COMENTÁRIO DA ESCRITORA POETISA E CRÍTICA LITERÁRIA Ana Júlia Machado ACERDA DO TEXTO //**TU - QUEM ÉS?**/ (Data de Publicação: 01 de março de 2015) ***
TU - QUEM
ÉS?** Acarreto em mim a energia descomunal de questionar, mais robustez que a
robustez de uma questão. Porque a questão é uma interpelação inferior ou casual
e a refutação, a expectativa para que a existência prossiga a sua expedição sem
limites em procura do “Ser”, em cata de suas águas transparentes e vítreas.
Face a este texto maravilhoso de Manoel Ferreira, e que mesmo eu passo a vida a
questionar-me acerca do meu eu, e que cogiro que até ao fim dos meus dias
jamais vou saber o que realmente pretendo. Pois não se afigura um tema simples.
E, Olhando ao nosso redor cada dia ficamos com mais dúvidas. Sou eu ou o outro
que está certo, mesmo sendo um ser execrável, mas que é mais apreciado do que o
ser que pensa ser genuíno? Logra afigurar-se uma questão inadequada e sem
significação. Curiosamente, a réplica não se sacia com um acessível: “Chamo-me
…, e para os amigos ….e profissão….”, e adicionar o habitual “às suas
disposições e às de Divo”. A questão é muito mais penetrante e igualmente não
chega a largada célere e “filosófica”: “Eu sou eu (e as minhas razões) ”. “E
tu, quem és?” é uma questão de muita relevância e sublimidade. Crê uma
concentrada análise sobre si próprio, sobre as convenientes capacidades e
carências. Para qualquer circunstância que se deseje conduzir a efeito deveras
na existência (isto é, para as coisas que representam e que nos cativam) é
necessário interrogar-se a si exclusivo acerca dos expedientes de que se
conciliam para alcançar o fim. Em primeiro lugar, coerentemente, é necessário
erudição em que posição nos achamos Entendermo-nos do “A” ao “Z”: os feedbacks,
os prazeres, as propensões, as tendências, o jeito de cogitar. “Entende-te a ti
próprio” era para os helenos da Antiguidade a máxima erudição, o rebo enviesado
para a edificação do homem incorruptível. Deveras, quem quer que faça-se o
feitor desta máxima, redigida no templo de Delfos, alcançou em repleto. No
princípio do feito mais afamado de Sófocles, Édipo é-nos ostentado como rei e,
ao mesmo tempo, pai apoquentado pela epidemia que fustiga o seu povo. Partilha
o seu pesar, mas não se ajusta com expelir um berreiro infrutífero. Busca os
meios para achar o recurso para as imperfeições de Tebas. Édipo é um homem
coeso que alcança concretizações incontestáveis e não se lega capturar na mata
dos “desejaria”, “apreciaria de”, “inquieta-me”. O seu cunhado Creonte retorna
do oráculo de Delfos com a resolução, deportar o homicida de Layo (antigo rei
de Tebas e esposo de Yocasta). Mas quem era tal indivíduo? Após de questionar o
agoureiro Tirésias e um emissário de Corinto, Édipo encontra com a maior das
constrições que ele é o homicida de Layo, seu pai, e que reside em porte
incestuoso com a sua mãe. Quis conhecer a sua essência a todo o preço e
remunerou custoso, mas chegou a saber-se tal como era. Não é de admirar-se que
o final de Édipo fosse funesto. Exasperado, após de recuperar a sua cônjuge e
mãe estrangulada, orfana-se deliberadamente dos olhos, enterrando neles dois
broches da sua indumentária. E idêntico desataque conduz-nos a interrogar o que
é que teria sido melhor para Édipo: se insciência alegre, ou erudição
desventurada. Nos nossos dias são minúcias os indivíduos que aventuram o
conforto da existência que transportam para acharem a realidade acerca de si
exclusivos. A narrativa de Édipo é uma ocorrência limite. É uma comédia, logo
uma fábula. Mas o exemplo é claro: é relevante entender-se a si próprio. É mais
arriscada uma existência de quimeras que, não é mais que um lapso que logra
transportar-nos a uma existência que não ocorre de uma vida que é uma
aldrabice. Ele, ao entender-se, ingressou em exasperação. Mas ambulando a mesma
senda até à realidade, porque não terminar com um sublime final? Conseguimos
concretizar enormes factos no decorrer da nossa vida, porque perceberemos quem
somos, como operamos, quanto conseguimos conceder. Saber-nos a reentrante, é o
começo para toda a existência que queira existir em plenidão.
Ana Júlia
Machado.
