#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: ROMANCE
CAPÍTULO XVIII - IV PARTE
Vós não orais? Aliás, o pangaré com quem estivesse
conversando, já tendo me referido a ele anteriormente, conversa que terminou
num restaurante, começando fritas com queijo, bebendo Gim Gilbeys, terminando
com uma excelente feijoada. Não sei se assim me torno inteligível o que me
disseram certa vez sobre a feijoada: “comida de jegue”.
Sim, por que quem já passou dos oitenta anos comer
uma, num calor como nos é peculiar na cidade, é ser jegue, sabe que vai bater
com as dez num único tempo, digamos assim.
Pediu-me que o ensinasse a rezar, desejava mesmo
fazer orações, não sentaria no banco da igreja, debulhando os terços com fé e
esperança em outra vida, mas nas horas do vazio, após o coxo de feno ou do
capim do pasto, meditaria no vazio ser uma experiência espiritual. Rezar pode
tornar-se um exercício de esvaziamento e predisposição para a aceitação de Deus
como fonte e origem de todas as realidades e que faz morada no meio de nós.
Tudo isto é absurdo – direis vós, caríssimos
senhores, e eu não o nego. Mas o absurdo sois vós... Assim o absurdo se ergue
ao tentardes entender-vos sem absurdo no absurdo que sois. Eis porque o
“remorso” é equívoco também. Porque é fácil demonstrar “racionalmente” que ele
não põe em causa uma autenticidade. O remorso implica que escolher uma lei como
válida e escolhemos ser quem somos contra essa lei. O remorso significa, pois,
que o escolhemos a ele como elemento da nossa própria pessoa. Ele não
significa, portanto, que eu me escolhi contra o que profundamente sou, quando
escolhi o mal, ou seja, quando me “contrariei”, para assim a pessoa boa que sou
se poder lamentar e arrepender.
Não teria sentido perguntar-lhe sobre a sua
escolaridade, seus conhecimentos eram profundos, não era analfa, dei-lhe de
presente a minha oração, compus especialmente para mim que sempre teve
interesse em conhecer os instintos dos jegues, jumentos, burros, asnos,
pangarés. O instinto nosso de cada dia – infelizmente os homens não vão
conhecê-la, pois que o presidente é de opinião que “pego pesado” com a
linguagem, ademais as autoridades eclesiásticas não iriam permitir que ela
viesse a tona, que fosse divulgada a todos os eventos -, lesse-a sempre,
chegaria a memorizá-la. “O senhor achais mesmo que chegarei a Deus através
desta oração, não sofrerei tanto com o sentimento de que não me é possível o
paraíso, então o abismo eterno me será cabido”.
Devemos confessar que a ausência dele hoje está
sendo sentida por todos nós, pois que poderíamos trocar uns dedos de prosa,
instintividade incisiva, antes de a mosca sentar-lhe no lombo já o couro treme,
seria um excelente diálogo, ajudar-nos-íamos a decifrar muitos mistérios de
nossas raças que os cientistas ainda não conseguiram realizar.
Escolhi a auréola misteriosa não para vos entreter,
não creio que o mistério do pangaré e do homem iria entreter-vos, ao contrário,
iria deixar-vos suspensos no fio tênue da alucinação instintiva e da loucura
racional. Não é assim que se caracteriza o famosíssimo piti humano frente às
suas próprias mazelas?! Sempre de novo tenho de abandonar tudo e ser abandonado
por tudo a fim de recuperar-me e recolocar-me de modo mais livre cada vez.
Tenho de deixar toda ideologia se quiser-me colocar no ponto de origem de uma
verdade realmente libertadora.
