#SENÁCULO DE PANGARÉS - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO#- GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE
CAPÍTULO IX - FASCÍCULO DE EGRÉGIOS INDIGENTES -
PARTE II
Imagine uma criança com esta natureza voltada para
as ilusões e esperanças, privada de sua primeira e maior afeição, amante da
solidão e da saudade e sem confidentes.
Chegado a este ponto, o ouvinte compreenderá
perfeitamente que diversos fenômenos desenvolvidos no teatro dos sonhos devem
ter sido a repetição dos percalços de seus primeiros anos. Não quero incinerar,
como se tem costume de brincar com a palavra insinuar, tenha sido você privado de
seu encontro com o amor mais puro e angelical na infância, aliás não consegui
entrever isto nos seus poemas, mas analisei sobre um outro prisma de visão, um
novo ponto de vista. As coisas da infância, para servir-me de uma metáfora que
pertence a mim, tornaram-se o húmus desta sua procura de conhecer a saudade tão
bem que a possa transformar numa presença amiga e acolhedora. O destino lançara
a semente. Esta faculdade prematura, que lhe permitia idealizar todas as coisas
e lhes dar um toque poético, cultivado, exercido longamente na solidão e no
silêncio, ativada além de todos os limites, num abraço à liberdade.
Amigo, não sei se é já de sua experiência pessoal e
íntima, mas os espíritos nascidos para as artes, delicados e afetuosos, o que o
seu leitor terá certamente observado, aprendem nas longas jornadas de desejos
de encontros a pedir passagem para o amor e continuam a viagem noite adentro.
Aprendem nas noites de angústias ainda mais longas, a amar e a lastimar a
condição humana de seus semelhantes. O antigo conhecedor da alma humana, assim
me vejo hoje, e isto ficou bem nítido para mim a partir da leitura de sua obra,
precisava concentrar-me bem em sua mensagem, a fim de poder recebe-lo em minha
humilde choupana, para um dedo de prosa sobre a existência humana, e que os
nossos ouvintes com certeza terão muito o que desaprender, quer rever a vida
dos humildes, quer mergulhar no seio dessa multidão de deserdados, e, da mesma
forma como o nadador abraça o mar e entra assim em contato mais direto com a natureza,
aspiro tomar, por assim dizer, um banho de multidão.
Uma fogueira brilha na lareira; sobre a bandeja
descansam dois copos de drinks, pois não poderíamos nos furtar a um drink, em
verdade uma vodka, é inverno, lá fora os homens todos disputam entre si a
propriedade de suas orelhas. Você ri, com efeito, com esta minha tentativa de
descrever as belezas de minha choupana, tornou-se muito querida, escritor, pois
aqui recebo a todos com a mesma gentileza e carinho.
Paisagem de montanhas, retiro silencioso, luxuoso,
ou melhor, bem-estar sólido, vasto lazer para a meditação, inverno rigoroso,
próprio à concentração do espírito, sim, é isto a saudade que todos sentimos,
desejamos encontrar, afagar em nossos braços, um cafuné na cabeça, ou talvez
até antes os primeiros raios de felicidade, uma pausa no destino, um jubileu no
sofrimento, mas sem dúvida um tentáculo de ilusões e esperanças.
Incrível, escritor, como você tem o dom de
comunicar com o espírito humano este sonho de felicidade, de prazer. Você aflorou
em mim uma época onde “é preciso dizer adeus à doce beatitude, adeus ao inverno
como ao verão, adeus aos sorrisos e aos risos, adeus às consolações benditas do
sono!” . Como dizia Shelley, “como se um grande pintor molhasse/seu pincel na
obscuridade do terremoto e do eclipse”
Há um verso muito interessante em sua obra, que fiz
questão absoluta de sublinhar para não me esquecer de referir-me a ele: “O
horizonte é meu infinito”. O céu parece mais elevado, mas longínquo, mais
infinito. As nuvens, pelas quais os olhos apreciam a distância do pavilhão
celeste, são nessa nossa época mais volumosas, e acumuladas em massas mais
vastas e mais sólidas, a luz e os espetáculos do pôr-do-sol estão mais de
acordo com o caráter do infinito.
Poderíamos, você e eu, ficar a noite inteira
conversando, tomando a nossa vodka, ao calor agradável da lareira. Não
ficaríamos um segundo sequer em silêncio, pois a sua obra sempre surpreende
muito, uma nova imagem, uma nova mensagem se revelam e aí podemos assim
ilustrar mais o seu pensamento. É sempre uma alegria enorme receber visita
destes grandes e ilustres desconhecidos, falando de suas experiências, de suas
caminhadas. Escritor, sua obra abre sempre as janelas e portas todas para um
novo ponto de vista, e isto é muito difícil, quando a propriedade das orelhas é
de quem está disputando o objeto do prazer próprio, e não daquele que está
desejando ouvir as palavras.
Desde quando li “o ponto de vista é sempre visto de
um ponto”, Leonardo Boff, procuro ampliar estes pontos para que assim possa eu
contemplar as saudades esquecidas nalguma curva e nem por um momento tive a
coragem e ousadia de pensar nelas como uma semente do encontro.
Agora terminando nosso colóquio, você sabe que o
tempo é escasso, as entrevistas têm um tempo de dez a quinze minutos, gostaria
que me respondesse algo muito peculiar: “Você não é o primeiro em Atenas Atéia
que fala em Saudade. Antes, fora o nosso saudoso Pe. Celso de Carvalho. O que
há nesta querida terra ateniense atéia que suscite tanto o tema da Saudade?”
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)
(#RIODEJANEIRO#, 06 DE SETEMBRO DE 2018)

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