#SENÁCULO DE PANGARÉS - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE
CAPÍTULO XII - ESTRÍDULOS SONS DE NAVALHAS - PARTE
1
Não se sofre silenciosamente, não se sofre em
silêncio, neste caso, é preciso ferir com os chifres quem é o responsável por
sua existência, é necessário instigar com as pontas, sejam pontiagudas ou
roliças, a fim de que o espetáculo se inicie com toda a pompa. Geme-se a dor de
escolher o nada simplesmente porque os outros vão sempre ver realizados estes
chifres, por mais que alguns saibam com toda a genialidade e arte poli-los,
toda a engenhosidade e talento desejar que se tornem cinzas com todo o
polimento, ou melhor, tornar-lhes pó, enfim, seremos pó.
Não conheço as palavras exatas da Bíblia, mas há
algo como: da terra nascemos, à terra voltaremos e tornar-nos-emos cinzas. Os
chifres também podem se transformar em cinzas. Para isto, é preciso primeiro
que os assuma, aconteceu sim, o acontecimento é irreversível, mas as ações para
a superação desde então existem. A vida continua. São outros tempos. Tempos de
ação, atitude, busca, compreensões... Basta desejar que tudo se transforme. Não
é difícil desejar.
Esses gemidos revelam e mostram a volúpia que é sofrer
com um par de chifres. Se os chifres não causassem nos homens um certo prazer,
um gozo, um clímax, eles com certeza não largariam mão de reclamar e sair dando
chifradas em quem é o responsável pela existência deles. A lamentação da
nostalgia, a risada do ceticismo, a ironia da melancolia, o grito de cólera e o
estertor da agonia, tudo é uma e a mesma coisa, tudo se entretece, tudo se
enternece, esvaece-se, enreda-se, quando menos se espera, emaranha-se centena
de vezes, multiplica-se... a soma das vozes, a totalidade das metas, das
ânsias, dos sofrimentos, das delícias dos prazeres, em especial este, o
sentimento de paz num par de chifres que é posto, de qualquer modo que se
pensar ou imaginar está presente, mesmo com o tempo consumado por inteiro, por
toda a eternidade.
Os gemidos, estes que exprimem os homens
engalhados, manifestam e revelam, primeiramente, a consciência sobremaneira
humilhante da perfeita inutilidade dos sentimentos, lembranças queridas e
amadas de muitos momentos, dores, sofrimentos, desejos, honra e dignidade,
sensibilidade do ponto de vista individual e social, da espiritualidade, da
natureza, sobre as quais raspam bem as gargantas, quem sabe à procura de um
pigarro que lhes impostem a voz, que dê a ela poder e sutileza, que lhe
empreste autoridade e inteligência, enfim, que a faça brilhar em todos os
salões e residências, escarrando, obviamente, mas que os faz sofrer, agonizar,
permanecendo desinteressados e impassíveis.
Estes gemidos significam também que se é
compreendido bem que o inimigo existe, ele é a adúltera da esposa. Quando
calhar, quando for de bom tom, as dores irão cessar de doer, o tempo ajuda a
cicatrizar as feridas; se fora decidido com toda a volubilidade, numa comédia
de fluências e concisões, se fora admitido e aceite que tudo aconteceu no
passado, tendo havido sim a presença do ornamento, nestas situações, tal
ornamento de um lado e outro de tantas cabeças egrégias e doutas, se foi real
ou se não foi, se há algo de real ou não há, se houve amor ou se não houve,
ainda fará sofrer durante um bom e longo tempo, a gosto e apetite dos mais
carentes e necessitados.
