RAÍZES DE LUMINOSIDADE E SOMBRAS GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA




O jogo e a ligeira agitação da água no seu jorro fazem desenhos mágicos com os eixos, formando figuras extravagantes que, por desaparecerem rapidamente, não se podem definir. Se esta é a lição da minha velhice, esta é a mensagem que intenciono deixar nestas páginas, esta é a sabedoria que pretendo seja refletida por todo o sempre, não o sei; sei apenas que, como prova da autenticidade de meu renome lendário, as galinhas não são maiores do que os pombos.


O próprio céu olha o jardim com sorridente satisfação, como se estivesse contente por ver que a natureza fora capaz de reter um espaço vital ali, enquanto a cultura é toda encaminhada para fora das lápides poeirentas. Possuo um aspecto extravagante, movimentos reumáticos e um tom melancólico e sonolento nas minhas ruminações de senil. É evidente que a raça se degenera, como muitas outras raças nobres e reles, pela escassez de cuidados para mantê-la pura. Homens existiram por muito tempo na sua variedade distinta, e os representantes atuais, da nova geração, parecem estar disto cientes a julgar por todas as lúgubres condutas e posturas.


Se eu tivesse a ousadia de assumir como é encantador enfrentar grandes e misteriosas calamidades, emagrecer, empalidecer e aos poucos me consumir, com efeito, não estaria a me sentir velho, senil. Esplendoroso gastar o tempo em ocupações que me dão um aspecto esquálido e feio, tornar-me agradável e até belo, pela graça espontânea com que eram feitas estas ocupações.


A minha agradável e deliciosa personalidade, enfim me especializei no humor negro, este humor que denigre todas as atitudes virtuosas e esplendorosas da existência, não sei se o fiz por desespero, por descrença, por falta de fé na vida.


O meu humor negro ainda permanece nos lugares em que vivera, como uma rosa seca perfuma a gaveta em que murchou. Se eu me pusesse a dizer sobre as dificuldades todas que enfrentei na vida, ouviria todos dizerem que nada mais fiz que repetir as mesmas baboseiras que todos os idosos dizem antes de chegar a morte, deixei no mundo a confissão de um velho sem esperança, sem fé, um velho desconsolado, um velho triste. Se me pusesse a dizer sobre as alegrias todas que tive na vida, os prazeres inúmeros que desfrutei, as felicidades todas que senti, diriam que sublimei tudo o que vivi, não tive a coragem suficiente de me colocar frente a frente comigo próprio. Além de velho, de senil, de estar caindo aos pedaços, de haver morrido e esquecido de cair, ainda um velho covarde, nem na hora derradeira tem a dignidade de ser sincero, sério.


Há de tudo neste mundo. Há quem chore das alegrias alheias, a felicidade de ver as pessoas felizes e alegres dera origem ao choro, não me posso esquecer de interessar e mesmo me divertir com a presteza com que as lágrimas todas se adaptam às realizações, aos sonhos sublimes e divinos concretizados, as esperanças todas realizadas, as emoções e sentimentos mais esplendorosos dos homens, aquando alguém está alegre, feliz. Também há quem ria das desgraças alheias, o riso de ver as pessoas tristes, cabisbaixas, angustiada. As pessoas geralmente são tão orgulhosas das suas deficiências como de suas qualidades.


Estas palavras, contudo, não têm a franqueza de uma confissão de dores, sofrimentos, desilusões, decepções com a vida, como seria eu capaz de enumerá-los a todos, sem deixar um de fora, um único apenas, enfim, a memória não é a mesma de alguns anos atrás. Não têm a sinceridade hospitaleira que espera o leitor, este que espera de mim as sabedorias mais profundas, as mensagens mais verdadeiras, os ensinamentos mais percucientes, pois...


A este preço ou qualquer outro, constato que a vida chegara ao fim. Nunca imaginara, melhor dizendo, nunca pudera imaginar que tão intolerável espaço de tempo se arrastasse entre o crepúsculo e a alvorada e que fosse tão tedioso isto de não poder arrastar os pés nos salões, festas, velórios, pois que estou velho, estou fazendo hora extra neste velho mundo sem porteira, morri e esqueci de cair. O melhor seria deitar-me logo resignado, deixar que a vida, com suas fadigas e tédios, maltrate meu corpo já quase prostrado de todo.


Pessoas cujas vidas atingiram um esplendor sem limites geralmente se mantêm de esperanças tanto mais magnificentes quanto menor o coeficiente de possibilidades de ainda viverem um longo tempo. Quanto a mim, acaricio sempre a idéia de que alguma mudança inesperada da fortuna me favoreça.


Quase desejo estar entre os jovens, os moços, nas longas tardes de inverno. É aborrecido, para um velho como eu, ficar perambulando, sem outra companhia senão a sombra refletida nas calçadas, nas ruas, nas paredes dos estabelecimentos comerciais, das casas de família, dos botequins. No outono, que pode haver de mais agradável do que ficar o dia inteiro, sentado na sala-de-visita, no tronco de uma árvore cortada à soleira da porta, a conversar com alguém quase tão velho quanto eu. Ou então desperdiçar o tempo com algum simplório que saiba madracear, mesmo porque os homens de meu tempo nunca souberam como utilizar o tempo! Palavra de honra, nunca fui tão feliz quanto sou na minha velhice, que alguns chamam de senilidade.


