#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO "UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE



CAPÍTULO VII - PARTE II


Quem assume este caminho, assume o caos, vazio, entregando-se aos instintos primitivos, quando manda às favas toda moral e ética, não desejando dizer com isto que assim, por longo ou curto prazo, encontrará uma moral e ética que atenda vez por todas à humanidade, e isto está mais do que legível e sensível para os humanos; um sistema de vida melhor, mais verdadeiro, mais elevado. Se por todos os séculos, desde os primórdios da humanidade, não se conseguiu estabelecer moral e ética que mudassem os rumos, destino dos homens, na atualidade é hipocrisia deslavada pensar nisto, é-se visto como em absoluto alienado. Pode e muito engenhosamente vir a seguir seus instintos sem nenhum freio, pode deixar-se ir ao deus-dará, pode tornar-se um louco ou um gênio.


Se me questionam acerca destas palavras que registro nesta folha de papel, digo que não sou quem o diz, é o escrito. Olham-me e pensam estar desejando com todas as forças criar polêmica envelada, cheia de subterfúgios e tramóias, de segundas intenções as mais variadas, tecida com a linha das parcas, pois o medo de não ser hipócrita é bem grande, seria eu condenado à morte, não importando por que meio, devido à inadaptação aos tempos modernos, o autor não saber o que escreveu, isto é um absurdo. Há quem diga não tenho a coragem de confirmar, e estão bem enganados, pois, se houvesse algo a ser dito, não me serviria de uma folha de papel, o que, óbvio, estupidifica qualquer um: como pode alguém dizer sem nada ter a ser dito, ou seja, preenche o tempo com palavras vazias. Dirigir-me-ia ao eminentíssimo senhor e diria tão simples quanto tomar suco de fruta bem deliciosa; veio-me de imediato, e isto é até interessante não deixar passar, o suco de maracujá, embora, como nunca disse, amolece-me inteiro, proporciona-me pensar leve, tranqüilo, as coisas deslizam no íntimo de modo suave; com efeito, caríssimos amigos, o suco deixa-me amaracujado, e neste estado a pena desliza no papel sem qualquer interrupção; poder-se-ia dizer que o maracujá dissolve o meu superego.


A polêmica foi levantada e há dizeres de todas as culturas e observações, mas com o tempo e diante de circunstâncias outras, se lerdes o texto, percebereis que a interpretação continua sendo bem ferina e perspicaz. Eis porque, senhores, meus discursos estão disponíveis a quem quiser ler, quantas vezes forem necessárias, a vida mesma será pouca para chegar a interpretações profundas e reais; no discurso, enquanto aqui estou lendo, tendes apenas oportunidade de vislumbrar as coisas a partir da instintividade; é preciso muitas leituras para transcendê-la e mergulhar no que realmente interessa: a espiritualidade, que não é percebida através de qualquer razão ou racionalidade dos tempos e séculos.


Apresento também aos professores os cumprimentos bem sensíveis e gentis, mas andam se esquecendo de salientar bem que um texto tem subjetividade e instintividade, aliás, muito mais elevada que a do autor que o criou. Desde a mais tenra infância, aluno de grupo, ouvia-os dizerem eufóricos e orgulhosos que o homem tem subjetividade, os animais é que têm instinto, e o mais instintivo de todos é o pangaré – ouvia, não acreditava, mas não ousava contestar, tinha medo de ser ridicularizado por meus distintos colegas. Já tinha a fama de péssimo aluno, o boletim era cheio de notas vermelhas, a analfabetice era tão grande que tirei zero em Moral e Cívica.


Aí a interpretação nunca se deleita à soleira de um casebre aproximando a tarde e a distância que se abre no chão de hipocrisias e canalhices. Não me referindo especificamente aos professores ainda, mas surgiu à mente algo bem peculiar no que diz respeito à interpretação: é que o melhor é rotular-me um escritor maldito como tantos aí, só me lembrando de dois, Nietzsche e Dostoivski. Torno-me assim escritor maldito e todas as obras serão vistas a partir dessa opinião de baixo calão, mas é assim que os malditos nos tornamos universais, em qualquer tempo seremos lidos e haverá investigações.
Não sei de onde com certeza me vem a crença e a petulância, ingênuas, de que, haja o que houver, o escritor maldito cria situações indecorosas e desagradáveis para si próprio, não ocorrerá o perigo de ser desmascarado por alguém de inteligência muitíssimo perspicaz para entrar vez por todas nos seus méritos e valores. Se me levarem a um tribunal por causa de algo dito, suspeitado, insinuado, apenas apresentarei isto: “o texto, meritíssimo, tem sua subjetividade, mas de qualquer modo estou apresentando a todos as críticas que faço a mim próprio”, um pouco do que Gustav Flaubert dissera no tribunal respondendo pela verossimilhança de Madame Bovary: “Madame Bovary sou eu”. Dirijo-me a mim. Se é crime dirigir-se a si próprio, a coisa realmente irá se tornar bem interessante. Aqui poderia tecer com a linha das parcas inúmeras considerações sobre “falas” de homens imortais e eternos, inclusive esta de Nietzsche, por quem o meu amor é ilimitado: “para fazer moral é necessário absolutamente ter vontade do contrário”.


As vezes, tenho a voluptuosidade de rasgar os verbos todos, dizendo que não sei ao certo se o inconsciente não acabara mastigando e engolindo aquele que se entrega ao escrutínio de hipocrisias, a entrega simplesmente será sublime e não sei também ao certo se quem se entregou será intuitivo e perceptivo para sustentar pontos de vista e opiniões verdadeiros diante de uma existência e mundo os mais estranhos e esquisitos possíveis, de indivíduos sirigaitas e sibaritas.


Quem me ouve, tenho a certeza de que não corre ao dicionário e olha o significado da palavra, assim perderia de ouvir, mas se o fizesse depois, observaria que o significado de escrutínio é “exame atento, minucioso”. Analiso atenta e minuciosamente como e em que estilo pode-se ser hipócrita com o modo de apresentar as escusas e perdões. Em verdade, o cinismo está bem aí, sou eu o hipócrita, pois estas palavras saem bem do meu interior. E ninguém para apresentar o seu veredicto de que em meus escritos, embora falando de mim próprio, falo de todos os homens e de toda a humanidade. Não me lembra quem me dissera com todas as letras, mostrando-se insatisfeito e ressentido: “Antes de falar dos outros, por que não começa falando de si próprio?” A lição fora aprendida com primor: o que mais amo é falar de mim, descascar os meus pepinos, destilar os ácidos críticos na cabeça. Sinto prazeres inusitados. E se houve ouvido bem atento verá que para conservar o cinismo e a hipocrisia apresento uma visão psicológica do caráter e personalidade. Se assim não o fosse, com estas explicações que, creio, absurdas, e são, despeço-me, agradecendo-lhes a atenção verdadeira e sincera.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)


(#RIODEJANEIRO#, 05 DE SETEMBRO DE 2018)


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