TIRANDO LEITE EM PEDRA GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: SÁTIRA




Vós não poderíeis imaginar que, através de alguns adágios reunidos, pudesse res-ponder-vos ao despautério a mim endereçado, mas a melhor res-posta a qualquer situação fora sempre servida em prato frio, alguns pratos se eternizaram por haverem sido quentes, e a fumaça ainda se encontra esvaecendo no ar. A contra-resposta nem através de milagre dos milagres, milagre inédito nos anais do tempo, será dada, inda que sem qualquer categoria.


Há momentos em que quaisquer esforços para uma ideia que produza frutos os mais deliciosos tornam-se ineficientes, não adiantando rasgar as vestes e pisar em cima, arrancar tufos de cabelo, sair desembestado pelas ruas e avenidas esgoelando, tomar um pileque de Absinto, atirar-se no abismo, discursar na Câmara Municipal, nalguns segundos apenas, nada disto lega resultado, apenas perda de tempo. Resta deixar a ideia de lado, arrumar outra coisa para fazer. A bem da verdade, quantos desejos se me apresentaram de uma ideia supimpa e não me fora possível realizar. Situação difícil de assumir, alternativa não há. Enfiei a cauda entre as pernas, sentei-me em cima.


Por vezes, quando lemos obra de algum escritor, surgindo idéias inestimáveis para realizar na vida, abrem cancelas inúmeras para outros horizontes, e, incrível, tornam-se alegrias, satisfações, contentamentos. Alguém dissera que o melhor mestre são os livros, para mim esta fala é inconteste.


Vós tivestes a pachorra de cantar a todos os ventos haver eu roubado palavra vossa, usado à revelia. Se me faltava palavra - às vezes, acontece de haver lapso de memória, a palavra some da mente, e não há o que fazer para trazê-la à superfície; só quando nos esquecemos disto, é que surge -, poderia ter aberto o dicionário, escarafunchando até nos seus abismos, encontrando alguma que me servisse. Palavras não tem donos, nem mesmo o dicionário é proprietário delas. Acusar alguém de roubar palavras creio eu ser um desatino sem limite e fronteira.


O tempo é pura magia. E neste tempo descobri o indescoberto, não que a acusação de posse indevida, ilícita da palavra tenha estado indescoberta, estivera sempre às claras. O indescoberto era de outra origem bem diferente.


Pensa-se, imagina-se, elucubra-se que dons e talentos não tem limites, pode-se realizar com eles todas as coisas, as impossíveis, as que são frutos da imaginação fértil, nunca existiram. Isto não é verdade: tem limites, e isto constitui nó górdio na garganta dos mais insustentáveis. Conheço muitos limites que neles habitam.


Tirar leite em pedra... Nem Deus seria capaz desta proeza. Roubar a vossa palavra com o intuito de com ela criar alguma coisa seria o mesmo que tirar leite em pedra. Vossa palavra era uma pedra no contexto em que estava inserida, na intenção de alcançar horizontes inestimáveis, era pedra bruta.


Se vós quem a utilizou nada conseguira com ela, apenas uma palavra no meio de tantas, e estas tantas foram eficientes conforme suas funções, objetivos, como seria eu capaz de tirar leite dela?


Mas ela existia no dicionário, eivada de sentidos os mais esplendorosos. Livrei-me de esforços sobrehumanos de tirar leite de vossa pedra bruta; ordenhei um vernáculo - a vossa era escrita com dois ''S", a minha com apenas um "C": aquelas famosíssimas que são pronunciadas da mesma forma, mas possuem significados diferentes -, castiça a ideia que se revelou, não esperava isto.


Digo-vos para encerrar: "Não roubo palavras e nem tiro leite de pedra. São dois limites insofismáveis na minha existência. Não se pode mesmo tirar leite em pedra, mas pode-se ordenhar vernáculo, não esquecendo que "vernáculo" é do gênero masculino, o que produz leite é do gênero feminino."
#riodejaneiro#, 06 de junho de 2019#



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