#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE



CAPITULO XII - ESTRÍDULOS SONS DE NAVALHAS - PARTE II


Revelo quem não sou, e acaso desejaria expor a vida íntima em salões e residências, dizendo de ornamentos em minha cabeça, de um lado e de outro, dos lados, cabelo, no topo nem um fio sequer, constituindo e instituindo assim uma imagem de beleza e sutileza? Não seria quem não sou, mesmo que todos os inefáveis mistérios da criação houvessem sido descobertos.


Assim, por exemplo, tenho um orgulho impressionante, um amor-próprio sem igual, numas situações e circunstâncias, noutras, posso dizer que não há o mínimo de amor-próprio, ajo muito envolvido pela paixão. A de escrever bem é um de meus amores-próprios, orgulho, serei inesquecível nas letras que estou deixando dedicadas ao senáculo de pangarés, homenagem mui querida de meu coração, sentindo-se até constrangido de tanta felicidade e alegria. Obrigado, meus queridos senhores pangarés, por oportunidade tão primorosa e divina, por que sempre me sentirei agradecido. Tais discursos serão lidos até por juízes de direito.


Sou muito desconfiado – e dizer que é devido ao Estado onde nasci, Minas Gerais, que é uma característica peculiar de todo mineiro, a desconfiança, seria uma justificativa intolerável, apesar de ser verdade e ser aceite – susceptível, inseguro, um fraco, um imprestável, um ator de quinta categoria. Mas, com efeito, houve instantes na minha existência em que, se me tivesse dito todas as verdades, juntamente com os seus respectivos verbos, dissessem os maiores palavrões, chamassem-me idiota (aceito qualquer outro rótulo, menos o de idiota, simplesmente por não o ser); se me dissessem tudo isso, com certeza haveria sentido alegria, satisfação, contentamento, enfim, haveria sentido muito prazer.


Serei reconhecido por toda a eternidade como um grande orador, um dos maiores de nossa região, conhecedor muito íntimo da instintividade dos pangarés.


Falo com honestidade: teria podido certamente encontrar aí alguma felicidade, a felicidade do menosprezo, do preconceito, da rejeição, da vergonha e da humilhação.


Abraçaria a pessoa, dizendo-lhe que agradecia sobremaneira a sua sinceridade. Sim. Digno de respeito e consideração. Fora capaz de dizer o que pensava e sentia com sinceridade. Alguns amigos dizem: “Você é daqueles que matam a cobra e mostram o pau”. Respondendo-lhes eu: “Para cada cobra haverá um outro pau... Posso garantir a vocês”.
Não necessito analisar a inveja de modo falso e parcial, como fazem, como tem de fazer o homem invejoso. O homem agressivo, o mais forte, nobre, corajoso, em todas as épocas possui o olho mais livre, a consciência melhor.


Tão logo escritas estas palavras, antes de recostar-me à cadeira, o olho esquerdo, este que fora mandado à merda pelo direito, desde tempos imemoriais, começara a arder, tendo de coçar com a palma da mão, próximo ao dedo polegar. Por que razão?


Deveria então pensar, quem sabe até admitir, o que seria mais sensato, se o fosse, que não estou isento de invejas, cubro-as com os olhos que sabem, às vezes, perceber o que lhes convém, nada passará adentro eles indo residir na alma, no espírito, e isto causará muitas dores, enfim mostrarei as arbitrariedades e mazelas que residem em mim?


Não posso de modo algum garantir que este sentimento que se apoderará de mim corresponde à verdade vivida e experienciada. Jamais desejei algo de alguém com voluptuosidade, e por não conseguir, a reação é simples e notória, arma-se arapucas para que o outro seja de algum modo prejudicado, não consiga os seus objetivos. Algumas de tão impossíveis, risível quem cair nelas.


Pessoas, além disso, podem pensar que a sinceridade de meus argumentos e questionamentos são devidos a motivos que as fazem questionar a realidade em que nela estão envolvidos até o pescoço.


Presunção esfarrapada esta, não lhes importa a realidade, nada lhes importa senão refestelarem-se em suas cadeiras de balanços velhas, como a em que me encontro neste segundo, ouvindo músicas, lembrando de tempos em que ouvindo a mesma música, há trinta e seis anos, perguntava-me o que isto de melancolia e nostalgia que a música nos oferece gratuitamente. Em cadeiras último modelo, excêntricas e inusitadas, olhar a montanha, não me é possível agora interpretar a profundidade destas palavras, não me é dado sabê-lo agora, desculpai-me, mas ouvindo músicas que só refletem o tempo que há-de vir por aí.


Ridículo se há alguém quem com estas palavras imagine estar eu melancólico, nostálgico, inclusive ouvindo músicas do artista americano dos ´60. Não direi o contrário, pois que estes “chavões” que se encontra nos escritos de muitos autores, isto por não saberem brincar com as palavras, incomoda os olhos de lince.
Há um instante de silêncio em que volto a olhar para o que antes havia escrito, não necessitar analisar a inveja de modo falso e parcial.. Pareço-me enfeitiçado por ela; parece ao mesmo tempo querer e não querer olhar para ela. E eu, querendo-me desvencilhar, desembaraçar-me dela, mas permanecendo imóvel.


Lembra-me de pessoas que por mim passavam, alegres e saltitantes, desfilando suas vestes de grife, sem grife, não importa, mas mostrando estar muito atraente, cumprimentando-me, alegres e sorridentes, “Como vai?”, mas nada disso sentindo. Quem sabe sentisse inveja delas? Ah, quem me dera isto de nada sentir, nada pensar, faz um bem tão grande que os imortais não saberiam responder o que seria melhor: sentir o mundo ou ser indiferente a ele?
“Como vai? Boa sorte”, mas não expressando isto. Há trinta e cinco anos que presencio isto nos mais esplêndidos arranjos e melodias, a falsidade, a inveja, coisas de homem desde primevas instâncias. Não tenho motivos para sentir qualquer espécie de melancolia, nostalgia, está tudo tão presente desde tempos imemoriais. Nestes termos e sentidos. Para estes cumprimentos não mais estou nas tintas, quem sabe faça parte da natureza humana a farsa, falsidade. Isto de a obra é minha, os risos, dos homens quem procuram deleite, momentos de prazer de ler um livro, pensando nisto de dons gratuitos doados por Deus. Às vezes, nada compreendendo e entendo, o que enfim desejo dizer com as palavras, o que existe nas entrelinhas, no mínimo muito profundo e risível, o nível que a humanidade alcançou em todos os seus milênios de existência.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)


(#RIODEJANEIRO#, 06 DE SETEMBRO DE 2018)


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