#SENÁCULO DE PANGARÉS - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# GRAÇA FONTIS: PINTURA Manoel Ferreira Neto: ROMANCE
CAPÍTULO VIII - PARTE III
Agora que as fábulas bíblicas não têm já validade,
agora que se não justifica o combate a essas fábulas, agora que o homem ficou a
sós com o universo para um diálogo a sós com ele, o cientista dir-se-ia
apostado em acentuar o mistério, em alargar a distância que vai de nós à
realidade. É a ciência moderna que agora nos obriga a tomar consciência mais
que nunca, do enigma do mundo, do mistério omnipresente. Como se de um
horizonte finalmente atingido, o que se descobriu não foi que esse horizonte
era um limite mas a abertura ao ilimitado. Descobriu-se que os sentidos, sendo
o único instrumento do conhecimento do mundo, eram um instrumento extremamente pobre,
que para se chegar á realidade a que se chegou, os seus dados e toda a
aparelhagem metafórica relacionada com eles tinham de ser substituídos por
fórmulas matemáticas, que o principio de causalidade tinha de ser substituído
pela aproximação estatística, que a ciência é incapaz de explicar o que seja a
eletricidade, o eletromagnetismo, a gravitação e que, desde há uns cem anos, a
certeza de que a ciência explica o como das coisas, começou a turbar-se.
Trata-se de uma decisão existencial que, no nível
da fé, se chama conversão, ou seja, decisão do homem de fé de sempre se
examinar e tornar-se ele mesmo em relação a Deus. Aí, é preciso tato para
tratar da questão, nesta circunstância e situação de críticas profundas e
fundamentadas a todos os princípios, morais, éticas e religiosidades imperantes
e reinantes, pois que a Igreja pode condenar-me por todo o sempre, e esta não é
a intenção específica, de criticar insanamente a cristianidade, faço-o em
termos do catolicismo e cristianismo estabelecidos.
O que acontecera comigo desde que vi o primeiro
jegue em minha vida, puxando a carroça entregando o litro de leite que a mamãe
comprava todos os dias, fora exatamente isso, aí está a origem de minha
conversão à espiritualidade pangarética. Converti-me aos pangarés. Desde modo,
como vos dizíeis a respeito da oração, o rezar é sempre conversão, o discursar
para jegues é sempre conversão ao pensamento e às idéias, algumas vezes
chegando ao limite “jeguético”, sem quaisquer possibilidades de o rabo dançar
ao som de Living on Love. Daí é que começou a longa jornada em busca da
verdadeira pangarice.
Mas o retorno a nós, como julgo já ter dito, tem
uma ampla gradação, desde a simples autoconsciência que nos acompanha toda a
consciência, até a essa indecisa presença a nós próprios, fulguração de nós,
fugidia identidade consco em que fugazmente nos vemos surgir perante os nossos
olhos, descida á zona primordial de nós, reconhecimento original da pessoa que
está conosco, verificação deste princípio vivo que irrompe de nós,
incandescente realidade que é um “eu”.
Sim, senhor Presidente deste evento, isto não
merece ser considerado a ferro e fogo, sem meditações e reflexões, tenho de
pedir-vos desculpas sim por me dirigir à Igreja de modo tão sarcástico, embora
nas entrelinhas de minha fala isto não vai deixar de existir, cumpre apenas
saber usar as metonímias para amenizar as coisas. Compreendo sim, Senhor
Presidente, que tenha sido um acinte inestimável à fé cristã, a cristianidade,
cristianismo e catolicismo. Não deve ser registrada na lauda desta ata tão
distinta e primorosa, merecedora de todos os elogios e encômios, a começar
sendo eu quem discursa. Os outros não sei o que fazem, não assisto, já conheço
as pangarices de todos os presentes e membros. Esta foi pesada, para chegar ao
termo desta lengalenga sem quaisquer necessidades, pois que não devia ter
escrito, já que foi, seja pronunciado a todos os pulmões.
