REDIL SEGURO DE UMA PUERÍCIA GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
Deixai-me,
antes, esclarecer o significado destes termos do título, supondo que vós não
conheceis, e, de imediato, ao receber do carteiro a correspondência em resposta
ao vosso cartão por ocasião de minha data natalícia, que, aliás, fez-vos olhar
de soslaio numa atitude de o que significam essas palavras, intensificando o
desejo de saber o que mesmo estou a vos responder, deixando para outra hora
olhar no dicionário o que significam e assim podendo ainda mais tornar límpidos
os sentimentos que nestas palavras habitam por vossa consideração e respeito,
vosso reconhecimento e amizade, o que vos agradeço.
Bem, redil é
um curral, não o curral para bois e cavalos – aliás, não fazemos esta
distinção, se vimos animais de lá ou cabras num espaço aberto, chamamos de
curral, mas em relação ao que nos é conhecido, o que o Português de nossos
professores nos legaram. Sim... Redil é um curral para animais de lã ou cabras.
Resta-me,
então, esclarecer o significado de “puerícia”. Se vos disserdes que o Aurélio
só apresenta um único sentido. Então, para que vós possais deliciar com o nível
dessa missiva em resposta aos seus cumprimentos por ocasião de meu aniversário
natalício, pergunto-vos. Há o que no mundo que na velhice anda de três, na fase
adulta anda de dois. Há quando se arrasta pelo chão. Se vós já sabeis a
resposta, ótimo. E muito simples, não. Agora, se vós ainda não sabeis que
resposta há a ser dada, devo-lhe lembrar que são os seres protegidos de Deus.
Sim, são as crianças. E é na infância que se arrastam pelo chão.
Se vos
houverdes seguido a tradição do enigma a ser descoberto, creio que seria um
tempo enorme perdido estar a vos escrever a respeito, quando responderia de um
só golpe, como o jogar desafortunado que com um abanão das mãos espalha as
cartas sobre a mesa, assim podendo haver aproveitado para outras considerações
e respeitos.
Então, já
podeis entender o que o título à resposta significa: “Curral seguro de minha
infância”. O que isto quer dizer?
Estando os
termos definidos, o que facilita muitíssimo a leitura, por já se intuir os
sentimentos e emoções, os desejos de revelação do espírito e da alma, posso
prosseguir.
Escrevestes
em vosso cartão: “É com alegria que nesta data cumprimento-lhe de maneira muito
especial, pela passagem do seu aniversário natalício. Rogando a Deus que lhe dê
muita saúde, felicidade e paz. Para que você, sendo esta pessoa especial dotado
de brilhante inteligência e devotamento às letras e sentimentos humanísticos é
um expoente de vida tão útil a muitas pessoas”.
Dizei-vos da
brilhante inteligência e devotamento às letras. Não vos esqueçais, e isto vos
peço com respeito e consideração, de que na infância é que tudo se revelou,
fora quando as letras se tornaram um só a ser realizado, o que me causa muito
orgulho e satisfação. E é nestas vossas palavras que me inspiro para responder
ao vosso cartão.
Às vezes,
sentado de por baixo do pé de jabuticabeira, lendo os meus livros, presenciava
ao pastor levar as suas ovelhas, carneiros, cabritos para o curral, recebendo
lá os cuidados merecidos, a alimentação para a continuação da vida. Imaginava,
então, que o pastor após alimentar seu rebanho, dirigia-lhes a palavra,
contando histórias inúmeras de suas experiências, de pessoas amigas e
conhecidas, das bobagens dos adultos, de seus sofrimentos e sonhos,
necessidades e urgências.
De repente,
era eu uma ovelha ou um cabrito ou um carneiro, ouvindo as histórias do pastor.
O livro era o pastor, o que me contava as histórias, e, por serem livros
clássicos, uma linguagem universal, culta, erudita, o que mais me fascinava
eram a pronúncia dos termos, e a todo momento interrompendo a leitura e
perguntando o que significavam aquelas palavras tão difíceis. Observava ele o
imenso prazer que sentia com o conhecimento do sentido, e aquela vontade
tresloucada de os guardar a todos, de armazenar nalguma estante de minha alma.
Agradeço-vos
pelos valores em mim depositados, e, por virem de vós, posso sentir e pensar a
seriedade e honestidade, o que há neles de reais em vosso peito, todavia a responsabilidade
de representar esses valores aos amigos, conhecidos, é intensa, por
simplesmente ser fundamental ouvir a voz, a fala do pastor, deixando-lhe livre
para as suas mensagens e desejos, ensinamentos e vontades, transformando o
espírito à busca do verbo amar, e muitas vezes acredito sim nada dizer em
especial, algo que desperte os íntimos para as buscas do verbo amar, não
importando o que trazemos muito íntimo em nós mesmos, em verdade ainda não tive
a ousadia de sair do redil seguro da puerícia, entregando-me inteiro às
seriedades e sinceridades, o que aprendi com as palavras foram a brincadeira, o
divertimento, os prazeres destes jogos com os sentidos e sentimentos, isto que
nos habita e desejamos tanto revelar a todos os ventos e seus sibilos de entre
as serras.
Digo-vos que
não estou elaborando de modo às coisas mostradas, sentimentos revelados,
mostrem algo de especial. Acredito que as relações com os acontecimentos da
infância, aquando lendo as minhas obras, sentado de por baixo da jabuticabeira,
passar um homem levando o seu rebanho para o curral, tenha sido feliz com esta
imagem, com esta relação com as letras.
Contudo, era
o que sentia na infância com a passagem das ovelhas à porta de minha
residência. Tendo se referido ao devotamento às letras, lembrou-me súbito o
devotamento do pastor às suas ovelhas.
Se essa
missiva em resposta ao vosso cartão de aniversário é em absoluto
despropositada, peço-vos a devida compreensão, mas não me teria sido possível
se não fosse através desse nonsense, dessa infelicidade com as relações
estabelecidas, não sendo por haver ingenuidade, inocência, simplicidade, mas
por não haver empolgação com as palavras, elevando-as a sentidos espirituais
que às vezes escapam aos olhos.
Penso que
vós interpretareis o redil, fazendo-me um questionamento percuciente:
"Definindo o termo redil "curral", sendo curral para animais de
lã ou cabras, o pé de jabuticaba era o meu redil?" Em respondendo ao vosso
profundíssimo questionamento, merecedor de reverenciamento, não digo ser o meu
redil, embora seja eu animal, com a diferença de ser racional, mas o pé de
jabuticaba considero a minha caverna.
Agradeço-vos
íntima e espiritualmente as palavras a mim dirigidas, os reconhecimentos e
desejos de outras conquistas, valores, virtudes, a partir de uma entrega sem
fronteiras e limites às palavras, a isto que se tornou a vida e a busca de
Vida, o sentido de viver e a Esperança, o sentir de Amor Sonho...
#riodejaneiro#,
05 de junho de 2019#

Comentários
Postar um comentário