Alguns, aquando se encontram comigo, dizem que ouviram dizer que tinha viajado, estava vendo fantasmas à luz do dia. Afinal, quando será, não me esquecer de convidar para a partida, terá ele imenso prazer de carregar as minhas malas.
Comprouve-me seguir uma outra aventura, excelsa e manifesta; comprouve-me consagrar, dia e noite, a minha vida à solidão, ao silêncio.


Encontrei-me com um amigo a quem faz um bom tempo não o via. Mostrei alegria e a sua falta, o que o deixou muitíssimo satisfeito comigo. Disse-me que estava aquela casquinha. Não havia perdido as suas esperanças, não estava desiludido da vida. Não podia ser possível, ainda é muito novo, eu é que estou fazendo hora extra neste mundo velho sem porteira. Despedimo-nos. Segui o meu itinerário. Caminhava pela manhã. Andando, imaginei algo que seria o “cúmulo do absurdo”. Não seria isto de arrastar os pés nos salões, festas, enterros. Seria um homem casado, divorciado, viúvo, ferrado. Surgiu-me assim. O que estaria eu dizendo com isto não saberia de modo algum explicar, pois que não me casei, não tive filhos. Fiquei solteiro. Houve muitas oportunidades de casamento, mas preferi a solidão. Fui homem que sempre exigi contas aos mortais que se casam e que, no desvario do orgulho e da vaidade, não contribuem o mínimo para a eternidade do amor.


Mas a título de uma resposta a quem porventura comentar isto nas esquinas, nas tabernas, até mesmo sendo o mais cínico, irônico, destilando os venenos todos, diria que quanto mais velho, mais amor; sem velhice, não há outros prazeres para os homens.


Tenho muitos medos de falar livremente a todos. Não se tem medo senão do medo, e o medo aqui é que todos comecem a pensar que sou um velho inútil, estou caindo aos pedaços de tanta velhice acumulada na alma e no espírito, morri e esqueci de cair; enfim, descascaram os meus pepinos da velhice, e, se tomei da pena para dizer alguma coisa a respeito da velhice, a fim de amenizar tantas dores que me perpassam, sentir-me melhor, acabei foi destruindo a última luz que me restava para deixar registrado no papel os meus sentimentos e emoções. Após lido, não haverá quem não me olhará de soslaio, de esguelha, de esconso, cochichando: “Aquele ali escreveu sobre os seus sentimentos da velhice, está mesmo numa decadência de dar dó, está caindo aos pedaços. Veja bem que se dispõe a arrastar os pés nas festas, nos salões, nos enterros”. Sentir-me-ei o mais ridículo dos velhos.
Disse-o, repetindo-o, que vão dizer que não respeito a minha velhice, quando me disponho a arrastar os pés nas festas, de alegria e felicidade, dançando, nos funerais, de tristeza e desconsolo, mas é que necessitava enfatizar um pormenor, e, não repetindo, além de não ser uma ênfase da ideia, não iria ser possível entender o que mesmo estaria eu desejando dizer. O fato é que a linguagem verdadeira, sincera, sem sombras, não de dúvidas, pois sem sombras de dúvidas suscita as dúvidas mais atrozes, além de ser um lugar-comum, e o que tento revelar é algo mui profundo; o fato é que a linguagem verdadeira, sincera, parece vazia de sentido para o ignaro, e para os inteligentes não parece ser vazia de sentido, mas é vazia de senso.


Disseram-me que em procissões de enterro não se deve arrastar os pés nas pedras das ruas, nos asfaltos, deve-se caminhar com finesse e respeito; isto de arrastar os pés nas procissões de enterro é uma falta de respeito com os enlutados, com os presentes, pois que o barulho suscita lembranças da pessoa amada que no momento se dirige para a sua última residência, para o seu último lar. O morto deseja as suas homenagens todas, ou seriam as pessoas que desejam homenagear o morto com terços, rezas, choros, tristezas, saudades, não sei bem dizer, o certo é que me disseram que não se pode arrastar os pés em procissões de enterro.


Ninguém me dissera antes que não poderia dançar nas festas, aquando chegasse à velhice, não seria uma atitude razoável – o termo não é este, sabia disto desde todo o início, mas me surgiu à mente, não desejando que não figurasse, poderia suscitar até outros questionamentos mais profundos, outros senões percucientes para isto de na velhice estar arrastando os pés nas festas; não seria uma atitude inteligível, se na mocidade, na juventude, na maturidade, não dancei, não aproveitei a vida, por que agora é que o farei, é estranho, esquisito, até mesmo ridículo fazê-lo.
Vão dizer que não respeito a minha velhice, quando me disponho a arrastar os pés nas festas, de alegria e felicidade, dançando, nos funerais, de tristeza e desconsolo, caminhando lentamente, um bicho preguiça andaria mais rápido, mas não se trata de preguiça de ir até ao cemitério, ouvir as últimas palavras dos parentes e íntimos, os choros de saudade e desconsolo.


#riodejaneiro#, 05 de junho de 2019#

Comentários