REMINISCÊNCIAS: POBRES DIABOS BRANCOS GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA




Certo é que suspiro desde há muito as reminiscências, aquelas recordações de uma verdade observada pela alma no momento da desencarnação e, quando retomada pela consciência, pode ser a eminência da base de toda sabedoria ou do conhecimento humano, e tenho ímpetos interiores de voltar-me os olhos para dentro apenas, mas infelizmente não o posso, não seria capaz de renunciar à chuva que cai, ainda mais que cai e desce sempre, não produz poças dágua na rua, acontecera de levar carros ladeiras abaixo, são elas inclinadas, quase em pés, não seria capaz de renunciar à neblina que cobre as montanhas, após as chuvas demoradas, de dois, três dias, lindo, esplendoroso, à cerração e ao friozinho por vezes ameno, por vezes intenso na orla marítima.


Não mergulho os olhos no interior, penetrando os interstícios mais profundos da alma, não por não ver sentido algum, tornar-se uma atitude narcísica, egocêntrica, egoísta, há muito compreendi que se fizer algo apenas por mim, vou terminar sempre angustiado, desesperançado, sem rumo, sem destino, ao contrário, se fizer pelos outros, sentir-me-ei alegre, contente, feliz, satisfeito, realizado.


É a própria excitação do momento que me leva a ter ímpetos interiores de voltar-me os olhos para dentro apenas, enfim, a chuva cai lá fora, simples, lenta, vagarosa, lava as calçadas do ano, anunciando um outro que se aproxima a passos largos. É a própria excitação do momento que leva a fazer a declaração de que o maior desejo é habitar para sempre o interior, conhecer-me nítida e translucidamente.


Isto de “sem dúvida” é um dos mais pobres recursos de estilo que conheço, evitando todas as vezes que posso, pois que suscita dúvidas de todos os modos que se puder imaginar, que se puder pensar, e, muitas vezes, sou eu mesmo que busco despertar nos íntimos a dúvida, fazer-se necessário duvidar para se entender e compreender o que está sendo dito.


Às vezes, necessito de excitar-me antes para que, envolvido com a excitação, seja capaz de criar algo de início que irá levar-me até ao final, crio a liberdade de buscar fundamentações das idéias, pensamentos, dos estados de espírito e da alma, criar-me, renovar-me, renascer-me, diante das cinzas que depositei nalgum lugar. Teria sido mesmo cinza que depositei nalgum cofre ou depositei outra coisa que não me vem à mente o seu nome, sabendo apenas que gemina a vida? Não me posso deixar de furtar-me à declaração de que, com esta excitação toda, peço aos homens que me compreendam, que me entendam, mostrem-me um outro caminho a seguir, um outro horizonte. Indicam-me em mim próprio, não são suas visões e pontos de vista, mas as minhas necessidades, os desejos, vontades, esperanças.


Não são muitas as coisas que vou encontrando: a história é uma só que o vale sabe dizer, trevas que se tornaram patrimônio, abismos que se tornaram visões, viseiras. Se por vezes me esqueço do mundo e gozo, junto de outras pessoas, os prazeres que ainda são permitidos aos homens, como o de se entreter a conversar aberta e cordialmente ao redor de uma mesa bem servida, o de realizar um passeio ou o de arranjar uma dança na hora certa, tudo isso produz em mim um efeito bastante agradável. Apenas não me agrada lembrar que há tantas outras faculdades descansando em mim, que bem podem mofar se não forem usadas, e por ora tenho de ocultar com cuidado. Ah, como isso confrange o coração! E, todavia, ser incompreendido, é esse o destino da gente!


Passada a excitação, não é só um sentimento de para quê isto que sinto, mas também uma espécie de arrependimento de não lutar para transformar as paisagens, as perspectivas, as cenas, os cenários comuns e quotidianos deste mundo, ou melhor, deste mundo velho sem porteiras, como se é costume dizer e que, às vezes, uso para enfatizar que as coisas permanecem sem limites, não há qualquer luz no horizonte que seja capaz de iluminar as situações e circunstâncias. A moral é uma, os pecados são outros, dogmas e preceitos ad-versos, e sempre muito diferentes. O ermo é sempre o mesmo. Vou entre tiquinho de coisas e misérias poucas, levo comigo os córregos que vou encontrando.