***
#TU -
QUEM ÉS?#
Tu – quem
és? Quem és – tu? És tu – quem? Quem tu – és? Quem és – quem? O que é isso –
ser tu? O que é tu – ser isso? Tu – quem isso ser? Isso – quem é o ser?
***
És a
esperança de fé que perpassa os tempos de amanhã, do infinito, dos horizontes,
do uni-verso, de confins, de arribas; és a fé que suprassume as controvérsias
dos desejos e vontades do eterno e imortal; és a utopia da
consciência-estética-ética, da cristianidade, da transcendência, da divinidade,
trans-elevância do absoluto; és o desejo do belo e da beleza, de sonhos de
encontro do ser, de ser o verbo do sublime e eterno de ser a carne do perpétuo,
da cáritas; és a consciência-ética-estética que re-cria e cria outros
uni-versos de sonhos e quimeras, de fantasias e vontades da beleza
resplandecente do amor e da felicidade.
***
És tu –
quem? Tu - quem és? Quem és – tu? És – tu quem?
És o
verbo que perpassa o sonho de esperança do amor que fecunda o desejo de
conhecer, concebe a sede de compreender o inaudito do espírito de luz; és a
poiésis nos interstícios das querências de alegrias que preencham o vazio do
ser; és a vontade que habita o sonho de fecundar o verbo do amor, o verbo do
ser e das quimeras, conjugando temas e temáticas nas raízes do tempo, nas
sementes dos re-versos, in-versos, avessos das querências, contramãos das
tristezas; és o amor da esperança de conhecer o que é o divino em ti, em nós,
nos homens.
***
Quem –
somos nós? Nós – quem somos? Somos quem – nós? Nós – quem somos?
A
ausência de nós, a querência do múltiplo, o instinto do obtuso, a busca do
pleno, a vontade do absoluto, a perda, o des-encontro, o vazio, o vácuo, o
nada, as sorrelfas, os idílios, as nonadas, travessias, os olhos voltados para
o infinito, a alma no compasso do quotidiano e do real em busca da presença das
alegrias, prazeres, do eterno e imortal, mesmo no vai-e-vem do efêmero e
etéreo, mesmo na rede do sim e do não, mesmo na dança escalafobética da
contradição e das ambigüidades da consciência do presente entrelaçada à
consciência histórica.
***
Somos nós
– quem? Somos quem – nós? Nós quem – somos?
Somos os
braços para a-colher, envolver, afagar e dar o colinho do peito ao outro, aos
humildes, aos pobres, aos simples; somos o coração para amar, somos o espírito
para sensibilizar, somos a alma para desejar, somos a vontade da paz, da
felicidade, de nos encontrarmos, de nos encontrarmos em Deus, nas emoções
verdadeiras, nos sentimentos de compaixão, solidariedade, somos a verdade à
busca do Espírito Santo de nossos pecados e culpas.
***
Que
cantamos – nós? Nós – o que cantamos? Cantamos o quê – nós?
A graça
de sermos vocacionados à felicidade, à paz, ao conhecimento de sermos quem
somos; o espírito no ritmo das buscas do bem e da compaixão, nos acordes do
tempo e vivências, da solidariedade e da amizade, a alma na musicalidade dos
desejos de ser, da verdade.
***
De quem
cantamos – a graça? A graça de quem - cantamos? Cantamos a graça – de quem?
De quem
mais soube a poética do Ser, a poiésis do espírito, a palavra que entranha e
des-entranha o mistério da fé, da esperança, o soneto de rimas que
deseja a
chave-de-ouro do verbo que encarna a vida no tempo de viver, da carne que
verbaliza o tempo na vida de todas as utopias e quimeras.
***
A graça –
de quem cantamos? De quem – cantamos a graça? Cantamos – de quem a graça?
De quem
sentiu nos interstícios do espírito O que é isto – a busca do Ser? De quem
buscou no inconsciente divino a fé que alimenta a vida, a esperança que
pro-jeta os sonhos e fantasias, o amor que nos embala no vai-e-vem dos tempos e
das utopias. De quem construiu a vida com o suor das lutas e labutas, com a fé
das virtudes éticas e morais.
***
Que
cantaste – tu? Tu – que cantaste? Cantaste tu – o quê?
O
conhecimento do ser nas dialéticas da ec-sistência, o vazio do não-ser na
profundidade ausente/presente, na superficialidade dos interesses/ideologias,
nos desejos forclusivos da psique e mente; a fé no ser que des-vela a floresta
silvestre do sentimento, o abismo profundo da alma nas fontes metafísicas do
divino, na teologia imanente da transcendência.
***
Cantaste
o quê – tu? Quê – cantaste tu? Cantaste – tu, o quê?
