SOMBRA DA NOITE COM AS ESTRELAS GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
O portão, se
fechado está por cadeado, a porta de entrada, por chave, aberta está, viajante
da ressurreição, espero a noite, sua sombra com as estrelas, e não haver
escuridão; ouço a lembrança do olhar diante, ouço-me ser em direção ao
infinito. No escuro, nu. Dormindo, quero sonhar a licitude da alegria e júbilo.
Rasgo um
pouco do éter que me circunda, forjo um ser semelhante a Dionísio e entrego-o
como refém aos ciúmes de Hera. Descubro uma bebida oculta atrás de alguns
objetos inúteis, o sumo da uva, introduzo-a no meio dos mortais para libertar
os infelizes humanos de dores, angústias, embriagando-os com o néctar da
videira.
Ergo os
olhos para quem vela, lá em cima, protege os indignos mortais que, dirigindo-se
aos semelhantes, deles não obtêm a esperança, o dom divino lhes promete.
Preciso de reflexão profunda, meditar as moléstias psíquicas e olhar penetrante
embriaguez alguma possa turvar e mergulhe nos abismos os rogos dos infelizes.
Assim, a
alma, águas profundas e límpidas, onde se encontram, adormecidas e esquecidas,
as paisagens que o amor tornou eternas.
À procura da
lua ou, talvez, de mim, num piscar lento, boiando à luz do olvidamento de quem
insisto em ser. Convido a quem se autenticar assim pense serem estas palavras
originais. Enfim, nasceram em tabernas. Convido-lhe habitar poeticamente em
mim, se lhe é dado. A poesia habita os homens; individualmente, os caminhos do
campo são por vezes trágicos.
Busco longe
dos homens as delícias da noite com as estrelas e os verdes rebentos da
floresta espessa e umbrosa. Exijo contas aos mortais que praticam a
arbitrariedade e que, no desvario do orgulho, não contribuem para o triunfo das
esperanças.
A menos que
a água de imagens não necessite entender os antes de ideais perturbados, onde a
des-pontuação existe pasmada de sarcasmo que acorda a serpente. Serpente. O
peito de homem ilibado e irrepreensível é tumba feliz onde cumpre a caminhada,
aonde vai desenvolvendo passos em direção ao longínquo sem-tempo de chegada,
onde cumpre destino com êxtase.
Deus nos
preserve de suntuosa sujeição às correntes-algemas. Aceito a expectativa de
liberdade, guiado pelas estrelas, como aliada e julgo consoante o respeito aos
sonhos.
A vida é bem
cheia. Chegando ao corrimão da sacada, aparecem vizinhos na porta, nas janelas
em frente e juntam-se ao nosso público. Discuto, troco idéias, examino as
palavras, sorrio à passagem de Sean, consolo as crianças e atendo vez por outra
a chamadas telefônicas, sem nunca abandonar a pena, com a qual, vez ou outra, acrescento
imagens.
Continuo a
inaugurar-me, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, cheios
de lembranças e esquecimentos, na movediça fronteira do passado e futuro...
Chove lá
fora, além da Janela Aberta, o grande símbolo. Sean diz: “Sinto-me tão dentro
do mundo que me parece não estar pensando, sentindo, vivendo de nova modalidade
de respirar”. Isso é o mundo. Sou eu, está chovendo. É mentira, sou trabalhador
intelectual. A senhora está deitada dormindo. Sonhos dentro de outros sonhos,
dentro de outros sonos... É pássaro fino numa camisola branca.
Possuindo-se
espírito sereno, não procurando ruins intenções contra o processo da vida, e
não ultrapassando a medida humana, a vida decorre simples, humilde.
Simplicidade e humildade são o que existe de pleno, misericordioso. A prática
destas virtudes é a sabedoria plena.
Música sem
apoio em coisas, da mesma cor e tonalidade que a vida e morte. Vida e morte,
sem pensamentos, idéias, isoladas do prazer e dor. Volteia e se desenvolve,
vivo a noite, nota constante na sinfonia, a da ressurreição.
Palavras
existem para produzir o silêncio da ópera. Em cada silêncio mora uma melodia. Há
trágica beleza no ritmo, sonoridade, arranjo do que está escondido atrás das
sombras e vultos, beleza nascida da mais profunda dor.
Respiro mal
como se dentro não houvesse lugar para o ar. Caminho de lado para outro,
perplexo. Como? Sinto-me estar sendo ingênuo. Ansioso e infeliz como se
restassem terras não molhadas, áridas e sedentas.
Vivo com
serenidade, resignando-me a tudo. Parece-me faço parte do verdadeiro mundo e
estranhamente ter-me distanciado dos homens. O rosto é leve e impreciso, boiando
entre os outros opacos e seguros, fisionomias vazias, como se não pudesse
adquirir apoio em qualquer expressão. Todo o corpo e alma perdem os limites,
misturam-se, fundem-se numa só solidão, suave e amorfa, lenta e de movimentos
vagos como matéria viva. É a renovação perfeita, a criação.
Há homens
para quem o destino humano é mais do que passar a vida polindo o soalho com as
botas. Não são felizes e julgam a vida incompleta quando o vinco das calças
lhes assenta bem. Não gostam de andar atrás dos outros a adulá-los e a meter o
nariz onde não são chamados.
#riodejaneiro#,
07 de junho de 2019#

Comentários
Postar um comentário