#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE
CAPÍTULO XI - BAGAS DE INFIÉIS E IMBECIS - PARTE II
Afianço-vos que não admiro um poucochinho sequer em
mostrar a língua. Se me dirijo a vós nesta linguagem e estilo, é que outras não
me são dadas saber, quem sabe por a língua haver se desenvolvido bastante; não
é que aprecie mostrar a língua.
Faria cortar a minha língua com todo prazer e
deleite, a medicina está muito evoluída para não estancar o sangue, por
gratidão mesmo, se se arranjassem as coisas de modo que não mais fosse preciso
dizer alguma coisa, causar polêmicas as mais sérias possíveis e impossíveis.
Não me digais que eu mesmo estou a renunciar o meu
castelo de cristal muito cedo, pela única e exclusivíssima razão de não lhe
mostrar a língua. Que me importaria se as coisas não se arranjarem assim, o
castelo de cristal não seja instalado, tendo de alugar um cantinho no
chiqueiro, até com buchas de papel nas narinas para não morrer cedo, isto se
for possível chegar lá.
Digo-vos que durante quarenta e sete anos,
permaneci silencioso no meu canto, cuidando disto e daquilo, tentando
desvencilhar-me de inúmeras dificuldades, mas devido a sair do buraco, falo,
falo, falo...
Se vim para dizer alguma coisa, então que seja para
transformar, melhorar... Caso contrário, não mereço nem o chiqueiro, e o pior
de tudo é que sou eu quem respondo pelo não-merecimento.
Mas, sim, responder-vos-ei.
Creio não ser apenas conveniente, mas algo
sobremodo necessário dispensar o tratamento “vós”, há na escolha deste tipo de
tratamento muito do requinte peculiar ao canto lírico, dedilhando a lira nos
momentos em que analiso a essência dos seres e das coisas em torno de mim; há
neste outro, sem o tratamento vós, o canto lírico, enquanto dedilho a lira nos
momentos em que sinto nos interstícios do espírito as dores mais percucientes,
acompanhadas, é óbvio, de todo o cinismo e sarcasmo. Há diferenças.
Creio, sim, caríssimos senhores pangarés, o cúmulo
do cinismo e sarcasmo, homem nenhum sendo de explicar-lhes com todas as pompas
de sábio e da sabedoria, seja o carroceiro, enquanto vós puxais a carroça ao
som do swing country de Alan Jackson, remexendo os quadris para imitar a dança
do pangaré puxando carroças neste mundo velho sem porteira, ou a porteira é que
está velha para entender o mundo, inveja que só o tornou mais imbecil, pois que
não pode o carroceiro dançar à moda dos pangarés, a menos que deseje com todas
as forças do espírito tal natureza, de rebolar as ancas traseiras e os patas
dianteiras seguindo a trilha dos desejos e vontades, de esperanças de
felicidade, alegria, jeguices sim, mas no seu ponto e natureza, fazendo rir até
chorar e não o contrário como realmente acontece com algumas pessoas precisam
chorar primeiro para depois rirem de terem chorado, tal o nível intelectualóide
que adquirimos ao longo da história da mentira e da farsa.
Por que isto de estar quase que ensinando alguém a
ler, se fossem estas as suas primeiras lições na compreensão, entendimento,
interpretação de algo que se encontra sendo lido? Um escritor que ensina a ler?
Por que não? Enfim, sou professor também. Não diria que estou ensinando. Isto
não é verdade. Se alguém adquire um livro na livraria, é para ser lido; não
compraria livros se não soubesse ler. A não ser que o livro esteja sendo
adquirido para um presente a alguém, aí qualquer pessoa adquire um livro.
Senhores, não há estilo e linguagem no mundo que
não a que os instintos e as razões estejam comungados, não se sabendo o que
habita o quê, a confusão e perdição eternas que nos encaminha para outras modas
de viola e de linguagem na oratória de de-monstrar e mostrar a nossa origem
sertaneja, sentir-nos orgulhosos em dizer: “Sou de origens caipiras, countrys,
nordestinas, sertanejas”, sentindo-me os êxtases todos subirem à minha cabeça
para mostrar que as trilhas estão sendo de mostragem a-colhidas e re-colhidas,
e na caminhada que não é outra senão a minha própria, com os dons e talentos
que Deus me dera gratuitamente para que mostragens do meu povo caminhando em
busca da artes, dos sonhos que me habitam o espírito, e isto sendo uma história
de viver o amor, viver de amores pelas origens verdadeiras e sinceras, e o
homem é aquele que recria a sua história em nome da história de um povo, de uma
crença, de uma esperança, utopia, sonho, seja lá que nome for dado, o conceito
que será admitido pelos doutores neste e noutros assuntos bem complexos de
nossa modernidade, e assim é que se torna a cosia mais emocionante do que
sempre fora, deixando as palavras sendo escritas apenas seguindo o ritmo, som,
ideologias do som e da poética de um tempo vistas à luz de notas e ritmos, não
sei mais o que digo... Perdi-me... Confundi-me. Será preciso um tempo para me
restabelecer...
Depois de longos minutos, após dizer tais
disparates, jamais perdoados por mim haver isto concedido e consentindo
acontecer, precisei deles para tentar me refazer, às vezes é dado muita rédea
não sabendo o poder e a instintividade do cavalo, a que rapidez consegue
chegar, o cavaleiro não podendo conter a si e a rédea, tomando um tombo
daqueles, às vezes fatais, neste sentido começa a triste sina dos animais desta
raça, estirpe, laia, não sei bem mais definir ou conceituar tal o degrau de
conhecimento a que fui capaz de chegar com as pangarices dos pangarés e dos
humanos...
Perdi-me, senhores, peço-vos que me desculpai as
orelhas duras e pontiagudas que mostrei por instintividade, o que me fez
igualar às pangarices, e toda a sua estirpe, conforme os gestos e gostos de
cada um. Não senhores, peço-vos que me esperais por mais alguns minutos, vou-me
retirar, preciso estar sozinho em meu camarim, preciso repensar as condutas e posturas,
a linguagem e o estilo, não me deixar me levar pelos arroubos do
autoconhecimento que fui adquirindo ao longo dos anos todos de minha vida,
cinqüenta e dois, só agora tendo a oportunidade de primeira vez vos dirigir a
palavra, lendo textos que crio somente para discursar neste inusitado senáculo
de pangarés, o primeiro do milênio, estamos no final da primeira década deste
século, deste milênio, as origens de todo um novo tempo, novas esperanças,
novas ideologias e interesses, novos desejos e vontades, acima de todos o
autoconhecimento que nos faz aproximar o mais que podemos de quem somos, e
muitas vezes somos mesmo sem podermos nunca registrar na folha branca de papel
o que nos perpassa a alma e espírito neste instante, são sentimentos e emoções
jamais imaginados pelos homens e por inspiração os pangarés.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)
(#RIODEJANEIRO# 06 DE SETEMBRO DE 2018)

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