#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE



CAPÍTULO IX - FASCÍCULO DE EGRÉGIOS INDIGENTES - PARTE I


Tenho, é verdade, uns fumos de insigne, de nobre, o que denomino, nas horas de angústia e melancolia, de pachorrice sem limites. Mas quem não é de todo pachorra, um pouco pachorra neste mundo? Releva observar que não recorro à idéia de que antes da angústia e melancolia estes fumos de insigne, de nobre, serviam apenas de máscara, para encobrir a verdadeira realidade minha, que por inteiro não assumo, não admito em mim, sendo mais fácil e aconselhável envolver-me de mentiras, fingimentos, falsidades; serviram unicamente de fuga, para não sofrer muito, não estar frente a frente com a minha miséria, indigência, necessitando de mudanças, se é que desejo sentir-me realizado.


Não recorro a esta idéia senão após experimentar que, em verdade, não há homens que não usem suas máscaras, adaptando-as ao gosto e estilo próprios e peculiares. Alguns nem sabem delas, agindo como se fossem os mais autênticos e singulares de toda a criação divina. Se se sentem angustiados, desolados, solitários, nunca são capazes de perceber que em parte, senão de todo, a responsabilidade destes estados de espírito é justamente por serem inautênticos consigo mesmos. Encontram outras explicações e justificativas. Outros sabem, conhecem bem as razões e motivos que os levaram a preferir as fugas, mentiras, falsidades, e por nada desejam qualquer mudança ou transformação, mesmo reconhecendo que isto não irá fazer-lhes felizes. Talvez por inércia, preguiça de se entregarem a um processo de reflexão, enfim mudar as coisas causa muito mais dores que permanecer com elas. O que realmente acredito é que estes homens sofrem de algo bem contundente, são uns fracos e impotentes.


Tornou-se difícil continuar a criar este artigo, pois que afirmei acima que nos momentos de angústia e melancolia assumo uns fumos de insigne, de nobre, e isto não está relacionado com o uso de máscaras e fugas. Pergunto-me se assim não é, como então o é? Aliás, afirmei que estes fumos são denominados de pachorrice, aquando de angústia e melancolia. Creio o desejo era de registrar a inautenticidade que vivo nela, que cobri todo o corpo com o seu manto acolhedor e terno. Ao longo, pensando bem, deveria sim ser corajoso o suficiente para assumir também estou sujeito ao uso delas, adaptando-as ao gosto e estilo próprios. O que faz a diferença entre mim e alguns homens será sim a ousadia de reverter este processo, de superar esta condição humana de não assumir os erros, arbitrariedades.


Vem-me à mente que isto de ter uns fumos de insigne, de nobre, não se trata em específico de máscara, mas de uma necessidade compulsiva de assistir aos meus valores e virtudes reconhecidos, o que, se não falta a memória, nunca aconteceu. Sinto-me perdido, confuso, alguém afastado com desdém ou desprezo. Lego-me estes fumos para não sofrer, para dar conta de chegar a um minuto de daqui a pouco.


Conseguindo, esqueço-me destas tristezas e desolações, mas sabendo, de antemão, que nalgum tempo tudo retornará. Com isto dos valores e virtudes não serem reconhecidos, qualquer idéia ou pensamento de uma eternidade torna-se algo vão, sem qualquer pitada de sal. Imagina-se, com efeito, que haverá apenas uma cruz com o nome, data de nascimento, data de falecimento, e nada mais. Ninguém irá se lembrar que no fundo da sepultura existem ossos, e estes ossos foram de um homem que, como qualquer outro, viveu, teve problemas, valores e virtudes, erros e gratuidades. Embora todos os fumos de insigne e nobre, outra coisa não representou no mundo senão um indigente.


