#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO "UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE



CAPÍTULO VII - ESCRUTÍNIO DE HIPOCRISIAS - PARTE I


Até gostaria de vos apresentar, conquanto possa extasiar-vos as curiosidades, entusiasmos, mostrando-vos imagens e perspectivas da condição e natureza humanas, senhores e senhoras, também as sinceras e puras desculpas, e por que não pedidos de perdão, por vos estar incomodando sobremaneira as atenções, instintos e pontos de vista os mais singelos possíveis, olhando-os à luz dos sarcasmos e cinismos, dos princípios científicos e intelectuais que fora adquirindo ao longo da vida; a intenção é de instigar as vossas orelhas a ficarem em absoluto eretas. Pelas ruas, pastos, os humanos que vos observam com perspicácia dirão que estais de orelhas eretas por estardes refletindo sobre as minhas palavras e idéias, os instintos mais do que ansiosos pela metamorfose definitiva, a transformação deles em inteligência, razão, intelecto, intuição, percepção. Aquele sorriso trigueiro: “O que é o mundo?! Pangarés que se tornam humanos, mas continuam andando de quatro”.


Não vou apresentar-vos o que me perpassa o íntimo neste instante no que tange a estas questões, para mim, fundamentais para a com-preensão e entendimento disto de haver sempre andado na contramão da vida e do mundo, mas isto já superei, tendo em vista as idéias que me perpassam o íntimo acerca da condição e natureza humanas; seria mister puxar uma carroça mais do que carregada de entulhos seculares e milenares, de bugigangas contingentes e espirituais, não tenho fôlego suficiente para esta empreitada, e mesmo porque, se o fizesse, seria espetáculo excêntrico, ninguém ficaria dentro de casa, iria presenciar pessoalmente os meus grandes esforços, suspiros acompanhados de esgares faciais, demonstrando cansaço, tédio da realidade vigente, a língua para fora, o grito, as palavras saindo fáceis, excorujando e exconjurando a humanidade, seus princípios, morais e éticas, sentimentos e vontades, emoções e desejos, esperanças e sonhos, seguindo as trilhas, pensando e re-pensando, re-fazendo os conceitos e definições, procurando outros uni-versos e horizontes.


Apresento-vos, ao contrário, um homem que carrega nas costas os sacos de hipocrisias, farsas, falsidades, aparências pela vida a fora, de modo racional e consciente, sentindo-me lisonjeado e orgulhoso por meus instintos estarem adormecidos, recebendo aplausos unânimes de todos os homens, enfim sou do rebanho.


As maneiras mais nobres, finas – características, aliás, em absoluto difíceis de serem encontradas e reconhecidas em nosso mundo – têm um tom conveniente e colorido, o que agrada sobremodo aos olhos, à sensibilidade, causando satisfação e prazer à alma e espírito, e, embora demonstrem, de quando em vez, os sensíveis efeitos que podem exercer sobre os homens, indivíduos, encontram um sem-número de ocasiões para amenizar e temperar as situações e circunstâncias através de atos de delicado assentimento e condescendência, embora estes termos sejam sinônimos, mas o desejo explícito é de enfatizar bem a idéia.
Bem não sei esclarecer se a questão era timidez, acanhamento, se em verdade tinha era medo de não ser aceite com duras palavras de reprovação, mas havia sim em mim uma necessidade de sanção e endosso de alguns, quem pensava eu podia sim e com conhecimentos avaliar, havia necessidade de que alguém confirmasse os aplausos que ouvia vez por outra de íntimos.


Desde o início, por ser pobre, da periferia, barraco no centro de favela, naqueles “tempos idos” início de “boca-de-fumo”, em cujo chão de terra pisei, troquei passos, saindo ou retornando à casa, na adolescência, já nestas condições, traficantes por todos os cantos, vendendo e usando as drogas, compreendi, não sem sofrimentos e dores, se quisesse sobreviver, teria de fazer o jogo dos ratos, teria de me entregar mesmos aos princípios da farsa, unir-me aos poderosos, elogiar-lhes as façanhas políticas, econômicas, aplaudir-lhes os interesses escusos, sair nas “colunas sociais” acompanhado de grandes personalidades do métier intelectual, artístico, cientifico. A sobrevivência é para quem pensa pequeno, e quem pensa pequeno é verme; desejava viver, desejava pensar como eu, desejava a luz do sol incidindo sobre a minha cabeça, sobre a calvície; as hipocrisias seriam escrutínios de ilusões e quimeras de perfeição e divinidade, consciente delas haveria modo e estilo de superá-las, suprassumi-las.


Com efeito, nada teve até o presente uma força de persuasão mais simples que o erro do ser, como foi formulado pelos eleatas, pois tem em favor dela cada palavra, cada frase que pronuncia! – Até os próprios adversários dos eleatas sucumbiram à sedução de seu conceito do ser: Demócrito, entre outros, quando inventou seu átomo. A “razão” na linguagem: ah! que velha senhora enganadora! Temo que nunca nos libertaremos da hipocrisia da razão, razão hipócrita, hipocrisia racional, porquanto ainda acredito no paradoxo da contradição: “A vida começa onde termina os sonhos, fantasias, quimeras, ilusões”.


Surgem dúvidas e desconfianças de que estou sendo desumanamente equivocado e seduzido por falsos pensamentos acerca de vossos instintos, instintos que ufanizo e convido aos homens a pensarem, meditarem, refletirem, assimilando-os à medida do possível; instintos que não se adaptariam à nossa realidade moderna, voltada com exclusividade para os néscios valores. Seria perjúrio à moral que tão sincera e cuidadosamente os homens construíram na existência.


Surge alguém com umas idéias ultrapassadas e esquisitas, e, de repente, está enfiando uma faca na vida particular e intima de todos os homens. Muito esquisito isto de alguém conseguir assim entrar na vida , e até de improviso, sem mandar correspondência qualquer – já pensastes alguém enviando correspondência com os seguintes dizeres: “Vou-lhe enfiar a faca” -, noticiando sua conduta e postura diante de valores que não se colocam sobre a mesa nem da sala de estar à vista para todos provarem de suas delícias e venenos; valores, caríssimos pangarés, não são coisas que se colocam sobre a mesa senão na hora do jogo de interesses e quimeras espúrios.


Se fosse incomodar-me com tais palavras indecorosas e com interpretações que se edificam ao longo dos dedos de prosa nalguma taberna de estrada, chão de terra, não teria sossego, pois que algo não posso deixar de citar para esclarecimento mais sutil e enganoso, apresentando duas faces nítidas aos olhos de quem não deseja ver o que quer seja, e nenhuma verdadeira, se se observar pouco mais a fundo.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005


(#RIODEJANEIRO#, 05 DE SETEMBRO DE 2018)


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