GRITOS, SUSSURROS E GEMIDOS GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: PROSA
A verdade
singela, pura, inocente, no entanto, tem sempre a aparência ambígua; por que
inda não in-vestiguei a razão de ser aparência ambígua? por que inda não
coloquei a verdade singela na sua aparência ambígua? medo, talvez, de estar
diante de coisas que iriam desconsolar-me?– um assobio, um murmúrio de águas
vivas, ruído de fonte ou de cascata, o canto da coruja sussurrado, o uivo do
lobo gemido, cochichado.
Posso ficar
sentado por horas seguidas nesta poltrona, com as pernas para o alto em cima da
outra poltrona, olhando a trajetória da luz do sol nas montanhas, ouvindo
músicas na emissora de rádio, observando o mar, investigando os lances
pretéritos dos acontecimentos. Quem dera estivesse na Suécia, podendo
contemplar não só as montanhas, mas também os fiordes!... Ai, se pudesse
passear nas margens do Rio Senna à noite, sob todas as luzes parisienses!...
O sol faz
refletir um desenho artístico no papel envelhecido da parede do quarto. Há o
tic-tac do relógio que marca nove horas e doze minutos. Há grande quietude em
todo o quarto, cheio como está de tantas coisas raras e fantasmagóricas; num
átimo de tempo, pode tudo transformar-se, pode tudo tornar-se coisas
absolutamente novas e reais, suficiente o acreditar nelas, crer na vida que
posso dar-lhes.
Acho que
seria suficiente se uma pessoa fosse amiga, sincera, fiel para quem vive com
ela. Carinho também faz bem, toques de ternura e amor são a verdade, não apenas
do momento, instante, mas da vida. Bom humor, companheirismo e tolerância –
enfim, é necessário ser consciente de que os homens somos imperfeitos. Ambições
razoáveis a respeito do presente e do desejo de realizações do outro. Se
pudesse servir todos ingredientes assim... então já não teria tanta importância
o amor.
Óbvio que é
apenas o medo e o pretensioso bom-senso que me faz acreditar em fronteiras. Não
existem fronteiras. Não existem, embora algo grite e sussurre no íntimo,
dizendo-me que isto é um desejo de não existirem fronteiras, mas existem, os
psicólogos são mestres desta rede, os homens são os peixes, e passamos a
existência nisto de querer saber as fronteiras da consciência e inconsciência;
não existem, nem para os pensamentos, nem para os sentimentos, nem para as mais
puras intuições e percepções. Quem sabe, desejo sim acreditar nisto, é a
angústia que fixa as fronteiras?!... Há marés que sabem que vem do mar-oceano.
São expressões do mar-oceano e re-tornam ao mar-oceano.
Conheço a
voluptuosidade do vôo e do pairar da águia nesse lugar nenhum, macio e claro,
para onde a alegria me arremessa antes de conhecer o êxtase e o logro do
êxtase.
Para mim, o
ser humano é uma criação indescritível, tal como uma idéia incompreensível, um
pensamento ininteligível, uma sensação inolvidável. No ser humano tudo existe,
do mais alto ao mais baixo, do mais vulgar e cretino à sinceridade de caráter e
personalidade, do mais sensível ao absolutamente insensível, precisamente como
na vida. E, seguindo esta idéia que elaboro e crio, dando-lhe vida, o ser
humano é a imagem de Deus e em Deus tudo existe, tudo, como se fossem forças
enormes.
Confesso
saber que esses desejos são tolos. Relato, embora num espaço muito pequeno,
devido às circunstâncias, as lutas que travo com todos os desejos, a vontade de
um ínfimo minuto de daqui a pouco, o daqui a pouco das quimeras. Nada omito,
nada minto - por que o faria?. Sinto-me capaz de dizer tudo, inclusive as dores
mais profundas, aquelas que as palavras não alcançam, mas que existem, e são a
chama ardente de um sonho mais atirado.
