#SENÁCULO DE PANGARÉS - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE



CAPÍTULO VIII - ESQUECIAM-ME AS MULAS - PARTE II


Ah, senhores, serei um eterno admirador da brincadeira com as palavras, brincar com elas não significa ser artificial, tolo, imbecilizado e imbecilóide, mas saber que a profundidade delas reside no ambíguo e contraditório, não se pode distinguir quem é quem, o que é o que, se o pangaré é o homem, vice-versa. – só no paradoxo podemos encontrar o absoluto. Há quem o contradiga, e são inúmeros, dizem até que os homens extremos só conseguem expressar nos paradoxos os temperamentos patéticos e ridículos. Alguém me dissera isto, na juventude, levando tanto a sério que cuidei logo de não mais derramar lágrimas com algumas palavras humanas, expressões de seus estados de espírito e alma.
A diferença primordial, entre nós, os humanos, e vós, os pangarés, reside na oração. Os homens oramos em busca da vida, felicidade, do perdão de nossos pecados, de nossas sendas perdidas e senhas, quando não desconhecidas, esquecidas, em busca do Paraíso Celestial, desde que fora instituído pela Igreja que, sem Deus, sem orações, nosso destino radical é o inferno sem direito a quaisquer reclamações ou sentimentos de injustiça. Não é que, numa das primeiras vezes que fui à igreja com a minha amada e querida mamãe, não fiquei imaginando um jegue sentado, ajoelhado, rezando, orando, pedindo a Deus perdão por todas as suas asnices em determinadas situações, asnadas noutras, pedindo a Deus pela iluminação de seus potros, não cometam injustiça, jogando as crianças no chão.


Seria interessante ver o jegue com as patas dianteiras em gesto de oração, o rabo debaixo do banco. Senti-me culpado, pecador por tais pensamentos e idéias dentro da Casa de Deus, mas precisei rezar e pedir perdão, ouvi-Lhe a voz terna e meiga que alimentasse esta imaginação, imaginação fértil, como alguns professores dizem dos gênios, daqueles pequenos seres que se dedicam ao conhecimento, da felicidade com as letras, a história, os números e as razões mais profundas e inúteis. Desde a eternidade as crianças-gênios souberam disso, o que desejam é colocar em prática, entregarem a vida se for preciso em busca das sendas perdidas e das senhas esquecidas, ao som do country de Alan Jackson, Living on Love, “saying some bounds”.


O pangaré com quem estive conversando, quando me elogiava os dons e talentos com as palavras, dissera-me que tivera a oportunidade de rebolar as patas traseiras, ouvindo esta linda música que me extasiara desde que a ouvira pela primeira vez num DVD que tive a oportunidade de adquirir, pirata, na cidade de Três Corações. O pangaré já a conhecia. Fora delicioso mesmo, dissera-me ele, rebolar as traseiras, enquanto as dianteiras seguindo os passos e trejeitos de Alan Jackson no clipe. Mais uma vez se sensibilizara com as minhas palavras, devido a este fato verdadeiro em sua vida, traz esta música lembranças de sua infância pelos pastos da fazenda, vestido a categoria, curtindo o pasto ao lado de pangarés, asnos, jegues, e todas as suas espécies reunidas.


Rebolara a ponto e categoria de as pessoas pararem para admirar a dança, embalançando-se nelas, curtindo e cantando pelas ruas da cidade, coitado daqueles cujos rabos não suportam passar nas ruas sujas e esburacadas, dizendo de si para si mesmos: “o jegue levantou feliz da vida, curte a vida, puxando sua carrocinha até não sabe quando, não têm noção de tempo como os humanos. A partir de então, sempre que virem alguém feliz, curtindo a vida, dirá sempre: “o jegue hoje levantou feliz da vida”, apesar do sentido pangarético seja de quem acredita na vida em todos os pontos e ângulos e interpretações, quando a realidade é verdadeiramente outra.


Deus me dissera que alimentasse estes meus dons pangaréticos, o único de todas as espécies que já se apresentaram no mundo, imortalizaram-se, endosso em todos os sentidos mesmos, são merecedores dela, mas sou homem-pangarético, a "pangar-ética"
habita-me as pré-fundas de todos os abismos e lugares escuros. Algum dia iria alimentar as pessoas já desesperadas da vida, sem quaisquer noções de suas dimensões espirituais e humanas, descrentes de tudo e de todos, alimentasse neles a divinidade pangarética de um homem que discursa num senáculo de pangarés.


