UNÍSSONAS CORCOVAS BRILHANTES GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
Quadro expressionista,
no “instante da solidão”, numa “tarde de véspera de natal” ou “águas de natal,
fechando o milênio”, sexta-feira e nostalgia, sexta-feira e desvario. O dever
do indivíduo para consigo mesmo, onde os conflitos psicológicos predominam
sobre as situações. Não invejo aos mortos em que a terra lhes é leve, não
invejo aos vivos em que a cruz é-lhes tarefa árdua, empresa doída e condoída.
Solidão, melancolia. Não me enciumam os olhos brilhantes de prazer, alegria,
contentamento dos indivíduos que encontraram a agulha no palheiro, há-de se
saber o que farão com ela!, não me enciumam as palavras bem pronunciadas,
delicadeza e generosidade de pronúncia, daqueles que cismaram haver descoberto
o indescoberto: a palavra diz tudo.
Eu, as
lembranças, recordações, há homens que nascem póstumos, há homens que vivem o
póstumo por um mínimo de tempo, por um "cadinho" de horas dispersas,
por um tiquinho de segundos de devaneios, mas sentiram e viveram o amor, o
carinho, a ternura, e talvez outro momento não virá. De origem pósterga, se
assim posso dizer, mas a ênfase naquilo de haver dito sobre representar um
individualista anarquista e ser em verdade conservador. Não me é dado saber-me
o individualismo anarquista de meus pensamentos, condutas e posturas, ideais, e
ser conservador. Que contradicção é esta?
Compreendo
de súbito que o nascimento é re-novação, que estou só, embora não haja muito
tempo que um amigo veio até minha casa entregar-me um cartão, uma fotografia
que tirara ele do presépio de natal que construíra numa das salas de sua
residência. Dissera-me hoje pela manhã, quando fora se consultar comigo.
Trar-me-ia em casa como gratidão por cuidar tão bem dele. Amante irreversível
da arte da Fotografia, residira em França, lá aprendera segredos e mistérios da
arte de fotografar.
O mundo
lega-me a paz e a tranquilidade, mesmo que seja bem impossível haver
tranquilidade num dia de natal, só eu em casa, mas em verdade a sinto, não
havendo modos e estilos de isto negligenciar ou desconhecer de todo. Ninguém mais
se importa comigo, não digo mais qualquer respeito a ninguém, e quem se lembra
de mim pode ter a estranha convicção de que todos aplaudem a sua imaginação
fértil, deveria aproveitá-la num outro sentido, o que não existe nem jamais
existirá. Defendia a liberdade espiritual, que nada teme, e não se submete a
nenhuma disciplina partidária, apenas à verdade de si mesmo, e se isto se
patenteia na realidade do mundo e das contingências, então não há duvidar de
que com algo contribuí para a mudança das coisas e dos princípios.
Conversar
com as molduras, o cinzeiro, o cigarro que terminou, restando as cinzas. Ficar
assim olhando, com cotovelos no joelho, amparando o rosto. Por exemplo, aquela
rosa branca ali. Estou bastante solitário. A família fora passar Natal numa
ilha com os amigos. Disse-lhes, à mulher Greicilene e às filhas Enriqueta e
Ibisilene: "Nada mesmo contra vocês todas, mas deixem-me aqui em casa
sozinho, quero deixar os corvos voarem soltos e livres", riram de meu
sarcasmo, ironia, cinismo, mas espliquei-lhes ser a verdade do momento,
repensar as mediocridades e mesquinharias.
Quem sabe
não se trata bem de solidão, creio que se estivesse com alguém do lado trocando
algumas idéias e pensamentos sentisse de mais a solidão. O mendigo Ronaldo
retornou de sua pequena viagem, estivera internado na clínica para neuróticos,
tem convulsões constantes, pareceu-me estar melhor, roupas bem limpas, bota,
cabelos penteados, de blusa de frio. Brincara eu com ele: "Esta roupa não
é sua, Ronaldo... Parece lá de Inimutaba. Ele respondera: "Sou do
Jataí..." Chovera até por volta das duas horas da tarde, há quatro dias
chove sem parar. Senti-me feliz por aquele tempo em que estive conversando com
ele. Quais seriam as razões para este quadro de tamanha convulsão neurótica?
Mendigo. Quem iria investigar o seu passado?
Desejou-me
um feliz Natal, e se precisasse dele poderia contar. Nunca se esqueceria de
quando começou a ter uma crise neurótica, tendo sido eu quem o socorreu levando
ao Pronto Socorro, sendo devidamente medicado, mas não tinha mais solução o seu
caso, assim dissera-me o médico neurologista e psiquiatra, as crises iriam
sempre estar presentes em sua vida.