Se a curva assinala a mudança de direção, perspectivas e diretrizes, o que patentearia a alma grossa? Quando a maré está cheia, vejo passar muitos barcos. Que diferença faz o oceano vazio cresça ou não seus cabedais, se ponte alguma é capaz de vencê-lo?


Os cigarros acabaram ontem à noite. Não tive disposição alguma de sair para comprar. Além de não apreciar um pouco que seja sair à noite, é preciso andar muito até ao centro onde há bares e padarias abertos para atendimento aos pinguços e ao público em geral. Aprecio um aperitivo, mas tomo sempre durante o dia, aquando posso, a fim de fugir desta mesmice de homens casados, solteiros, vagabundos beberem à noite, acompanhado de seus companheiros de gole, de suas mulheres da noite, vestidos bem decotados. Degusto o aperitivo sozinho numa mesa qualquer, observando as coisas à distância, sobre o que os clientes tagarelam nada sei dizer.


Deixei para comprar os cigarros hoje pela manhã. Ademais, tive alguns problemas durante o dia, não passei muito bem, tendo sido necessário ir conversar com um amigo muito íntimo, o que me devolveu um pouco a tranquilidade de espírito. Conversar com um intelectual, alguém de mente e espírito abertos, alguém que vê além das montanhas e das serras, é algo sobremodo edificante; ao passo que conversar com alguém culto, penso sempre que a cultura é a ciência da viseira, é algo insustentável, despede-se, agradecendo, mas o estado de espírito permanece chafurdado no nada, no insólito.


Contudo, necessitava descansar-me, dormir. Um hábito antigo. Não estando bem, deito e durmo, sabendo que no outro dia irei levantar-me restabelecido, e sempre surgiu efeito este antigo hábito. Deitei-me. Liguei o aparelho televisor, mas de imediato desliguei, virei para o canto, dormi. Não vi quando a esposa fora deitar-se. Acordando pela madrugada, disse-lhe que não havia visto quando se deitara, respondendo-me que talvez estivesse cansada. O “cansada” sugeriu-me uma reclamação, enfim, ama deitar-se no meu peito antes de dormir. Sentiu-se sozinha na cama... Tratei logo de dar carinho, ser-lhe terno, um modo de relevar a atitude de haver dormido antes dela. E quando acontece de deitarmos juntos, mas não conseguindo dormir, levanto e vou para a varanda, olho a esmo para o vale, a mente enche-se de estradas de muito dobrar. Que curva a dobrar para a travessia? Acorda... "A que rio de várzea entrega o seu destino?..." O que há a responder senão aos medos e covardias de outrora, mea culpa por não correr pelas trilhas a fora, algum dia, quem saber, a corrida acontecerá. Algumas más escolhas e o homem perde a sua alma, perdera a minha, não será por sempre. Está chegando o instante de dobrar esta curva.


Acordei bem disposto. Tomei o café da manhã. Saí para comprar cigarros. Chovia muito. Aproveitei a ocasião para andar na enxurrada, sem preocupações, sem angústias, sem medos, qual uma criança que ama e adora andar em enxurrada, deixando a água passar de por baixo dos pés, às vezes lhe cobrindo até ao tornozelo. Lembrava-me com alegria e satisfação do colóquio com o amigo-intelectual, quem com muito poucas palavras conseguiu devolver-me a tranqüilidade de espírito, de alma. Sei gostar deste amigo-intelectual. Fora ele quem disse que a cultura é a ciência da viseira. Fora ele quem dissera haver dobrado a curva das ciências exatas, da matemática, enveredar-se pela História, e era o reduto de sua existência.