Sinto-me
muito mais forte e mais independente, mais presente e livre. Poderia realmente
ser útil a quem está em dificuldades. Será mesmo que estou convencido de que
tenho uma missão que não inclui nem a dissimulação nem as hipocrisias; é algo
que transcende a condição humana; se não acredito nisto, poder transcender a
condição humana, superando estas coisas tão cretinas e idiotas, como vou poder
continuar vivendo? Tudo é insípido, inóspito sem um sonho maior que tenha por
objetivo encontrar além dos limites a felicidade.
Consigo confessar
quaisquer segredos, mesmo que muito pouco deles tenho a capacidade de entender,
patenteio o que quer que haja, relevo os medos e angústias que são partes de
uma criação. Estou cansado, terrivelmente cansado. Exausto e exaurido seriam os
vocábulos perfeitos, tomando em consideração alguns níveis e dimensões. Se
tivesse coragem, romperia com tudo e me mudaria para uma choupana nalgum abismo
da montanha ou talvez pedisse a alguém para varrer as ruas da cidade, capinar
quintais, arrancar ervas dos jardins. Exibo as feridas. E há quem caia na
gargalhada disto! Talvez o estilo sarcástico de reverberar a questão.
Descrevo
como atravesso as águas, qual uma criança que sai se arrastando pelo chão,
enquanto a mãe conversa com a amiga, rindo de surpresa do que acaba de saber
que acontece com si+-crano, inda não sabendo o que vem por aí, fulano e
beltrano estão bem piores, e como o rio zomba de minha intenção de retornar ao
centro da cidade, e como as ondas do mar caçoam de mim por permanecer inerte
num lugar único, há tantos lugares onde ondear as fantasias.
Brilham
lâmpadas vermelhas e sinais de “pare” à minha volta. Não acho apenas que assim
deva ser. Não me declaro satisfeito. Sinto um grande peso, como se fosse uma
tristeza. Se me tivesse permitido pensar, sem ficar com a consciência pesada,
então teria sabido que tudo o que digo e faço está errado. A minha tristeza é,
creio, muito especial. Por isso, venho até ao quarto, sento-me à poltrona.
Enquanto não pronunciar a palavra que intenciono, que desejo, a minha tristeza
é como um sonho irreal. Pronunciando-a, então, terei manifestado a minha
tristeza.
Há um
comportamento típico entre nós, comportamo-nos como rivais, perseguimos nossos
ideais. E, no entanto, tudo isso não passa de uma hipocrisia, um jogo entre
nós, que nos enlaça intimamente, que nos acende a todos. Tudo não passa de pura
fantasia, tudo tem uma dimensão a mais, um sentido mais profundo; tudo é jogo e
símbolo das cartas nas mãos, esperando a combinação dos naipes, as outras sobre
mesa, tornaram-se lixo... aquando estar livre deste fiasco, isto é o que mais
importa.
Práticas
espirituais e a imagem da morte são uma combinação sobremodo banal. A maioria
dos corpos humanos "são" mortos, embora esta concordância não esteja
correta, mas necessito de dar uma ênfase, com uma cabeça falante e extremidades
sacolejantes. Algo se passa com os lábios. Percebo que têm uma forma especial,
tremelicam de leve e bem suave, talvez um gesto íntimo. Continuo olhando-me a
todo instante, sem perder de vista um único detalhe. Vejo-me e formo um sorriso
quase imperceptível.
O pulso de
estátua fascina e surpreende, diante do retângulo de azul resplandecente por
onde a morte vai jorrar um segundo depois. Esse azul de morte, esse azul de
neve – o céu desta manhã fica gravado na retina como uma catarata luminosa. É
essa luz, essa chama fixa de uma cegueira, lúcida demais, que imagino ser o
brilho dos olhos.
Em verdade,
inda me esqueço de quem está a pensar, sentir, ser, sou ainda eu, esqueço-me de
que estou só, que ninguém pode ser por mim, nem um deus. Eu só, irredutível,
princípio e fim, fechado, único e para sempre. Quê alucinante!...
Mas assim
mesmo, como é fascinante imaginar-me em ti, na tua aparição, na tua fulguração.
#riodejaneiro#,
06 de junho de 2019#

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