Sei lá o que digo. Se houvesse, como diríamos, a
fim de revelar o caráter inconstante de contemplar esta questão, a questão do
engalhamento, bem, se houvesse um poucochinho de contra-senso, contemplando uma
vez os gemidos de um homem douto, um intelectual do século XX que sofre há
alguns anos de engalhamento, quando ele se põe a gemer de modo diferente do
primeiro dia, de outro modo diferente do segundo dia, de outro modo diferente
do terceiro dia..., isto é, não unicamente porque carrega os seus chifres na
cabeça, não como um grosseiro caipira, mas como um ser instruído,
espiritualizado, que se entregou à contemplação, ao desejo de satisfazer sua
necessidade de conhecimento, com o homem que busca a harmonia, sin-cronia,
sin-fonia com todas as coisas, para usar uma linguagem estética. Seus gemidos
se fazem maus, irados, raivosos, sem limites e conseqüências. Seus gemidos não
cessam jamais, nem de dia nem de noite, por todo o decurso e percurso da
caminhada.
Ah, vós podeis sentir a minha felicidade e alegria,
êxtases de tanto orgulho, isto que é sentir a minha imortalidade e eternidade
está garantida, a cadeira do Pantheon com estes discursos, por toda a
eternidade será lido, isto porque o senhor presidente deste senáculo pedira com
toda a generosidade que doasse o original de meus discursos, para que a
humanidade um dia venha conhecer, a obra sendo a origem do meu museu, serão
estudados por personalidades e doutores da intelectualidade, mesmo para as
escolas de ensino médio. É querer muito, não achais, senhores, enfim é de
dificílimo entendimento, compreensão, é muito profundo o que estou a dizer. Não
serei esquecido, pois que a minha dança é outra, das sendas perdidas e senhas
esquecidas, compreendi-as bem profundamente, e as vivo com dignidade e honra,
embora tão afastado da suciedade e da sociedade, voltado para os meus
pensamentos pangaréticos, conversando com os botões da manga, numa busca eterna
de senso, espiritualidade, emoções e sentimentos pangaréticos, para dizer-vos o
que é isto para mim com seriedade e competência, há-de ser considerado os meus
dons e talentos de vos dirigir a palavra com toda sabedoria que pude recolher e
acolher ao longo de minha vida, desde que pela primeira vez vi um jegue parado
à porta de minha residência, o carroceiro sentado no banquinho, tirando o leite
da lata, dois litros, aqui, três ali, quatro acolá.
A felicidade da eternidade é divina, mas cumpre
seguir as trilhas, manter-me os brios e calafrios, não com pangarelices sem
sentido, apenas para fazer rir ou chorar, chorar para rir, rir para chorar,
rindo chorando eu jamais vi, pode ser possível, já acabei de crer que ao homem
tudo é possível, por que então não tornar a vida possível de realizações
verdadeiras, e assim que sigo a minha vida, pensando e questionando, buscando a
sublimidade "PANGAR-ÉTICA", a superior de todas, a que nos faz voar
nas asas de uma águia seguindo seu caminho rumo ao horizonte e universo mais
distante. Assim, cumpro a minha missão, a de vos dirigir a palavra, faltou-me
todo sempre esta oportunidade tão distinta, honrosa de aqui estar discursando,
jamais apagará de minha memória. E ainda com a consciência e sabedoria de que
não será possível a alguém imitar ou plagiar estes discursos, a minha marca é
registrada.
Eterno, senhores pangarés!... A vida continua e vou
lá com as pangarelices na roda-viva dos paradoxos com intenções de riso escrachado
e sem vergonha de cometer gafes. Até ao meu último suspiro, quando os escritos
são lembranças do homem-pangarético que fui e me tornei com discursos no
senáculo de pangarés.
Ah, ah, ah!… Essa sensação desagradável de estar
continuamente ouvindo gemidos, de estes gemidos serem de homens quem se sentem
sim prazerosos com o ornamento de lado e outro da cabeça, não tarda a
dissipar-se; compreendo que o desejo é outro, que me estimo, muito
simplesmente, e estar ouvindo tais gemidos é sem qualquer dúvida a revelação
superior de que não me dou o mínimo de respeito, não me dou o menor valor;
dedico-me grande amizade e não posso viver sem mim nem deixar de me preocupar
com tudo o que se relaciona comigo.
Manoel Ferreira Net0
(JUNHO DE 2005)
(#RIODEJANEIRO#, 06 DE SETEMBR0 DE 2018)

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