#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE
CAPÍTULO XI - BAGAS DE INFIÉIS E IMBECIS - PARTE I
Perguntar-me-eis em primeira instância, até para
ser diplomata e estratégico, o que devo fazer, se se me meteu na cachola que
não se vive somente para isto ou aquilo e que, se se vive, é num palácio que é
preciso ser instalado? Essa é a minha vontade, isto é meu desejo, instalar este
palácio. Considero e reconheço a destreza e habilidade de vossos instintos,
intuição, então, é divina, e vós podeis assim intuir a divinidade de vós
instintos, o divino que vos habitais bem profundo.
Quem seria capaz de me arrancar esta vontade, podem
tentar anulá-la a partir da perseguição, preconceito, marginalização,
interesses mesquinhos e medíocres, podem obscurecê-la com máscaras e véus?
Enfim, sei, estou consciente e convicto de que a partir destes discursos nesta
egrégia casa, serei esquecido com todas as pompas de chefe de raça, por me
dirigir aos homens e aos pangarés numa armadilha de instintos e sensibilidade,
acompanhados da subjetividade e consciência, de modo tão ofensivo e humilhante,
re-vertendo os sentidos pelo prazer de fazê-lo e também para me mostrar,
mostrar a habilidade que me habita de saber colocar na página branca de papel
palavras com sentidos tão ambíguos e desconexos, à moda jeguética, como cumpre
fazê-lo, desde que escrevi a palavra primeira, não me lembra agora. Nada pode
arrancar-me esta vontade senão quando alguém perspicaz e inteligente tiver a
ousadia de modificar os meus desejos. Pois bem, direi com todas as palavras e
letras legíveis: “modificai-os, apresentai-me, senhores, outro fim, oferecei-me
novas utopias e sonhos, novos ideais”.
Enquanto espero que me apresenteis, ofereceis-me de
coração e espírito, recuso-me a tomar um chiqueiro por um palácio de cristal.
Isto até por bom senso: o chiqueiro é chiqueiro, palácio de cristal é palácio
de cristal, a menos que esteja afastado de minhas faculdades mentais, seja
insano.
Quem sabe não seja agora o instante preciso da
conversão eterna, a conversão em jegue, andando de quatro, cabeça baixa, os
olhos perdidos no nada, imbecilizados de todo, condenados a burrice imortal,
dança ao som das sendas perdidas e das senhas esquecidas, abanando o rabo,
comendo capim no pasto.
É sim possível que o palácio de cristal não seja
senão um mito, as leis do ponto e natureza não o admitam e que eu o tenha
inventado, criado, para satisfazer os desejos de pilhéria e cinismo deslavado,
impelido por certos hábitos inconscientes e irracionais da nossa geração, não
creio os tenha trazido de outras.
O que importaria, aqui e agora, que o castelo de
cristal seja inadmissível, ininteligível? Que me importa, pois que ele existe
nos meus desejos – construindo ou não construindo, em verdade -, ou, ainda para
ser mais profundo, mergulhar na semente de mamona, pois que o castelo de
cristal existe tanto quanto existem meus desejos?
Se me apresentarem meios e estilos de instalá-lo,
se me oferecerem as oportunidades reais e concretas de fazê-lo, agradecerei a
todos e oferecerei as mãos para o sacrifico, sentir-me-ei feliz e realizado,
instalei o castelo de cristal de meus desejos.
Antes de entrar no mérito, como já dissera
anteriormente fazer-se mister nalgumas situações e circunstâncias analisadas e
interpretadas o preâmbulo, para enfatizar com categoria as considerações
intempestivas, mostrar as idéias e pensamentos que habitam alma e espírito, e,
assim, podendo vós delas se servir para uma eventualidade, algum momento em que
o vazio armou barraca e não quer ir embora de modo algum, voltar a sentir a
plenitude da vida, a sua completude, desde que sejam sinceros com as nossas
jeguices e pangarices.
Penso e imagino que os ouvintes estejam caindo na
gargalhada pela pilhéria sem limites, numa linguagem e estilo clássicos,
eruditos. “Ride até mais não podeis. Ofereço-me a interromper por alguns
segundos até que possa continuar a ler. Ride tanto quanto vos façais felizes”.
Se me desnudo diante de vós, apresento-me a vós com
estes e aqueles desvios de toda ordem e qualidade, ofereço-me numa taça de
cristal para saborear-me num “à nossa”, aceitarei todas as pilhérias, admitirei
todas as zombarias, recusar-me-ei, contudo, a declarar-me saciado das fomes
milenares, sedes seculares, quando ainda tenho fome e sede; não me contentarei
com uma responsabilidade, com um zero cada vez mais inclinando para a esquerda,
renovando-se indefinidamente, pela única e exclusivíssima razão de que está
conforme as leis da diplomacia, estratégia, os bons princípios.
Estivera numa garagem, num princípio de noite
chuvosa, conversando com o proprietário quem tinha alguns galões de pinga.
Disse-lhe com todas as letras: “Bem... Você já conhece bem um lema, pode-se
dizer lema, isto de termos de articular as nossas preocupações e não nos
afastar delas. Deste modo, não admitirei que o coroamento de meu castelo de
cristal de meus desejos possa ser um chiqueiro, com alojamentos a preço módico
no carnaval”.
Caíra na gargalhada, talvez por haver compreendido
e entendido que as bagas aqui não são de infiéis e imbecis.
O que teria a dizer, não me referindo as
gargalhadas do amigo? Destruí meus desejos, derrubai meus ideais, apresentai-me
um fim melhor, a infidelidade e imbecilidade são mais dignos, e eu vos
seguirei.
Ah, sim, nestes momentos de pilhéria, inda mais que
não dirigido a alguns, aqueles e estes, mas genericamente, a carapuça serve a
uns e outros, dir-me-eis que não vale a pena ocupardes-vos de mim, enfim quem
sou e o que represento para ser tão prepotente, arrogante, com o
“rei-na-barriga”. Neste específico sentido, posso garantir-vos que vos respondo
do mesmo modo, até com uma pitada de pimenta.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)
(#RIODEJANEIRO#, 06 DE SETEMBRO DE 2018)

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