Não sou
mesmo capaz de pensar alto, de imaginar coisas elevadíssimas, e mesmo o
conhecimento mais esplendoroso e divino que pudesse eu usufruir dele, ainda
assim não creio que iria de algum modo satisfazer a minha fome e sede, aliás já
engoli todas as côdeas de pão sob a mesa, encontrando-me por inteiro saciado, e
só daqui a algum tempo irei fazer uma refeição e se possível de um bife com
gordura bem acebolado, a carne é necessária, amo de paixão, apesar de saber de
meu colesterol alto, e com esta disposição e estado de espírito posso muito bem
transformar a carne a ser comida, amanhã, pois não janto, e esta é a minha
última refeição do dia, às cinco horas da tarde, com unicamente um copo de
leite. E mesmo o mais espiritual e intelectualizado indivíduo contempla o mundo
e a si próprio numa sexta-feira, Natal, através das lentes de um pince-nez.
Falando
sozinho, conversando com as flores, as lembranças, quando era pequeno dormir,
esperar Papai Noel trazer Iaiá Garcia ou Helena, o diálogo com as coisas é
possível porque elas têm subjetividade e o diálogo com as pessoas é possível
porque existem sonhos. Conversando com a samambaia, varrido da silva, três
dezenas de séculos de solidão acumulada no interior, atrás dessas todas
cabeças, conferem ao silêncio uma densidade de ouro e riso e os segundos entre
as frases passam como minutos, o silêncio na boca dos indivíduos faz rolar
pedras surdas, a algazarra das palavras faladas rápidas e sibiladas, depois
muda de imediato: sorri como que para se desculpar e os lábios descobrem o
esqueleto: esses dentes sem origens e nem raças, conhecemos apenas as
influências em que o osso substitui o baton.
Reencontro
assim a qualidade de silêncio que amo, em que se escuta as juntas estalarem e
se sente a cólera de esticar os ossos dos dedos na sombra, a cara completamente
em osso: faces encovadas, testa saliente, maçãs do rosto baixa, "já
ouviste falar que com a idade caem as rugas japonesas?", olhos pequenos,
quase de sono chegando até às têmporas de paralelepípedo de um entalhe cinza
claro, seteiras em que rolam pequenas pupilas negras, misteriosas, que me
espreitam obliquamente a ingênua estética dos chamados drama e conflito de
caráter, no qual cada elemento se apresenta como uma unidade muito
característica e isolada no teatro das bonecas, na casa de bonecas mais linda
que uma criança já tenha imaginado, e lá dentro moram todos os seus sonhos.
Negrumes,
abrindo espaço entre poros para que o ar me invada juntamente com o desejo
escondido dos homens, não estando nas tintas para que níveis de desejos
escondidos. Nutro a certeza de que me olham, perscrutam-me os mínimos pormenores
dos olhares a todas as coisas e todos os objetos que estão nesta sala de estar.
Absolutamente. Olham-me. Novamente a certeza. A dúvida.
Pode até
parecer que o meu interesse nesta hora solene em que me encontro em meu quarto,
é hora de meu repouso, olhando estreita e estritamente os lugares ao longo, sem
intenção alguma de encontrar uma mínima teia de aranha, mas esperando o sono
chegar para que durma um pouco, levante bem cedo pela manhã e diga de chofre
que é Natal, que assim mais um tempo de desejos e sonhos se realizam e chegou a
hora e o instante de todos os encontros e prazeres. Viver é lutar contra as
sombras da alma e do cérebro. Existir são recitar, declamar sobre si o
derradeiro juízo, "O homem é um ser inútil para si mesmo"
Sinto-me
bastante próximo de virar-me para o canto, fechar os olhos, ao compasso de
lembranças antigas, de recordações as mais vivas e, quem sabe, muito felizes,
que não pude senti-las, mas agora consigo saber vez por todas que foram sim
dias felizes, de sonhos e quimeras, ao compasso de pensamentos os mais puros e
sublimes, toda a serena, clara e sorridente sabedoria de que fui dotado, e
agora não estou muito interessado a representar uma cena de inteira satisfação,
mesmo que não me sinta um pouco sequer angustiado, antes ao contrário, sinto-me
como um indivíduo que contempla o torvelinho da vida com um calmo e amigável
gesto de saudação. Ao olhar para fora e desligar-me de pensamentos imersos,
apalpo o próprio rosto, e não obstante o percebo corado(seria de vergonha - mas
de que? -, seria de timidez - o que me intimida? Do mesmo modo, há rubor em
meus pés, apertados nas delineadas sandálias de couro persa. Ninguém na casa -
se houvesse alguém - poderia supor a degradação de minha natureza enfadonha, um
atoleimado doutor a serviço de todos. Nada sei da autenticidade de meus
sentimentos, e se insinuo aqui que não deveria investigar e procurar saber,
estaria sendo o mais ridículo possível, e isto não posso admitir em hipótese
alguma.
É preciso
que se viva de modo normal para que se possa de algum modo saber destas coisas
de meu destino estar em perfeita harmonia com tudo aquilo que mais
profundamente desejei em vida, devo admitir sim que é uma dádiva divina, um dom
que necessito sim de investigar e colocar em prática. A liberdade incólume e
derradeiro juízo de mim próprio, urge que mergulhe profundo nesta investigação,
olhar crítico e a livre investigação sobre o que reside no mais profundo da
alma, alfim é o derradeiro juízo é de mim próprio.
Então, é
Natal! Abro a veneziana, a janela. Manhã, onze e meia...
#riodejaneiro#,
08 de junho de 2019#

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