E vós não precisais, origem esta que não é a vossa, orar, aliás não tendes quaisquer noções do que seja isto Deus, apesar de que acredito a vossa crença na existência, no poder de Suas Palavras em nossos corações tão angustiados e desesperados. Através de meus dons, iria ajudar a humanidade a encontrar outros caminhos para seguirem a estrada das conquistas e desencontros, que nos elevam o espírito e a alma.


Não é que dizem: “quem pensa pequeno é jegue”, como humano tenho que sonhar grande a menos que queira me imortalizar como um jegue humano, o que é diferente de ser homem-pangarético, com todo respeito àqueles que não foram beneficiados pela natureza, não podem espremer os miolos. Vós não tendes quaisquer necessidades de rogar a Deus misericórdia e compreensão, a menos que não considereis que Deus não tenha de considerar as jeguices de um pangaré. Já pensastes, queridos presentes de origem e espiritualidade pangarética, alguém de vós pedindo a Deus perdão por suas jeguices, de patas postas e rabos debaixo do banco: “Tenha misericórdia de nossas jeguices e pangarices”, seria mesmo muito cômico.


Estive conversando com o nosso eunuco, Serafim Manassés, quando lhe dizia que os jegues são os únicos que serão imortalizados na história da humanidade, os humanos apenas os imitamos, uma paráfrase muito medíocre e chinfrim. Disse-me, após mais uma dose de sua eterna bebida, a inspiradora, o excelente Gim Gylbeis, quando conversamos convosco sentimos a dança dos jegues no dia do Juízo Final, o rabinho abanando à moda e estilo dos cães, as palavras são brinquedos nas mãos, brinquedos que se tornam arte, estética, alfinetadas nos costumes e hábitos mesquinhos, aparências medíocres, assumam vez por todas a instintividade e vivereis felizes por todo o sempre. Dissera-me ele: “Vós tendes razão absoluta, com a sublime característica da in-versão e re-versão dos valores e virtudes. Nalguma universidade de nossa tão querida cidade estes discursos serão estudados e apreciadas estas minhas palavras, em busca da razão re-versa, chegando apenas a esboçar a in-versão, a menos que considerem que o pangaré habitou-lhe a alma e o espírito, e isto não querem mesmo, Deus me livre. A eterna pergunta: “como é isto de deixar os pangarés nos habitarem, seremos felizes?”. Que história é esta?! Seria ofegou com insistência mesmo, as narinas tremendo, queria por que queria res-postas, mas não pude realizar sua intenção, seus desejos e vontades; a razão de não lhe responder a questão tão complexa foi, como lhe disse, não haver pensado nisso de como os pangarés nos habitarem, seremos felizes. Acordei a tempo. Deixasse isso passar os meus pepinos todos seriam descascados, o nome, o patetismo, ridículo, absurdo de minha vida, só tendo o dinheiro para desvirtuar, tergiversar as coisas, jogá-las para o outro lado. Não dissera para os homens deixarem os pangarés habitar-lhes, isto é impossível sob qualquer interpretação e análise, só na cabeça de um louco, desvairado; dissera para os homens deixarem os instintos lhes habitarem, assim serão felizes. Aí é que pedira mais explicações. Tive de silenciar-me, prometendo-lhe que refletiria muito nisso, arrancaria cada fio de cabelo da cabeça até conseguir responder a contento.
Dizia sobre a esperança, a fé, a vontade de algo realizar mesmo, sendo sincero e responsável com as idéias e pensamentos. Não consigo contemplar outro estilo e linguagem, desculpai-me, mas me sinto preguiçoso, quem sabe seja o tédio que se aproxima de mim o mais presente possível, e não desejo arquitetar outros, a preguiça é a mãe de todas as pangarices, as idéias estão frescas, ávidas de alguém que as traduza com fidelidade e lealdade aos princípios pangaréticos, e não estou querendo isto. Mas é neste momento preciso que as inspirações vão surgindo, as intuições ávidas de encontrarem comunhão com a percepção, dom e talento, seguidos da intuição primordial a quem discursa em tão egrégio senáculo, discursando para os meus queridos pangarés e jegues, mulas, esquecia-me delas. Somos seres-no-mundo, o homem que se encontra no horizonte de uma determinada visão de mundo. O voltar-se para si mesmo é, precisamente, o olhar para este horizonte de compreensão no qual pressupostamente sempre já nos encontramos.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)


(#RIODEJANEIRO#, 05 DE SETEMBRO DE 2018)


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