#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO #UTOPIA CRISTÃ NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE



CAPÍTULO VIII - PARTE VI


A grande alienação do ser humano é o esquecimento de sua realidade interior. Já para vós, lídimos espíritos pangaréticos, é o esquecimento de vossas imagens exteriores. Triste é serem vistos como aqueles que já vão pelos anos, cabeça mais baixa e orelhas mais decaídas, fazendo hora-extra nas carrocinhas da cidade. Isto é o cúmulo do absurdo, e não há nenhum de vós que não pensais nisto, querem ser eternamente jovens, dispostos a todas as carroçadas ou a todos os capins do pasto, numa vida inútil, o que não deixa de ser verdade, a vida de um pangaré é inútil.
Espírito de sacrifício? Abnegação levada ao extremo. Ou ingenuidade incurável daquela cuja escolha se fixa nas atitudes que julga as mais simples e verdadeiras. Inteligível e conveniente não é ruminar ouro e riso, mas o ruminante seja o desejo e a vontade do ouro e do riso. Esta simplicidade apareça aos olhos de todos como o intrépido, como o paradoxo, de uma posição e decisão na vida.


É preciso desejar ser autêntico numa luta e que a maioria demonstra uma indiferença total; quando nos atrevemos a isso, é preciso sentir a força de sermos alguma coisa em nosso tempo, é preciso ser ativo, para ousarmos dizer se não agüentarmos; vou para onde outros foram, os que ousaram.


Não se fala senão nas horas em que não se quer perceber a presença dos homens e quando se se sente uma enorme distância da realidade. E ao imediato que se emite as palavras qualquer coisa adverte de que as janelas divinas se abrem algures, as portas infernais estão sempre fechadas, as soleiras frescas e puras para um descanso de pangaré.
Tenho os olhos no horizonte onde as cores do crepúsculo esmorecem de imediato. Contemplo este crepúsculo até com inveja e um pouco de ciúme por revelar com simplicidade a sua beleza e resplendor, e muitas vezes não sou capaz de ao menos sentir o simples de uma palavra e de um gesto.


Compreendo os primeiros sobressaltos desse coração em flor, não forçando a mão, desse coração na flor da idade, e digo a mim próprio que há sensações e emoções que o tempo leva para não devolver mais, que o inverno sobreleva nos caminhos de luz nas trevas, que o inverso sobrepuja na voz da imaginação.


Tudo é novo e inusitado ao meu olhar. Hei-de saber, ou ficar sabendo que minha natureza simpatiza com o que está acima do simplesmente vulgar, além do simplesmente comum. Não é só o coração que me fala – há verbos que a alma não sente, há palavras que o espírito não pensa -, é também a imaginação que me sussurra aos ouvidos sons nítidos e nulos, e a imaginação, sendo uma amiga mui íntima e verdadeira, tem seus momentos e instantes de pura fantasia e sonho.


Penso que o amor verdadeiro, ou ao menos o melhor é o que não vê nada ao redor de si, o que não enxerga nada a uma distância mínima, o que não pensa, o que não lembra de um instante de outrora ou de ontem, e caminha direito, resoluto e feliz aonde o leva os desejos e vontades mais simples, os sonhos e utopias mais ingênuos. Para que serve a língua sirigaita?


A palavra, quando vou tocá-la, parece inverossímil. Entretanto, não rompo o silêncio. Tenho a fronte pendida e meditativa. Medito na palavra que acabo de proferir “O silêncio é a grande sala de audiência de Deus”. E desta vez a palavra é tão simples, tão sincera, tão vinda dos abismos da alma, que cedo antes a um impulso de compaixão do que anuir à vontade ou ao rogo de alguém por não verter lágrimas sem soluço. A alma não se me torna mais transparente, nem o caráter menos complexo.


Gasto uma a duas horas por dia a aprender os verbos, os substantivos, os advérbios, a arte de os concordar com extrema e delicada perspicácia, a usar as reticências devidas, pois que vivo não de frases e construções pomposas, mas de meiguices e insolências.


É uma paixão de última hora, um ocaso ardente e abraseado, um crepúsculo original, misterioso e romanesco, entre o dia que lá se vai, e a noite que não tarde muito a ensombrecer tudo. Balbucio a confissão plena e absoluta de meus sentimentos, mas com um ar trigueiro e desconfiado, e tão a ponto e natureza, que é difícil saber se é fruto da solidão, nas tardes de inverno, se é o inverso, a presença incólume e verdadeira do amor.


Fugazes entardeceres de inverno, que possuirão assim de tão inigualável e resplendoroso para desatarem este mundo de sentimentos e emoções em mim? A doçura que me deixam nos lábios, mal tenho tempo de cansar-me dela e já desaparece dentro da noite.


Sim, estou aqui, deitado na rede, na sacada do segundo andar de minha residência. E o que mais me impressiona, neste instante, é que não posso ir mais longe. Sou homem quem sabe que o amanhã será semelhante, e todos os outros dias. Pois, para um homem, a tomada de consciência de seu presente significa já não esperar mais nada. O vento suave molda meu corpo à imagem da ardente nudez que me circunda; e o seu fugaz abraço me concede a solidão de uma oliveira no céu de verão, o inverso do inverno subsiste nessa palpitação de asas que aflora, nessa frágil tranqüilidade do espírito.


Quanto a mim, creio haver nascido para um dia de inverno... A única estação onde compreendo que no íntimo consagro a harmonia do amor e do consentimento latente, onde o coração é capaz de intervir e de ditar minha felicidade, até ao limite exato em que o mundo pode então aperfeiçoá-la e purificá-la. Sim, existem momentos de ventura e de prazer tão grandes em que a própria felicidade parece coisa fútil, vulgar.


Viver é certamente um pouco o inverso de exprimir. Se aceito a verdade dos grandes homens, viver é preciso, entender não é necessário, no silêncio, na vozearia, na calma, na contemplação. Os sentimentos simples e eternos, em torno dos quais gravita o amor pela vida, as alegrias, as lágrimas, germinam na profundeza do homem e modelam a face de seus sonhos e desejos.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)


(#RIODEJANEIRO#, 06 DE SETEMBRO DE 2018)


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