#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE



CAPÍTULO X - CARRUAGEM DE IDÍLIOS COMPACTOS E ALIÁS


Eis a sábia e inteligente sagacidade da alma: não oculta o inverno e ventos gelados vindos de entre as montanhas; nem sequer omite a primavera que vislumbra o olhar e os recônditos sítios do espírito. Sábia e inteligente astúcia do olhar: revela as paisagens e cenário de jardins floridos, grama verde e viçosa no alto da serra; armazena na memória cores variadas e deixa os sentimentos se aflorarem inspirados no doce aroma principalmente das rosas.


Sem me enveredar pelas alamedas do romantismo, olho as coisas, sinto-as na intuição e percepção de vida que existe; sua vocação e merecimento, a felicidade – por que não devaneios compactos? Ando feliz, sentindo-me homem. Acredito a Vida ser o Amor.


As perguntas insólitas existem, impossível negligenciá-las, recusá-las, renunciá-las; não fossem elas, não haveria nascido a resposta quando são pronunciadas adequadamente ou não, para quaisquer delas as res-postas têm de superá-las no mesmo nível, noutras palavras “para uma pergunta idiota, uma resposta ainda mais idiota”, enfim. Não sejam inóspitas, a face outra da moeda existe, sejam sábias, cultas, divinas, a res-posta deverá suprassumi-la, aí a porca torce o rabo no sentido inverso, suprassumir a sabedoria é impossível.
Idílios compactos para os ímpios. Aliás, são capazes de realizar desejos por acreditarem na anunciação, no deserto que existe nas esperanças. Aos olhos, tornaram-se apresentação e representação da longa viagem noite adentro.


A carruagem passando por lugares íngremes, vaga-lumes acendem e apagam luzinhas próximos à janela. Sigo viagem ao infinito, levando na algibeira verdades colhidas nas dificuldades. Sempre, conscientizou-me necessitar acender vela à janela, após a realização de devaneios ímpios com uma verdade que colhi, fruto da sabedoria.


Ímpios, só vocês podem compreender e entender certas palavras e atitudes. Digo-lhes que, nalgum lugar, deixei inscrito no tronco de uma árvore, “Eis aqui o viajante da ressurreição...” Abri a porta da carruagem. O amigo-boleeiro deixasse os cavalos andarem à vontade, cuidando que seguissem estrada. Deixasse-os trotear à vontade.


Não têm o senso de olhar as atitudes de soslaio, olham-nas de frente, sem máscaras, interesses. Conhecem o segredo íntimo da atitude. São gênios, inalam o odor da Verdade! O que, enfim, não lhes deixa libertarem-se das picuinhas e achaques, entregando-se a Ela tal qual se lhes entregou? Não conhecem as perfídias, pérfidas esperanças não deixam os olhos brilhando, iluminando interesses escusos.


Numa estação ou noutra, conservo a perspicácia de armazenar sensações dos sonhos que me indicam o próximo passo a ser dado para me sentir aberto a todos os outros idílios que se revelam sedentos da possibilidade de conhecimento e vivência.


Sinto-me, às vezes, repleto de desejos de com a vontade descobrir aspectos amáveis da vida, isto para encantar o mundo ao redor, e a mim quem necessita de mergulhar no espírito, encontrar a Vida plena de imagens e serem elas transformadas em possibilidades de encontro; a transcendência do “sentido da vida” - construo através das situações do quotidiano.


Lembrou-me, faz pouco, a carruagem passou por pequeno buraco da estrada, talvez feito pela chuva, e estava a sentir-me deitado no chão do quarto, ouvindo músicas, especialmente Tombstone Shadow. Sonhava. Há nesta carruagem velho baú com todas as líricas ouvidas. Levo-as para ler e tornar verdade o que sonhei na juventude, ouvindo músicas.


Até agora não tive qualquer intenção de retratar o jovem, ouvindo músicas, sonhando vela posta à janela, “prometo voltar quando a caravana de idílios compactos for realizada”. Viajaria numa caravana, e só voltaria havendo sentido a Verdade a que estava disposto a morrer. A luz brilhasse, contanto que visse a glória. Não sabia seria a profundidade das idéias e pensamentos.


Por que haveria de sentar no cabresto, negar trazer em mim a veia do nômade, daquele indivíduo que leva vida errante, vagabundo. No sangue tenho artes e sofrimentos. É-me suficiente para acreditar no que tenho a dizer, a inspirar os homens e a humanidade, a insatisfazer os escrófulas da vida.
Peço ao amigo-boleeiro que pare à soleira da choupana. Necessito de tomar água, lavar o rosto, pentear-me. Se possível comer algo. Olhando no relógio de bolso, corrente de ouro, herança por alguém intimo deixada, nove e meia da noite.


Amigo, digamos que deixo a consciência “libre” para se revelar, deixo o fluxo espontâneo, e sigo viagem. Um candelabro brilha à soleira de entrada da choupana, um indivíduo de barba escanhoada, cofia o bigode, enquanto tamborila canção no balcão. Sento-me. Coloco o chapéu e bengala num banco. Peço copo d´água acompanhado de uma cachaça, a melhor da região. Pergunto-lhe - faz chiado com a ponta da língua próxima dos dentes - se há algo para comer.


Diz-me que tem arroz com linguiça de porco, todos apreciam, o que lhe confere a sobrevivência, tem algumas economias no banco da cidade, com isto da lingüiça de porco.
Tomo a água num só fôlego. A cachaça, mantenho o costume de tomar em pequenos goles – criança, odiava ver indivíduo qualquer, importante, derramar na garganta a bebida. Aprecio a lingüiça, não muito frita, sal e pimenta. Minas Gerais sabe dos gostos íntimos dos clientes. A sua Verdade inicia-se nos pratos alimentícios. Para não conservar silêncio insuportável, pergunto-lhe como está sendo o início da primavera, se, em primeva instância, ama-a, venera-a, a estação da beleza e da visão divina.


Há uma espécie de candelabro, grande castiçal com ramificações, a cada uma das quais corresponde um foco de luz, suspenso na madeira do teto, luz amena, choupana, não destas que anunciam à distância o prazer com reflexos de luzes insinuantes. São os ímpios que não aprenderam a dissimular a vida, a não acreditar que o aliás dos idílios compactos só se faz revelar na aceitação da vida, até mesmo com impiedade.
O engenho e astúcia suspiram ante o frio do inverno todas as emoções e sentimentos, silêncio que aprendi a não se denunciar pela quimera. Às vezes, sinto-me perdido no meio de um sorriso. Não faço sucumbir a palavra ao fosso onde enterraram a carne, trazendo o riso da coincidência.


No inverno, antes de primavera outra, o olhar não intimidava nem retorcia no tempo conjugado do verbo, verbo que não se insinua insípido, oculta o rosto e turva a água, para ninguém olhar através e para o fundo, preenchendo o vazio das respostas às perguntas que perpassam o espelhar os projetos superpostos na indagação.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)


(#RIODEJANEIRO#, 06 DE SETEMBRO DE 2018)


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