJ), 04 DE JUNHO DE 2020, 07:23 a.m.#

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