Para enfatizar bem a idéia que venho desenvolvendo, vale ressaltar que por volta dos vinte e dois, vinte e três anos, pedi a alguém, a quem considerava um amigo, sendo em verdade um companheiro de faculdade, que não permitisse enfincar uma cruz na minha sepultura: se tivesse alguma condição financeira privilegiada , podendo ser cremado, isto custa muito, jogasse as cinzas em qualquer boca-de-lobo que primeiro encontrasse. Claro que não faria isto. Se ninguém reconhecia meus valores, ele com efeito reconhecia-os.


Noutro prisma de visão do que venho desenvolvendo, estive recentemente num evento social, e, de algum modo estando eu envolvido com a pessoa que estava sendo homenageada, cri que a imprensa lá presente deveria ter considerado este envolvimento, esta pessoa é a responsável por um patrocínio na rádio local, onde publico artigos escritos por mim. No entanto, permaneci um desconhecido para a maioria dos presentes. O que fiz então para vencer a frieza? Ao término das homenagens, quando a palavra foi posta franca, dirigi-me ao microfone, agradecendo a esta pessoa cordialmente o seu patrocínio, o seu incentivo, enfatizando o que represento no mundo. Estive nervoso durante a fala, que não durou três minutos, pois, no íntimo, pensava que se trata de mais fumos de insigne, de nobre. Em verdade, dizia à imprensa ali presente que, apesar de seu não reconhecimento, havia ali quem reconhecia, se não os presentes, eu mesmo.


Não o afirmo categoricamente, mas não é impossível que chegue a galgar o cimo de um século, do início de um milênio, e a figurar nos compêndios culturais e intelectuais, caderno ou grupo de cadernos de uma obra que se publica à medida que vai sendo impressa. Tenho saúde e robustez. Quem não está de todo maduro e consciente para saber que ninguém é reconhecido em vida, muitos demoram a sê-lo após a morte, não deve em hipótese alguma enveredar-se pelos caminhos das letras. Não o digo especificamente no que concerne à imprensa, aos críticos, porque, sem dúvida, os escritores ficam, a imprensa vai, os críticos vão. Reconheço a petulância de dizer que não necessito de viver em um tempo, mas para a eternidade. À imprensa, as batatas!...


Com esta reflexão, despeço-me, não direi coisa outra, mas com certeza mais formoso entre os contemporâneos meus...
A luz inflama os vitrais coloridos onde os apóstolos e os santos ostentavam sua glória.


Os grandes silêncios do campo, os verões crivados de uma luz esmagadora, as tardes brumosas enchem-me de uma perigosa volúpia. O olhar perde-se no céu e na neblina à procura de alguma coisa que não posso encontrar, perscruto com insistência as profundezas azuis para nelas descobrir uma imagem querida, a quem talvez, por um privilégio especial, ser-me-ia permitido manifestar-me uma vez mais.


A ternura do jovem sonhador, desviando-se para novos objetos de desejo, permanecia fiel a seu caráter primitivo. Ama ainda, o “passeio em busca do amor”, sob formas mais ou menos perfeitas, a fraqueza, a inocência e a candura. Não são, todavia, caminhos alegres e felizes, às vezes muitos caminhos amargos, dolorosos. Assim o creio, diante de experiências e leituras de poetas como você, que ora nos dá a graça de “Saudades”, antologia de poemas. Talvez os seus caminhos não tenham sido assim dolorosos, desfrutou de felizes momentos a cada passo dado, a cada conquista, a cada amor vivido. Mas, ao que me diz, você busca a paz dos momentos, procura os sonhos, procura vidas, como sabe seus tormentos são espaços, são feridas. Entre as marcas e as características principais que o destino lhe imprimira, este poema a que me refiro, incluso em sua antologia, mostra bem que é preciso assinalar também uma excessiva delicadeza de consciência que, ao lado de sua sensibilidade, serve para aumentar desmesuradamente as ilusões e esperanças e para tirar das faltas mais leves, imaginárias até, conhecimento felizmente muito real.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)


(#RIODEJANEIRO#, 06 DE SETEMBRO DE 2018)


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