Alguém conhecido perguntou-me se havia retornado aos tempos de criança, respondendo que sim, gostava muito disto de andar na enxurrada, ser criança é algo muito singelo.
Se ontem me senti tão distante de tudo, tão sem olhares para as montanhas ao longe, tão sem ouvidos para o silêncio que insistia em entoar para mim uma canção, tão sem sentimentos para in-vestigar e avaliar o que perpassava a alma, hoje, nesta manhã chuvosa, ouvindo músicas, me sinto tão dentro do mundo que me parece não estar pensando, não estar entabulando conversa íntima comigo próprio, mas usando de uma nova modalidade de interpretar as coisas do mundo, da existência, de analisar as mil recordações oprimiam a minha alma e lágrimas assomavam aos meus olhos, é o mundo, isto é a existência, eu sou eu, está chovendo no mundo, eu sou um trabalhador intelectual. Vou comover a todos, vou despertar-lhes de seus sonos com um pouco de poesia, de reflexões, de esperanças, de sonhos. Por que isto de estar sentindo que em breve, em poucos dias, este vale será passado inalienável?


Sim, sim, não fugir de mim, não me identificar com atitudes de não, não fugir de minha letra, não fugir de meus defeitos, meus defeitos, respeito-os e considero-os, meus valores são tão pequenos, o desejo é de aumentar-lhes, intensificar-lhes as características, atitude esta muito peculiar a todos os homens, minhas arbitrariedades, minhas chatices, pitis, mazelas, meu lado negativo é esplendoroso e côncavo como um abismo, meu lado positivo é ininteligível como a caverna que só recebe visitantes que escalem a serra, não há como nela entrar pelo topo, não há topo.


A chuva diminuíra consideravelmente. O dia está nebuloso lá fora, além da janela, da janela fechada, o grande símbolo. Todo este escrito nasce de uma alma simples, embora os inúmeros conflitos, traumas, desesperanças e angústias de outrora; é óbvio. A desordem das atitudes, dos gestos, o calor da palavra têm a eloquência da sinceridade, da verdade.


Se a alma fora alguma vez dissimulada, e escutou a voz do interesse pessoal, íntimo, particular, agora é alma simples de um homem alegre e realizado com as novas conquistas, e muito bem confortável em sua própria felicidade. A curva na trilha da montanha, proporcionara aos linces do olhar contemplarem outros panoramas e paisagens? Visão esplendorosa, ambição que nunca tive, esta de atingir a plenitude e sublimidade do espírito, quando era um pobre diabo – sinto uma excitação sem tamanho, excitação que não me deixa renunciar ao prazer de um cinismo, dizendo “quando era um pobre diabo branco”.


Que modo sutil de terminar o parágrafo! Que viveza de estilo! Sinto um certo orgulho desta perspicácia com as palavras, com o deixar um mistério: "O que tinha em mente, dizendo “quando era um pobre diabo branco”? Enfim, sou um adepto da formosura do coqueiro que vence a areia marinha.


Só acredito nas palavras, quando elas se tornam universais, mesmo antes de irem para o papel. São sagradas para mim. Todo meu desejo emudece em sua presença. Não sei jamais o que se passa comigo quando estou ao lado delas; no vale, nada havia senão as montanhas, desejava dar risadas ou verter lágrimas no mundo, parece que a minha alma se revolve em todos os meus nervos...


Há uma melodia nas notas que escrevem no teclado com a força de um anjo, tão sensíveis e tão espirituosas! São as árias favoritas! E elas livram-me de todas as mágoas, de todas as confusões, de todas as manias, apenas ouço a primeira nota, e observo o mar, o bosque, as estradas de areia, imagem na moldura, suspensa na parede. Vou vê-la!, exclamo pela manhã quando desperto e olho com serenidade em direção ao sol nascente. Vou vê-la! Ao teclado, com as tintas nas mãos, com o lápis entre os dedos. E já não tenho qualquer outro desejo para todo o dia senão ao lado da amada, da companheira! Tudo, tudo se afoga nessa perspectiva.


Um dia, lá pela consumação do futuro, alguém escreverá algumas palavras sobre o encontro do crepúsculo e as ondas do mar, a amada e a companheira, e talvez só então o patentear do último reduto. Tenho agora uma outra eternidade.


Uma ilha e as divas são fenômenos intelectuais.
#riodejaneiro#, 04 de junho de 2019#

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