O amor
que só vive de entrega e doações, o carinho que só ec-siste de toques e
re-toques. A ternura que só alimenta o sensível e a sensibilidade de sorrelfas
do sentimento e emoções. A compreensão que fecunda o coração dos homens, o
entendimento que rega o espírito, a solidariedade que comunga o eu e o outro e
condu-los ao desejo da conquista e real-ização. A paz de saber a vida, koinonia
do sonho e verbo.
***
De que
modo - cantastes? Cantastes – de que modo? De quê – cantastes o modo?
Na
melodia simples de versos profundos, que ascendem ao numinoso os verbos do
eterno, na eternidade da memória, na lembrança do espírito subterrâneo; na
musicalidade ingênua e inocente de estrofes que rogam a intuição pura da vida,
a percepção singela das veredas que ao ser da floresta nos envia para
con-templarmos a suavidade do uni-verso, a tern-idade do infinito, a
sublimidade do horizonte no crepúsculo da sensibilidade, a éter(idade) do
cristal-vida na dialética do ser no não-ser da dialética; no ritmo sensível de
palavras poiéticas, de poiéticos significados nos significantes do verbo que
precede a carne, de poéticos inter-ditos na significância dos sentidos não
revelados.
***
A quem
amastes – tu? Tu – amastes a quem? A quem tu – amastes?
À doce
esposa e companheira, aos filhos, aos alunos a quem desejastes no coração o
encontro da vida, da realização, aos homens, a quem desejastes a plenitude da
fé, o verbo do amor, entre-vírgulas o adjetivo do divino; a Deus amou na
divin-idade de seu Ser, no Ser da divin-idade do amor; a Cristo rogou e
implorou, contemplando a Salvação, redenção, a liberdade humanística da
Vida/Ser, o Ser humanístico da Liberdade/Vida, a Vida humanística do
Ser-Liberdade.
***
Nobremente
sofreste – tu? Sofreste tu – nobremente? Tu – sofreste nobremente?
Como
homem de fé, esperanças, quem com-preendeu, sentiu, viveu, vivenciou,
experimentou os atos-falhos, a forclusividade, a ausência, o vazio, mas no
espírito,
ainda que
a alma des-esperançada abisma-se nas cataratas de fontes abissais,
cantaste
a canção do espírito, os cânticos do amor e do verbo, cantastes a
solidariedade, compaixão, num mundo de sofrimento, dores, angústias; sofreste
nobremente, a nobreza da esperança da fé, do amor sofrestes em busca do
Espírito/Ser.
***
Foste tu
– homem forte? Homem forte foste – tu? Tu, homem – fostes forte?
Sinto a
tua força nestas palavras, nesta linguagem de meus sentimentos, neste estilo de
elaborar as emoções que revelam a tua ausência no mundo, no coração de todos os
que receberam tuas lições, teus conselhos, teus desejos de liberdade, fé,
esperança; no espírito de tua família que alimentou de sua alma compassiva e
solidária o amor de teu verbo-conhecer o simples, os versos, estrofes de
sensibilidade, as notas, ritmo, musicalidade. Mas a tua presença sensível e
intelectual em todos os séculos e milênios de nossa vida, de todos nós que
contigo convivemos, aprendemos a amar o belo, a beleza, a desejar o que
liberta, será Estrela Polar que nos guiará, mostrar-nos as veredas dos campos
silvestres por onde trilhar e querer o amor... A esperança... A fé....
***
Voz
aberta ao insondável, eis que, porém, reconheço agora que se abre apenas ao
insondável de mim. Regresso a mim, ao meu corpo distinto e classificável onde
todo o milagre aconteceu. E pergunto-me, suspenso, como foi possível, como é
que uma breve semente abriu assim até essa Voz, até ao silêncio donde essa Voz
se re-velou, donde essa Voz falo, donde essa voz gritou a todos os ventos os
seus medos e esperanças. Frente ao grande sono dos homens que o esqueceram, na
atenção inexorável ao sem limite de mim, a minha vigília arde como um fogo
assassino. Lume breve na minha intimidade, na brevidade de um pequeno ser, eu,
anônimo e avulso, ocasional e frágil – eu. E todavia, esse lume vibra de vigor,
brilha único e intenso contra o assalto da noite, contra o salto do sono ao
sonho, contra a travessia do sono à vigília.
***
Trago em
mim a força monstruosa de interrogar, mais força que a força de uma pergunta.
Porque a pergunta é uma interrogação segunda ou acidental e a resposta, a
espera para que a vida continue a sua jornada sem limites em busca do “Ser”, em
busca de suas águas límpidas e cristalinas
Manoel
Ferreira.
#RIO DE
JANEIRO(RJ), 01 DE JUNHO DE 2020, 12:45 a.m.#

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