Aí, vem-me uma palavra de carinho e ternura com os
suicidas, não precisavam cometer o último ato fatal em suas vidas, devido a
razões desconhecidas de nós que continuamos vivendo, não era preciso, outro
passo seria assumir a pangarética em suas vidas, não suicidariam de jeito
nenhum. Então, digo aos humanos que insistem em serem racionais em absoluto com
direito a todas as galochas
Contudo – qual o ator que representasse esta
comédia dos instintos humanos comungados aos do pangaré, como quem retificasse
suas palavras tão sem senso quando o nada que nos oferece certas canções e
músicas -, caríssimos e inestimáveis pangarés, decidi, por força de algumas
situações, esboçar tais diferenças, cabendo-vos interpretar conforme vossas
aptidões instintivas que, para mim, nelas residem as divinidades supremas.
Vós levantais as patas dianteiras, relinchais a
todos os pulmões, um momento realmente profético, profundo, promissor para
todas as graças da humanidade inteira, pelo menos neste início com os pangarés.
Deus sempre iluminai os meus caminhos, sou merecedor de seus relinchos a todos
os pulmões, o auge de uma apresentação teatral, relinchos, relinchos. Com tão
poucas palavras consegui levantar-vos, aclamar-me por toda a eternidade, já
pensastes se houvesse dito em muitas outras, Deus mesmo trar-me-ia o trono
celestial ao mundo para me sentar em vida mesmo. Não vos esqueçais, meus
queridos e inestimáveis pangarés, de que quem adora, mata, empalha. A nada
adoreis, a nada mesmo, senão a Deus, que nos dera a vida a todas as raças, a
todas as suas criaturas.
Tudo o que vive tem necessidade de se cercar de uma
atmosfera, de uma auréola misteriosa – a atmosfera escolhida para vos entreter,
tornar-vos estes momentos de leitura de meus discursos neste senáculo de
reflexões sobre como discernir, através dos instintos ou da razão, as nossas
diferenças, se é que em nossa modernidade há alguma, de humanos e pangarés,
colocando-nos a nós, cada um de nós, nos devidos e estritos lugares, não
havendo mais pangarés metidos a humanos, possuidores de intelectualidade
superior à humana, capacidades racionais de fazerem cair nossas pequenas e
singelas orelhas, e humanos agindo como pangarés até mesmo destituídos de
instintos, de poderes instintivos de escoicear quem lhe passa à frente nos
projetos e interesses, quem leva vantagens indescritíveis, quem se torna
privilegiado com as idéias alheias, com a inteligência de outrem. Quem é humano
não se torna pangaré e aquele que é pangaré não se torna humano, isto é uma lei
da própria natureza; mas do jeito que as coisas estão acontecendo Deus dormiu
no ponto e na sua soneca inverteu as bolas, legou poderes pangaréticos aos
homens, poderes humanos aos pangarés, e de tanta confusão é cabido o
discernimento, isto para preservar os brios e calafrios.
Qual dentre vós jamais sentira o vazio, aliás
pergunta cretina e imbecil, podem escoicear aos ventos, merece o coice
perfeito, pois que o tempo para vós é justamente a diferença do coxo de feno e
o resto de abanarem o rabo e passearem pelo pasto ou empacados no mesmo lugar
olhando para o nada. Pois bem, vazio é um estado onde experimentamos a
carência, a finitude, a necessidade de Deus. Digo sobre nós os humanos, isto é
que significa para nós o vazio. É um espaço em nós mesmos que possibilita a
habitação de um Deus. Qual dentre vós que não desejais que após as vossas
mortes sejais jogados num abismo sem fundo, e à medida da queda, além da
deterioração carnal, os ossos por aqui e ali até se tornarem cinzas, e os
homens dizendo: “lá vai o pangaré em busca das cinzas na queda eterna no abismo
sem limites”? Ninguém. Isso lá é verdade para nós quanto para vós.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)
(#RIODEJANEIRO#, 05 DE SETEMBRO DE 2018)

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