COMENTÁRIO DA POETISA ESCRITORA E CRITICA LITERÁRIA Ana Júlia Machado À LUZ DO TEXTO #NASCI NA ESTRADA# (Data de Publicação: 05 de outubro de 2014 ***
BROTEI NA
ESTRADA
"Gabriel
Moreth de Souza proferia que a existência é uma estrada nesse caso não antecipa
estimular contemplar o termo dela...vá caminhando e cogitando e produzindo os
factos reais, mas eternamente caminhe mirando para o termo da estrada, mesmo
que ela não possua final e não largue de mirar pois um alheamento seu pode
transmutar o percurso dessa estrada" (Ana Júlia Machado).
***
Jornadear!...
A via é extensa, enladeiradas, declivosas, arqueias, pojo, chão comido pelas
consequências das intempéries, do ambiente adulterado pela crueldade do homem.
Incessantemente na via. Sou soalha, sou pavimenta, e até resido na Rua Santo
Antônio do Rumo, princípio, primordial renque de minha terra- genetlíaca. E
ambulo pelas vias, evoquem renques, áleas, avenidas, quelhas, largo nelas as
grudadas, até nesse caso que impercetíveis.
Observando
para ontem, caminhei por muitas vias, carrego em mim adentro memórias,
reminiscências, nalgumas aprendi júbilos, deleites, contentamentos, felícia,
fui até mais senhor, sujeito, criatura, citadino, permutei mestrias de palestra
com notórios, afeiçoados, privados, arquei com hostis, noutras admiravelmente o
oposto, ingressei em urbes, nelas residi algum tempo, abalei, não mais voltei,
regressei ninharias ocasiões por carência. Tudo restou para lá. A existência é
o outrora, o que permanece antes, o já e imediatamente, o hodierno, é a
deliberação de produzir a existência anterior, até ao decesso que nem é mais
anterior, nem é mais a sentença de construir o ido, o termo de inteiras vias;
***
O melodioso
e autor Geraldo Vandré numa ária largou a alegoria "calcorreador" do
povo nordestino - "Quanto mais eu caminho mais presencio rumo..." -,
mas seria apenas o povo nordestino que quanto mais caminha mais presencia
caminho. Isto é o homem: quanto mais anda mais contempla caminho, e ai dele se
não observasse, o sinal derradeiro é a apatia. Até podemos permutar o termo
"estrada" por "vida": quanto mais eu existo mais contemplo
existência, a existência é jornadear. Se não jornadear, não sou patavina, ninguém
é bagatela. Fadário? Zero de fadário. A existência carece de mim, carece de
todos para jornadeá-la, para caminhá-la. Sou eu, somos os homens a
confecioná-lo. Se não o produzirmos, largamos de ser existência, a existência
larga de ser nós os homens, as pavimentas largam de ser trilhos, os percursos
largam de ser vias.
***
Quanto
mais eu caminho mais contemplo caminho. Vou perseguindo os seus trilhos,
sendas, sémitas, vou espezinhando os chãos, degastando couros de calcantes. Mas
vou percorrendo. Sou quem fabrica a existência e a existência são as vias.
Alegre na rua Joaquim Felício, malfadado no Paulo Frontin. Alegre na Pacífico
Mascarenhas, desgostoso na Óscar Araújo. Realizado na José Bonifácio, quebrado
na Cícero Marques. Paradoxos, argumentações são dos caminhos, renques da
existência - não fossem elas que significado possuiria transitá-las de extremo
a cauda, até próprio de princípio a fim. Se encontro-me na via, hei -de
avaliá-la, ensaiá-la, experienciá-la, residi-la, para sazonar as suas periferias.
As minhas
vias, renques, áleas, alamedas, quelhas haverão o termo, é-me intrínseca a
cessação, concretizado ou não, com sofrimentos e tristezas, malogros ou
desencantos, mas todos eles sucedem havendo no Universo e todos ambulando ou
jornadeando neles, os que germinarão ao extenso do tempo haverão de
transitá-las. Assim ou crestado, apoquentado ou levedado - como alguns enunciam
sarcasticamente -, circunstância é que não largo as minhas soalhas por patavina
deste Universo, percorro-as, hei- de percorrê-las, é de meu comprometimento
persegui-las. Sem mesentério e sem testemunho assentar-me à margem de alguma
delas ou até na periferia não produz o meu requinte de calcorreador. Marchar de
cachimónia baixa pelas soalhas igualmente não é pertencente à minha natureza.
