ESPETÁCULO DE DIVINOS PROSCRITOS GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: SÁTIRA
O espírito
humano, à imitação da planta que floresce do modo mais esplendoroso entre os
não-conformistas e anticristos, aliás, onde sempre floresceu, na sombra, como a
violeta, embora com outro odor, deve seguir uma curva que o devolva ao seu
ponto de partida, ao seu lugar de origem.
No início,
falo deste estado maravilhoso em que se encontram os divinos proscritos, onde o
espírito se encontra, às vezes, lançado como que por uma graça especial; digo
que estes mesmos divinos proscritos anseiam incessantemente a reanimação de
suas esperanças e a sua elevação ao infinito; mostram um gosto frenético e
alucinado, muito embora em suas mentes e imaginações estas palavras suscitem
quase o mesmo sentido, por todas as experiências prazerosas e sublimes, mesmo
que perigosas, mesmo que em demasia ininteligíveis e portadoras de
conseqüências as mais desastrosas; ao exaltarem suas personalidades, suscitam
por um instante aos seus próprios olhos o paraíso de segunda mão, objeto de
todos os desejos, orgias, e digo, enfim, que este espírito arrojado trigueiro e
levado, sem o saber, até o inferno, confirma assim a sua grandeza original.
Creio não
ser necessário e nem conveniente transformar o espetáculo em um comércio que
visa apenas o lucro e o conforto, vender a alma para pagar as carícias
embriagantes e a amizade das parcas. Imagino um homem (um poeta, um filósofo
cristão, um anticristo, colocado no árduo Olimpo da espiritualidade, à sua
volta as Musas de Rafael ou de Mantegna, para consola-lo de seus longos e
invernosos jejuns e preces assíduas, observam-no com seus mais doces olhares e
úmidos lábios, os sorrisos mais iluminados. O divino Apolo, mestre em tudo
saber, afaga e acaricia com seu arco as cordas mais vibrantes. Abaixo dele, ao
pé da montanha, nas sarças e na lama, a multidão dos humanos, o bando dos
apátridas, simula os esgares da alegria e do prazer e solta urros provocados
pelas dentadas do veneno.
Entristecido
com tamanho espetáculo de luzes e palavras, gestos e insinuações, digo a mim
próprio: “Estes infortunados que não jejuaram, nem oraram e que recusaram a
redenção pelo trabalho, enfim o trabalho enobrece o homem, garante que o seu
epitáfio seja por todo sempre iluminado pela luz solar, buscam submeter-se aos
escárnios e humilhações de toda sorte como alguém se submete a um câncer, a uma
aids ou à morte, com aquele impávido fatalismo sem revolta, em virtude do qual
os russos, por exemplo, ainda hoje têm vantagem sobre nós, os ocidentais, no
trato com a vida.
Isto, como
agora sou bem autêntico e ousado em afirmar, é digno de um grande trágico: o
qual, como todo artista, somente então chega ao cume de sua grandeza, ao ver a
si próprio e à sua arte como abaixo de si – ao rir de si mesmo.
Em face da
velha senha mentirosa do ressentimento e da mágoa, a do privilégio da maioria,
enfim é mais fácil um proscrito adquirir o seu leito de penas, diante da
vontade de rejeição, preconceito, discriminação, de atraso e ocaso do homem,
ecoou forte, nítida, simples e insistente como nunca dantes pensado e
imaginado, a terrível e fascinante contra-senha do privilégio dos raros.
Eis,
portanto, homens supostos, divinos proscritos, o espírito de minha escolha,
chegado a esse grau de prazer e serenidade, onde sou levado a admirar-me a mim
próprio. Toda contradição desaparece, toda polêmica se resolve com um aperto de
mãos e três tapinhas nos ombros, como é sobremodo peculiar nos mineiros, todos
os problemas filosóficos e teológicos tornam-se transparentes, ou pelo menos
assim parecem. Tudo é motivo de prazer, de júbilo, de ostentação. Uma voz nele
fala (infeliz! É a sua própria voz) e lhe diz: “Você agora tem o direito de se
considerar superior à raça humana, a toda a humanidade; ninguém conhece ou
poderia entender tudo o que você pensa e sente; seriam mesmo incapazes de
apreciar a benevolência que lhe inspiram. Você é um rei que os passantes
desconhecem, e que vive na solidão de sua convicção: mas que isto importa?
Aliás, nada disso importa realmente. Você por acaso não possui este desprezo
soberano que torna a alma tão humilde e boa, capaz de praticar as mais
perfeitas misericórdias e compaixões?”
De quantas
ações tolas e imbecis não está cheio o passado, que são verdadeiramente
indignas deste rei do pensamento e que profanam sua dignidade real e ideal.
Quantos homens encontraríamos no mundo tão hábeis e perspicazes para se
julgarem, tão severos para se condenarem? Com a horrível lembrança absorta,
dispersa, desta forma na contemplação de uma virtude ideal, de uma caridade ideal,
de um gênio ideal, entrega-se candidamente á sua triunfante orgia espiritual.
Agora, da
contemplação de seus sonhos e desejos e de seus projetos de virtudes,
decidiu-se pela sua aptidão prática à virtude; a energia ao mesmo tempo
vigorosa, esplendorosa, resplendorosa, apaixonante com a qual ele abraça este
fantasma de virtude parece-lhe prova mais do que cabível e suficiente,
peremptória da energia viril necessária para a realização de seu espetáculo, de
seu ideal. Confunde ele, com toda a empáfia de sua personalidade, o sonho com a
ação, com a autenticidade, e com sua imaginação aquecendo-se mais e mais diante
do espetáculo encantador de sua própria natureza corrigida e idealizada,
substituindo por esta imagem fascinante de si próprio, divino proscrito, o seu
indivíduo real, tão pobre em vontade, tão rico em vaidade, termina por decretar
sua apoteose nestes termos nítidos e simples que contêm para ele todo um mundo
de abomináveis prazeres e contentamentos: “Sou agora o mais virtuoso dos
homens”
Logo de
imediato este furação de orgulho e empáfia se transforma em uma temperatura de
êxtase tranquilo, calmo, mudo, repousado, e a universalidade dos seres se
apresenta colorida e como que iluminada por uma aurora ácida e sulfurosa.
Se uma
ruminação selvagem, um grito rebelde, ardente, arrojar-se de seu peito com uma
tal energia, um tal poder de projeção que, se as vontades, desejos, sonhos, e
as crenças de um homem ébrio tivesse uma virtude eficaz, esta ruminação, este
grito reviraria os anjos disseminados nos caminhos do céu: “Sou um Deus!” Qual
é o filósofo francês que, para ridicularizar as modernas doutrinas alemãs,
dizia: “Sou um deus que jantou mal?”
Esta ironia,
cinismo, sarcasmo não afligiria um espírito elevado ao nível de um proscrito, e
ele responderia com todo o carinho e ternura que sua alma fosse capaz de
expressar e revelar: “É possível que tenha jantado mal, a costelinha de porco
com maxixe não caiu bem no estômago, mas eu sou um Deus”.
#riodejaneiro#,
06 de junho de 2019#

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