IRMÃO DO TEMPO, AMIGO ÍNTIMO DO SER GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
Vejo, sinto
o porto visto das águas, é bom tomar distâncias, elas aumentam o olhar, a alma
voa mais livremente.
Posso viver,
hoje, os caminhos, como se meu sorriso não fosse forçado. Posso falar com o
coração sem o medo de silenciar a boca. Posso fazer gestos, como se meus braços
fossem velas ao mar, prontas a envolver luas e estrelas, universos e
horizontes. Posso soltar a voz e olhar de frente para o futuro, para o
afluir-a-ser, como um irmão do tempo, amigo íntimo do ser. Posso esguelhar os
olhos em mim sem hesitância de enxergar as moléstias psíquicas. Posso
con-templar a morte deixando de ser temática acidental e vai se avolumando à
medida que a vida-obra decorre. Posso tornar os versos introdutórios de uma
composição como explicadores da temática da morte diária através de uma
continua evasão. Ainda que calejadas pelo remo, minhas mãos trazem a textura de
pétalas finas das rosas, pois, se se deram aos motivos do coração, pode haver
algo mais sensível, mais suave de se sentir íntimo, de afagar no peito? Posso
olhar o futuro sem as costas amarradas a nada. Posso viver sem ter que provar
nada a quem quer que seja, de explicar isto ou aquilo, o perdão que a vida me
concedeu. Posso esquivar-me dos tantos rebanhos do mundo, a solidão ser-me
benéfica, alvissareira.
Posso
assegurar virtudes e conquistas ad-quIridos no de-correr, per-correr das
con-tingências, isto seja objeto de rogos de migalhas de prepotências,
re-conhecer-lhes em mim, digam sou prepotente e me colocaram nas mãos feitas
conchas a tocha da glória, não me diz respeito tal procedimento como homem e
indivíduo represento para mim, imagem da convicção arbitrária da vaidade, o
poder, contudo a verdade das virtudes e conquistas deve ser a
consciência-estética-étical. Por que a farsa, a falsidade com isto: por que
mostrar-me não ser vaidoso, desde que não importune a dignidade e honra. A
vaidade é uma dimensão das relações íntimas com o saber o que faz com a
existência: a vaidade sincera se re-vela na busca e no desejo continuo das
idéias, pensamentos serem porta-voz da liberdade disto.
Sem
justificar meu silêncio ou meu canto quando alguém apontar seu dedo em direção
ao meu olhar, dar-lhe-ei minhas mãos, pois sei que os infelizes são os mais
dignos de compaixão, os desgraçados são os mais susceptíveis à solidariedade,
os discriminados são os mais sujeitos à comiseração. Posso explicar-lhe ipsis
verbis e litteris, as palavras no riste da língua, re-presentando sentimentos e
pensamentos, sabendo nada far-lhe-á com-preender e entender estou-lhe
simplesmente dizendo o que penso e sinto dele, a sofisticação da linguagem se
deve às ironias e cinismos, sarcasmo, é-lhe de direito. Asseguro o tempo
responder.
Posso ficar
sozinho, a luz apagou-se, a internet caiu, mas na sombra os olhos res-plandecem
enormes. Não adianta morrer, a vida é escolha, criação. Por que fazer mistério
disto? Não serei raptado por querubins!...
Mas o que
mais dói é ouvir daqui que a maioria fez da vida uma canção, cuja lírica possui
apenas uma palavra: HIPOCRISIA!
#riodejaneiro#,
06 de junho de 2019#

Comentários
Postar um comentário