Escolhi a auréola misteriosa para introduzir uma
questão assaz complexa: os homens somos os únicos seres quem questionamos Deus,
necessitamos dEle para indicar-nos o caminho da Vida, Amor, Salvação, Redenção;
para os animais não existe Deus, sobretudo para os pangarés que são em demasia
destituídos de sensibilidade. Se for tirado o envoltório do mistério, se uma
religião, uma arte, um gênio – quem sabe o gênio, a sua constituição, a sua
essência, não sejam a comunhão do instinto humano e a racionalidade
pangarética? – forem condenados a gravitar como um astro sem envoltório
nebuloso, não há porque se surpreender ao ver esse organismo secar, endurecer,
esterilizar a breve prazo. É a lei que rege todas as grandes coisas, as quais
não “prosperam sem um pouco de ilusão”. Já pensastes se alguém coloca na cabeça
que vai tirar todo o pelo do seu pangaré, deixar-lhe em couro vivo? Se isto
fizesse, não há por que surpreender ao ver o seu couro, o que mais poderia ver,
poderia ser coisa cômica, mas não que alguém pensasse veria outra coisa senão o
couro.
Mas todo povo também, todo homem que deseja chegar
à maturidade, dimensão esta que o torna consciente de sua vida, envolvida de
todos os problemas e de todas as alegrias que o mundo lhe oferece numa bandeja
fria e insensível, tem necessidade de uma dessas ilusões, ilusão de ser
perfeito nas suas atitudes e ações, sentimentos e emoções, ilusão de amar, ser
solidário, compassivo. Hoje, contudo, temos horror da maturidade, ser
consciente dos problemas e complexidades da vida, do ser não nos oferece qualquer
garantia, segurança do perdão de Deus, do Paraíso Celestial, ao contrário,
estamos mais condenados ao inferno do que sempre estivemos em toda a história
da humanidade. Não há salvação para os nossos pecados capitais.
A ilusão de com a oração, dizia-me ele, não
precisar mais desejar o abismo eterno como residência eterna, podendo ir para o
céu, curtir os prazeres e alegrias da eternidade. Reconhecia isto, sim, o que
já era, na sua concepção e noção de vida e necessidades jeguéticas da
espiritualidade, assim iria aprender a orar, leria até mais não poder nem ver
pela frente, sentindo asco e nojo, um sentimento indescritível, digamos assim
para considerar a amenização, isto não me leve nas barbas da inquisição, nas
suas barbas e barganhas mesmas. Já pensaste esta cena, condenado a ser
enforcado numa igreja com todas as pompas de outro deus, o deus dos jegues,
creio que nenhuma artista das letras iria querer que uma destas criações fossem
objetos de só tons jocosos quando se referir à sua obra, isto é desagradável.
Quando na verdade não estou destilando os ácidos críticos na Igreja, apesar de
que não concorde com a posição da Santa Sé em determinadas questões, a do
pecado original. Está? Então, os jegues são destituídos deles, o que me dizeis
a respeito do instinto, as coisas instintivas são caracterizadas como pecado
original também, o jegue é instintivo, nele, então, habita o pecado original.
Há uma ária que toco no cravo, com o poder mágico
de um querubim, e com tanta simplicidade, tanta alma. É a ária predileta, a
mais querida e amada de todas. Quando firo a primeira nota, sinto-me curado de
todo sofrimento, da confusão de minhas idéias e fantasias, quimeras e sonhos.
Invejar as jeguices dos outros é pecado capital.
Nesta altura de meus discursos, de nossos diálogos
e conversas, de nossas reflexões, sei que perguntais, e com todo direito, pois
que necessitais de tecer os fios da meada, o que é o homem ser pangaré, o que é
o pangaré ser humano. O homem que, tomado de surpresa e espanto diante de sua
mediocridade e estupidez, apela para as suas forças e transporta facilmente
cargas que, de sangue frio, mal poderia empurrar. A natureza humana suporta a
alegria, tristeza, dor, até certo limite; se o ultrapassar sucumbirá vez por
todas. A questão não é saber, pois, se um homem é digno de respeito ou digno de
pena e dó, mas se pode aturar a medida de sua idiotice, asnice, imbecilidade,
numa única palavra, sua pangarice, moral ou física, não importa, que lhe é de
vocação e direito.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)
(#RIODEJANEIRO#, 05 DE SETEMBRO DE 2018

Comentários
Postar um comentário