Perduravelmente de cachimónia levantada, alma guisada, é o envaidecimento por
que mais possuo estima. Se abonasse no infinito, nem o fenecimento me causaria
largar de ser calcorreador perseverante, nele construiria as minhas soalhas.
***
Brotei na
via, por todas as soalhas debulharei os andamentos.
Ana Júlia
Machado.
***
*NASCI NA
NA ESTRADA*
Caminhar!...
A estrada é longa, aclives, declives, curvas, poeira, solo trincado pelos
efeitos climáticos. Sempre na estrada. Sou estrada, sou estradas, e até moro na
Rua Santo Antônio da Estrada, início, primeira rua de minha terra-natal. E ando
pelas estradas, chamem ruas, avenidas, alamedas, becos, deixo nelas as pegadas,
inda que invisíveis.
***
Olhando
para trás, andei por muitas estradas, trago em mim dentro lembranças,
recordações, memórias, nalgumas conheci alegrias, prazeres, satisfações,
felicidade, fui até mais homem, indivíduo, pessoa, cidadão, troquei dedos de
prosa com conhecidos, amigos, íntimos, ombreei com inimigos, noutras
perfeitamente o contrário, entrei em cidades, por algum tempo nelas vivi, fui
embora, não mais retornei, retornei poucas vezes por necessidade. Tudo ficou
para trás. A vida é o atrás, o que fica atrás, o aqui e agora, o presente, é a
decisão de fazer a vida atrás, até à morte que nem é mais atrás, nem é mais a
decisão de fazer o atrás, o fim de todas as estradas;
***
O músico
e compositor Geraldo Vandré numa canção deixou o mito "andarilho" do
povo nordestino - "Quanto mais eu ando mais vejo estrada..." -, mas
seria só o povo nordestino que quanto mais anda mais vê estrada. Isto é o
homem: quanto mais anda mais vê estrada, e ai dele se não visse, o ponto final
é a inércia. Até podemos trocar o vocábulo "estrada" por
"vida": quanto mais eu vivo mais vejo vida, a vida é caminhar. Se não
caminhar, não sou nada, ninguém é nada. Destino? Nada de destino. A vida
precisa de mim, precisa de todos para caminhá-la, para andá-la. Sou eu, somos
os homens a fazê-lo. Se não o fizermos, deixamos de ser vida, a vida deixa de
ser nós os homens, as estradas deixam de ser caminhos, os caminhos deixam de
ser estradas.
***
Quanto
mais eu ando mais vejo estrada. vou seguindo os seus caminhos, veredas, sendas,
vou pisando os solos, gastando solas de sapatos. Mas vou seguindo. Sou quem faz
a vida e a vida são as estradas. Feliz na rua Joaquim Felício, desgraçado na
Paulo Frontin. Alegre na Pacífico Mascarenhas, triste na Oscar Araújo.
Realizado na José Bonifácio, fracassado na Cícero Marques. Contradições,
dialéticas são das estradas, ruas da vida - não fossem elas que sentido teria
percorrê-las de cabo a rabo, até mesmo de fio a pavio. Se estou na estrada,
tenho de conhecê-la, experimentá-la, vivenciá-la, vivê-la, para amadurecer as
suas margens.
***
As minhas
estradas, ruas, alamedas, avenidas, becos terão o fim, é-me inerente o fim,
realizado ou não, com dores e sofrimentos, fracassos ou frustrações, mas todos
eles continuam existindo no mundo e todos andando ou passeando neles, os que
nascerão ao longo do tempo terão de percorrer-lhes. Assim ou assado, frito ou
cozido - como alguns dizem ironicamente -, fato é que não deixo as minhas
estradas por nada deste mundo, sigo-as, tenho de segui-las, é de minhas
responsabilidade segui-las. Sem lenço e sem documento sentar-me à beira de
alguma delas ou mesmo na margem não faz o meu estilo de andarilho. Andar de
cabeça baixa pelas estradas também não é inerente à minha índole. Sempre de
cabeça erguida, peito estufado, é o orgulho por que mais tenho apreço. Se
cresse no além, nem a morte me faria deixar de ser andarilho persistente, nele
fari as minhas estradas.
Nasci na
estrada, por todas as estradas trilharei os passos.
Manoel
Ferreira.
#RIO DE
JANEIRO(RJ), 03 DE JUNHO DE 2020, 07:46 A.M.#

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