RELÓGIO DA ANGÚSTIA E DA ESPERANÇA GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
Há agora um
mundo outro, ordem inusitada, excêntrica, terrível, desumana, mas que satisfaz,
imprime prazer pelo seu próprio espírito inovador, arquitetura em busca do
absoluto. É isto que desejo; parece-me o mais elevado que o homem conceba,
crie, busque instituir, estabelecer, o mais extraordinário e sobre-humano.
Exalta-me a idéia, o sentimento de habitar esta dimensão superior e fenomenal,
que ultrapassa a emoção e a razão, qualquer coisa, na verdade, divina. Origina
a liberdade. É dado o passo na demolição, avassaladora fase do caos, destruição
dos intentos. Desorganização, por um lado, mas integração, por outro.
Águas cessam
de bater contra a margem. Espio a luz a reconstituir-se insidiosamente, vejo o
centro de rosa entrelaçar-se de pétalas, de forma viva, atraindo os restos
dispersos, no esforço ansioso de os reunir. Lascas de luz incitam fragmentos.
Torço-me no
leito como se todos os tempos da memória se houvessem desencadeado sobre mim.
Em vão, tento abafar os soluços, cravando os dentes no travesseiro.
Relógio da
angustia e da esperança. Nascido sob os olhos da discriminação, rejeição, só
tinha felicidades intermitentes e efêmeras; dizia que, para mim, a própria
felicidade era semente de fuga, de negligência, de revolta, até mesmo de
rebeldia – idéia que repetia sempre, como se tal pensamento fosse o gérmen de
continuar vivendo, mesmo que por nada.
A angústia
tem também a sua hipocrisia... Meu espírito gosta, ás vezes, de cambalear na
solidão, na melancolia, estrebuchar nos devaneios e algazarras, e não admito em
hipótese alguma que me tomem por saudosista. Espírito debochado, galhofeiro,
acho o lado mesquinho das coisas e mais me comprazo em dizer as circunstâncias
da alegria de cismar... Os defeitos são antes do coração que do espírito. Não
os pratico em suas atitudes, que são de modo geral imutáveis e leais. Sou capaz
de sacrifício e dedicação; sobretudo se me não pedem o sacrifício determinado
ou a dedicação consciente, mas aquele que nasce de uma sensação, da
sensibilidade. Porque não possuo nem a modéstia nem o engenho da simulação,
vejo-me no rosto o orgulho e a satisfação.
Desejo de
novo o meu mistério. Qualquer coisa.
Sentimento
que alcança significação universal por ser expressão do anseio e da esperança
do imutável coração humano. A música fixa e exalta de tal forma esse sentimento
que dá a impressão de uma prece.
Tenho dias
terríveis, ansiedade que ameaça a tomar-me por inteiro, conflito entre quem já
fui e o homem em que me estou a tornar; julgo-me então distante da realidade em
que estou vivendo: muitas dificuldades e o de que necessito para tornar-me
homem ; e a quantidade fastidiosa de folhas de papel, dilaceradas,
amarfanhadas, que me juncam o forro da mesa às mãos, dão-me a sensação de ser
todo ele um encontro, se bem quero expressar o desejo de encontro, e não a
busca.
Se um
Serafim descesse do céu!...
A miséria é
mar longínquo, não é como qualquer cisterna. Para cruzá-la, qualquer esforço é
pouco.
Para quem a
sonoridade de um adjetivo é mais importante que a exatidão do sistema...
Sibilam os verbos presentes. Transformam-se em realidade. Um sonho sendo
metamorfoseado. O homem ousa emitir o seu grito, grito antigo, o seu vernáculo
de sonhos, que manifesta todos os seus ideais, pensamentos, desejos, a
consciência de seu tempo.
Não
assistimos ainda à aparição de nós a nós mesmos. Nunca pensamos a sós conosco,
no silêncio:? Nunca dizemos palavras desconexas entre o sono e a vigília, no
exato momento de nos entregarmos aos braços de Orfeu?
Estamos
vivos, nós somos, nós, este vernáculo de sonhos que sentimos presente,
vernáculo que se não pensa, que se não toca, é estranho e arrepia de alegria e
nos põe os olhos na eternidade.
Como se uma
árvore me acompanhasse, dialogasse comigo, árvore de grande copa, de desejo
definido, curvada como para saldar-me, parabenizar-me, com o seu amparo, eu, o
viajante da ressurreição.
Como se mãos
possíveis me estendessem um tesouro – tesouro aberto para prazer da alma e do
espírito. Enigma suficiente para aproximar o amor: resultado capaz de fazer
acordar a humanidade dos homens e dos indivíduos.
Tenho a
sensação de que a vida corre espessa e vagarosa dentro de mim, borbulhando como
um quente lençol de lavas.
Rio alto e
olho-me furtiva e rapidamente ao espelho para observar o efeito do riso no
rosto. Pareço mais um selvagem, um eterno rebelde, os olhos ardendo acima das
faces incendiadas, pontilhadas de sardas escuras de sol, os cabelos castanhos
despenteados sobre as sobrancelhas.
Ah, talvez
eu devesse estar fazendo a minha caminhada, talvez deva tudo largar e andar tão
simplesmente sem rumos e objetivos... Fecho os olhos por instantes,
permitindo-me o nascimento de um gesto ou de uma frase sem lógica, uma frase
sem eiras nem beiras.
Lá do fundo
de mim mesmo, após um momento de silêncio e de abandono, subo, a princípio
pálido e vacilante, depois cada vez mais forte e doloroso: das profundezas
clamo e chamo por mim... Permaneço algum tempo parado, o rosto sem expressão,
lasso e cansado como se eu houvesse tido um filho. Aos poucos vou renascendo,
abro os olhos vagarosamente e volto à luz do dia. Frágil, inseguro, respiro de
leve, feliz como um convalescente que recebesse no rosto a primeira brisa da
manhã.
Enquanto a
música volteia e se desenvolve, vivo a madrugada, o dia forte, a noite, com uma
nota constante na sinfonia, a da metamorfose, da mudança. É a música sem amparo
e consolo, sem apoio e afago, em espaço ou tempo, da mesma cor que a vida e a
morte. Vida e morte em pensamento, em idéia, em imagem, isoladas do prazer e da
dor. Tão distantes das qualidades humanas que poderia se confundir com o
silêncio.
#riodejaneiro#,
04 de junho de 2019#

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