#SENÁCULO DE PANGARÉS - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE
CAPÍTULO VIII - PARTE V
Os limites do que escraviza o homem recuam até onde
já não podemos negá-los – ou seja, onde o corpo é irrecusável. Mas aí então o
que se ergue é ainda o destino, o irremediável que é do homem, e a derrota que
se vende cara investe-se por sua vez da qualidade da vitória. Eis porque a ação
é um valor que o medíocre e mesquinho também conhecem. Somente aí a sua
justificação desfigura-se também em mediocridade e mesquinharia.
As imagens sucedem-se a um ritmo extraordinário,
similares a um verso ou a um poema, a distribuição de sons de modo que estes se
repitam a intervalos regulares, ou a espaços sensíveis quanto à duração e à
acentuação, rigor voluntário no sentido de ir unindo-as, sem deixar perder uma
característica muito singular, a sua singeleza na sedução e na conquista, a
simplicidade de formas não destoa de harmonias discretas e requintadas, a
ingenuidade da beleza imprime nelas o esplendor do estilo, a inocência do belo
a olhos nus realça o resplendor dos desejos e dos sonhos.
O facho erguido na juventude para o arrojo de
passos largos é agora uma breve candeia para soletrar o caminho. É a confiança
que nos acende a luz que nos ilumina e assim cada idade tem a sua. Nem a
velhice é a mais propícia idade para recordar ou evocar. Se um velho recorda, é
sobretudo como o laudator temporis acti de Horácio. Não podia deixar de faltar,
não é senhores? Nos tempos da Roma antiga, era de práxis o uso de expressões
latinas as mais suntuosas, e a modernidade jurídica está querendo extinguir o
latinorum dos códigos, o que é uma imbecilidade.
Porque recordar, ou mesmo evocar, é afirmar uma
ligação, tornar plausível não o regresso ao passado, mas à sua beleza. Louvar
um velho o tempo passado, não é impor-lhe a sua importância para si mas para os
outros, é previamente defender-se da acusação de estar ainda vivo. A sua
fraqueza é a sua força, não como na criança que ainda não está responsabilizada
com o mundo, mas como velho que já não está.
O que mais assusta nisto de contemplar todas as
situações e circunstâncias da vida, recriá-las, tornando-as atitude e
generosidade, amor e compaixão, é que tudo se cala diante das revelações, reduz
a imensa massa de silêncio, que ouço sem cessar; contudo, dizer somente de
“doces” e “chocolates” não fazem o estilo de alguém que busca e trabalha sua
realidade no sentido de atingir a Vida, e não somente o sentido dela.
A pura hipocrisia é uma boneca que se afaga todos
os dias, sim, e ninguém pode negar esta sua dimensão, pois que assim perde a
poesia de seguir uma alameda tranqüilo e sereno com suas atitudes, com seus
pensamentos, idéias, com desejos e sonhos de poder compreender os enigmas
abençoados, ajudando a compreender o sentido de todas as coisas, pois que assim
deixa suspensas as milhares de vozes que lhe anunciam o que descobriu e, no
entanto, sabe que ainda não mergulhou fundo nas alegrias e felicidades do
mundo.
Ruminando ouro e riso, construo com as mãos, são
elas o objeto do intelecto, a vida que desejo viver. Dir-se-ia que agora há em
tudo ouro velho, bronze, cobre, e isto com o azul acinzentado, excessivamente
harmonioso, com tons de reflexos.
Senhores, digo-vos ressentido, magoado,
entristecido, angustiado, deprimido com o comportamento de algumas pessoas
comigo, passando pelas ruas, troçam em todas as esquinas disto que estou
fazendo, de estar discursando para vós, dizem alguns que era esperada a minha
insanidade, um homem para quem a vida não tem sentido algum, comportamentos sem
direito à reclamações escusos e espúrios. Faz sofrer. A que grau de
insensibilidade os homens de nossa modernidade chegaram, de solidariedade,
compaixão, julgam-me esta ação. Deveriam tentar convencer-me, persuadir-me ser
uma coisa ridícula, isto dar margem a comentários os mais esquisitos e
estranhos, a troças de todos pelas ruas e esquinas da cidade, o que está feito
está feito, mas não continuasse, estava me prejudicando e muito, minha imagem
estaria, seria denegrida em todos os âmbitos, e para amenizar, estar eu louco
de pedra.
Respiro ar puro a plenos pulmões e sinto-me feliz.
Aqui vivo livre, não sou oprimido pelo desinteresse e preguiça e espero seja o
meu último porto. Com efeito, o que corre é a preguiça e o desinteresse de as
pessoas serem sinceras, autênticas, tem-se a impressão de que se está na
arquibancada de um circo de quinta categoria; ao terminar o espetáculo,
rumina-se ouro e riso. É a vida que escrevo de memória na própria imagem que
delineio e burilo.
De que adianta então as palavras, os sentidos, os
significados? De nada adiantam. Com certeza. Servem para brincar – bem, para
mim, é para brincar, passar o tempo até daqui a pouco, quando já imaginar que
não sobrou mais nada a registrar, quando houver adquirido a sabedoria de que as
últimas possibilidades são do tempo e da eternidade.
Sinto-me sorrir com os cantos da boca.
A única coisa que o relógio simboliza ou significa,
enchendo, com sua presença, as horas, é a curiosa e insípida sensação de encher
o dia e a noite com a presença das horas. Todo o alpendre estala de uma
presença intensa, alguém mais ali, flagrante sinto-o, não vejo ninguém. Uma
vaga passa, invisível e grande, ao balancear dos meus olhos pelo horizonte,
sinto-me bem, experimento uma canção que me aparece nos ouvidos. De qualquer
modo que sinta o inverno – agradável, porque é frio; esplendoroso, por ser
sereno e suave, não havendo letras que não desejem ser expressas com alegria e
júbilo – assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)
(#RIODEJANEIRO#, 05 DE SETEMBRO DE 2018)

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