VESPERATA DO RIACHO E CASCATA GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA




!... Acredito que sim. Riacho, tão sereno, as suas águas seguem tranquilas, enquanto que, imaginariamente, ouço uma das baladas a que aprecio, não sabendo o seu título, cuja autoria é do grupo Led Zeppelin, sendo o vocalista Robert Page, se não me engana o seu nome, também não sendo de meu conhecimento os autores da lírica. Parece que tocam, as águas e ritmo, melodia, arranjo da balada, fluindo transparente e límpido, claro, como o olhar divino, em seu curso.


Não me é dado saber se a imagem que se anuncia na claridade da luz do sol que se incide á superfície das águas é a que se revela espontaneamente, se a contemplo imaginariamente na intuição e percepção, à busca da sublimidade, o silêncio que se anuncia nela; não saberia responder pela vida alegre nas fisionomias que a meu redor florescem da criação por não comparar o som das águas, as águas descendo a pedra, batendo no espaço que lhe é dado. Não me é também dado saber se a profundidade do sítio onde caem as águas da catarata chega a constituir um abismo, e o som das profundezas surdo.


O riso de alegria por que sou por inteiro tomado, deixando alguns sons ressoarem melodicamente nos ouvidos, seria ouvido noutro estilo e linguagem, não ouvisse o das águas batendo no espaço que lhe é dado pela natureza, digamos até primevamente às cascatas, não ao riacho por o som das águas descendo o rio no alto das serras, parece afligir-me, pois sou de fato coração frágil e sensível.


Fosse-me dado torná-la virtuosa, não o sendo por me satisfazer enfatizar a partir de um adjetivo qualquer, não especificamente virtuoso, a virtuosidade aqui não está sendo chamada ou convidada, apenas um exemplo de que me sirvo, um gancho de ideia que ilustra, louvá-la, sendo de seu merecimento, pelo espírito que anseia e aspira tanto que sopra de entre as pedras das serras, sopro embalado pelo sibilo do vento que vem do sul. O vento venta-me, venta meu peito, venta o corpo, venta as visões interceptadas no enlace de noite raiz e diamantes, venta as palavras, venta as sereias e serafins.


A palavra deve ser adornada pelo sonho aliado aos desejos e vontades mais íntimas, acompanhado do som que atravessa o horizonte nas asas de um pombo solitário. Estudo percuciente e profundo, numinando os dias desfacelados. Imagino uma lindíssima virgem adornando os seus cabelos - "quê flores frescas colhidas na natureza!" -, ao longo do rio em que caminha solitária, ouvindo não apenas o som das águas correndo serenamente e o das águas caindo da cascata no único espaço que é dado em princípio, simplesmente por ser segundo a sua pureza, ingenuidade, inocência, por ser o sentimento das flores.


Como este riacho, os que existem em nível do imaginário, da imaginação, quem sabe até pré-cedendo o fim de algo que desde toda a eternidade acompanhou-me, sonho que se me anunciara impossível, e por sê-lo pus-me a buscar com esperança e paciência, rumo ao que se prolonga, prossegue, intui a escuridão próxima, deixando-se levar com consentimento.


O som das águas seguindo o seu caminho e das águas caindo da cascata no único espaço que lhe é dado desde toda a eternidade, faz assim: tudo eleva no espírito, na alma que sabe e conhece os seus sonhos mais íntimos. Esbugalhados os olhos, a língua engrolada, sons ininteligíveis. Encaminha as suaves melodias desse som em sinfonia com os de sibilos de vento de entre as pedras das serras, com o estímulo dos raios de sol que tocam a superfície, com as sombras de galhas de árvores.


Cheio de méritos, virtuosidades, mas poeticamente é que habito a orla desse rio rumo ao horizonte mais distante, onde com certeza nalgum dia de chuvinha fina, os pingos no chão de terra, de pedra, de asfalto, na neblina, sumirei vez por todas e de por trás apenas a lenda do prosador das águas. O círculo da água re-fletindo o rosto. Mais puro, transparente, porém, que a sombra da noite com as estrelas a velarem o ossuário da terra, se assim me posso expressar num estilo real em sinfonia com a re-criação de minha intuição, perfeição, sou.


Se afasto o olhar das águas, incidindo-lhe nos bosques próximos e distantes, encontro coisas belas, o som dos ventos que vêm do sul em sintonia com os de leste, desejo que seja de Éden, são tão belos quanto os das águas correndo lenta e suavemente, seguindo o seu destino. Uma flor que floresce ao sol é também linda, acompanhado de um quase inaudível sibilo de vento que vem do oeste. Sei disso.


A alma, creio eu, deve permanecer ingênua, inocente, um leve toque de pureza, para assim mergulhar fundo, enriquecendo a força e vitalidade das asas de águia que batem levemente enquanto seguem em direção ao horizonte. Já não vale, não é aceite, admissível a conclusão de se é melhor deitar fora a um tempo os olhos e os óculos, e seguir perscrutando os lances íntimos. As palavras se tornam cânticos de glória se ornadas com a vida alegre nas fisionomias, nos rostos que a meu redor se anunciam e se mostram.


Surgiu-me que deveria colocar um espelho de frente ao computador, onde registro estas palavras, ouvindo baladas do grupo Led Zeppelin. Não as conhecia. Fora o garçom de um barzinho que me emprestara para gravar, enquanto tomava uma branquinha. Não tive inda a curiosidade de ler a imagem das letras refletidas na superfície lisa – a criatividade é tanta que me veio ser mágico, esplendoroso, se houvesse procissão de pingos de chuva na moldura espelho, na sua superfície onde a imagem se reflete. Os pingos passando por sobre as palavras, aqui e ali pingo que não desceram, palavras e pingos, pingos e palavras.


Dividir a eternidade, a imortalidade que se vão modelando, “sin-fonizando”, no transcurso da balada que ouço no ouvido, enquanto caminho ao longo do riacho de águas nítidas... Houve amigo quem identificou com categoria fora eu nascido no hospital ao lado de um córrego que outrora eram de águas límpidas, cristalinas. Os sofrimentos da escrita se anunciam indescritíveis, indizíveis, inexprimíveis.


É por isso que me enceno numa caminhada ao longo de um riacho, o som das águas correndo alegre e saltitante o seu itinerário, esperançosas de que em todo ele o som dos ventos vindo de todas as direções do planeta estivera presente.


Dividir a imortalidade invejando essa vida, esta caminhada passo a passo, sendo que passo a passo cada passo é um passo, um ornamento das flores que acariciam as pernas, isso é também sofrer... Pudesse eu haver descrito este instante, registrando na página, mas não me fora legado dom para a arte da escrita, apenas rabiscos de um instante de reflexão, idílios jamais lograram-me.


Deixo o mundo existir... Deixo o riacho correr livre...


#riodejaneiro#, 08 de junho de 2019#

Comentários