CHAVE DO SILÊNCIO ABRE VENEZIANAS DO SOM DO SER# Graça Fontis: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA




Epígrafe:


"A imitação, o plágio podem ser realizados por todos, mas ninguém pode imitar, plagiar o particular."(Manoel Ferreira Neto)


Penso a tristeza de palavras não compreendidas, a visão dela permanece dentro do silêncio - inteiro encontro-me inquieto e busco uma posição de dormir; dormir com o pijama das náuseas é tarefa para forças herculanas. Penso a angústia de atitudes não compreendidas - sou uma irritação difícil e intenciono um estilo de apanhar o sono, afagá-lo no peito, ninando-lhe "lá-lá-lá, lies, lies, lá-lá-la." Penso o vazio de sentimentos não correspondidos - sou uma dor inestimável e desejo um modo de fechar os olhos, e nenhuma imagem criada na "cegueira" dos linces afiados, fecho-os, crio visões. Penso as dores no processo da consciência, era-me mister conhecê-las, e partir, ir embora, mas a tristeza de palavras permanece à busca do ser - sou uma alegria estonteante e já estou me distanciando da vigília. Estarei partindo muito em breve, e nestas plagas do mundo não pisarei mais os pés.


Inalo, entre lacônico e lascivo, a pureza de sentimentos e sensações. Respiro as maresias de quimeras. Uma beleza muda, silenciosa: a mudez de sentimentos lindos - uma correspondência de afetividade e sentimento, ternura e sensações, carinho e dedicação.


Providas de significação e significado, estas palavras tecem a mim com luxo e requinte, re-vestido de uma erudição chinfrim e de uma empáfia sem louvores, dormir imbuído das finesses da vaidade e do orgulho é desconfortante, o problema passa a ser encontrar a posição do sono, rola-se na cama por tempo indefinido. Não consigo deixar de reconhecer: existe, neste sentimento de liberdade, qualquer coisa de espontânea, emociona sobremodo.


Efemeriza-se o vácuo no interior da memória e, de suas dimensões temporais, exala a contingência dos desejos mais profundos. A necessidade de visão de vida mais sentida. A volúpia, que emana de si, esgota-se e renova-se a todo instante...


Com-preender e re-presentar o particular é o objeto específico da arte. E, ademais, enquanto nos limitarmos ao universal, a imitação, o plágio podem ser realizados por todos, mas ninguém pode imitar, plagiar o particular. Por que não? Por que os outros não o viveram, os acontecimentos do dia a dia não foram experienciados e sentidos por eles. Caráter altamente pessoal de uma impessoalidade. De mim próprio, sou hóspede secreto. A chave do silêncio abre venezianas do som do ser.


Uma gota de mais e/ou de menos no corpo de minhas ausências, vazios, abismos, uma gotícula às audácias e ousadias das origens como reverência.


#riodejaneiro#, 04 de junho de 2019#

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