#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE



CAPÍTULO XI - BAGAS DE INFIÉIS E IMBECIS - PARTE III


Vamos deixar o rabo abaixado mesmo, típico aqueles dos pangarés preguiçosos e sonolentos, devendo compreender alguns, pois que senilidade também é reservada à raça, os pangarés velhos só vivem de rabos abaixados, se estivessem na igreja rezando, orando por misericórdia pelas pangarices capitais e eternas, pelas pangarelices cotidianas, pelas pangaredices contínuas, ninguém iria observar a causa de por baixo do banco, já estavam ali fazia muito, esquecidas de quaisquer observações humanas ou pangaréticas, tem de saber mesmo brincar com as palavras e os sentidos espúrios e escusos para assim se expressar, e é isto que muitos dos presentes em outros nossos encontros fizeram a gentileza de reconhecer e considerar esta dimensão de minhas idéias e pensamentos, de me dirigir a todos, embora as críticas, os ácidos críticos, observa-se que apresentam os discursos outras possibilidades de considerar as coisas, o que mais eu diria ser essencial ao homem de todos as horas, de todos os tempos, aí não importando mais quais as considerações que se deve tecer para considerar os valores destes pangarés, alguns humanos que também estiveram aqui presentes, ouvindo, disseram-me, após minhas apresentações, que muito admiravam a minha capacidade de deixar as coisas irem acontecendo, registrando apenas o que os pensamentos e idéias, desculpai-me, no modo de estilo de se fazerem compreendidos e entendidos, tratando de modo fino, com certas finesses alguns temas que ajudam bastante a compreender o que mesmo estou desejando dizer com todas estas pangarelices, diálogo e linguagem que criei para não vos deixar entediados, relinchando por aí que nada fiz senão mostrar grandes agilidades e habilidades com as letras, faço-as curvarem diante de mim, só mesmo à luz de analfa é possível isto imaginar, viver e vivenciar na realidade das coisas e dos objetos, e nunca compreender a lista de sofrimentos e dores que nos perpassam todas as dimensões sensíveis, não importando mais em que nível estão sendo consideradas as coisas, se aos olhares e visões dos humanos, se aos olhares e instintos dos jegues, pangarés, mulas...


Senhores, não estou mesmo passando bem. Empolguei-me. Peço-vos a compreensão de meu afastamento por alguns minutos, talvez retorne, talvez não, mas a continuidade será respeitada com todos os ouvidos atentos, jamais poderia haver outro discurso tão empolgante e rico nos seus detalhes.
Ah, sim, deixe-me incrementar um poucochinho mais, enfatizando algo que sobremodo me incomoda em residência de pessoas. Há sempre na sala de visita uma estante de livros, alguns dificílimos de serem adquiridos, algo assim de cair o queixo às vezes. Contudo, percebe-se que não foram lidos. Não há uma única indicação. São ornamentos, não são cultura. Imagine-se O Capital, Karl Marx em casa de um casal de analfabetos. Parece exagero, mas isto não inviabiliza encontrar. Encontrei-o. Várias casas de aluguel, o proprietário, pedreiro. Tinham boas condições financeiras. Trataram logo de ornamentar a casa com livros de autores filosóficos, psicanalíticos, literários. Jamais serão lidos.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)


(#RIODEJANEIRO#, 06 DE SETEMBRO DE 2018)


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