#SENÁCULO DE PANGARÉS# - II TOMO #UTOPIA DO ASNO NO SERTÃO MINEIRO# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: ROMANCE
CAPÍTULO VIII - CREPÚSCULO DE
PRIMEVAS PAIXÕES - PARTE I
A única solidão que se pode crer
nela, que realmente existe, deixando a língua inerte dentro da boca, a secura
nos lábios, o silêncio na garganta, é quando a arte de traduzir os sonhos se
torna por inteiro algo o mais insípido, o mais impossível de combinar as
imaginações e as utopias, as lágrimas fáceis e as sinceridades silenciosas,
quando não as dignidades patéticas. Noutras palavra, o único silêncio em que
podemos depositar nossas esperanças de dizer-nos a verdade, verdade em que
podemos acreditar, a solidão nos habitando, sentindo-nos glorificados com ela,
somos nós mesmos, é quando as palavras comungam as esperanças e a fé em ritmos
inimagináveis, e se lhe entregamos por inteiro, corpo, alma e espírito, as
felicidades e as dignidades falantes, mostram-se, de-monstram-se em atitudes e
gestos os mais variados possíveis, anunciam-se, escondem-se nas dobras de
outros tempos e outroras...
Sem intenção mais profunda, inicia-se
nos mistérios da paixão uma alma ainda virgem, nova, inocente, ingênua, dando
ao coração alguma coisa da volúpia da inveja e da voluptuosidade do egoísmo. É
verdade, há ocasiões em que me parece que uma enorme tristeza irá tomar-me por
inteiro, e nestes momentos a preocupação fundamental é prestar atenção a todas
as suas revelações e manifestações de aparição, cuidando de saber e conhecer o
sentido misterioso e esquisito que irá estabelecer no íntimo, e daí a quase
nada penso justamente o contrário, o inverso; penso que vou receber uma notícia
das mais prazerosas e que ela irá tornar-me o homem mais feliz do mundo, e fico
alegre como um pintassilgo, quando, logo pela manhã, não importando ser
inverno, primavera ou outono, entoa o seu canto maravilhoso. Coisas de um homem
que, em primitiva instância, está conhecendo a sua primeva paixão.
A pessoa que hoje escolhe é a que
ontem escolheria, se fosse caso de escolher na total correlação que para a
escolha de hoje se estabelece. Assim a pessoa que hoje escolhe é a que já
escolheu ontem na escolha que de si fez e de tal modo que a pessoa que vem
desse ontem, quando chegada à de hoje, teria de escolher o que escolheu. A
pessoa que hoje escolhe não é uma criação de hoje, mas de ontem. Assim, o que
ela se criou nesse ontem é o que hoje está em face de uma nova escolha para
escolher como quem é. A pessoa que hoje escolhe é a que ontem se escolheu, de
tal modo que hoje escolhe o que escolheu. A diferença entre o escolher de hoje
e o de ontem é a diferença entre a complexa estrutura daquilo frente ao qual
há-de escolher e daquilo frente ao qual escolheu. A pessoa que hoje diz “não”
àquilo a que dizia “sim” é a pessoa que quando disse “sim” se escolheu como
pessoa que um dia diria “não”.
Desculpai-me, se me sinto confuso e
perdido, não sabendo distinguir a cara da coroa, as duas faces de única moeda, isto
mesmo na interpretação de que para cada pessoa, o lado será diferente aos seus
olhares de linces, as absolutas manifestações sensíveis de juízo e sanidade
consciente e inconsciente, ou seja, não consigo saber se o que estarei dizendo
em breves instantes já o disse, ou se vou dizê-lo, o que me importa é que seja
considerado por vós profunda, no vosso imaginário e poder, talento e dom
daquelas que ides direto, qual a flechinha do cupido, no coração dos homens
duros e secos, fazendo-vos cair o queixo e babarem no babador, dependurado no
pescoço, o amor, com que vós modificareis para sempre a vida, a alma e o
espírito. Não sei mesmo dizer se já vos dissestes, se é primeiro momento que
isso me vem ao espírito e aos sentimentos, o amor que nesta situação posso vos
apresentar de porque e em que sentido em tudo o que digo, seja nestas ou
naquelas circunstâncias, diante destas ou daquelas situações. Não mais
importemos com isso, passaria o resto da vida nesta lengalenga, nessa conversa
para pangaré dormir o sono dos instintivos coices.
Dissera-vos, anteriormente, a
decência impedia-me de vos dizer o que vos diferenciais de nós, vice-versa,
óbvio que por medo de ser tão incompreendido que fosse condenado ao afastamento
radical do convívio humano, a viver sozinho no meu canto, espremendo os miolos,
a saber se vai pingar alguma seriedade nos pensamentos e idéias, destrinçando
as idéias e pensamentos mais cabeludos e escalafobéticos inimagináveis sem
chance alguma de um término a contento, sem possibilidade de lhes compreender a
fundo, e o mais importante ainda: de poder-lhes transmitir não só a vós, que
tenho consciência absoluta de entender-me com primor, de elogiar-me as façanhas
e arrebiques com as letras, de reconhecer-me os valores e virtudes, mas aos
humanos que só sabem apresentar perguntas imbecis e indecorosas, na linguagem
dos homens, merecendo res-postas mais imbecis ainda, a sensibilidade do
silêncio, o que digo?, o silêncio em si mesmo pode compreender o que elas são
para o conhecimento de nossa alma pecadora e eternamente sem salvação para ela,
considerando as idéias e pensamentos de nossa época, de nosso século, o início
de um novo século e milênio; sem possibilidade de vos compreender, como por
exemplo “o que vós quereis dizer com tais palavras”, esquecendo-vos de nelas
meditar ou refletir, re-colhendo-as e a-colhendo-as, beneficiando-vos com as
respostas que adquirireis ao longo do tempo, crescendo, amadurecendo,
espiritualizando-se, chegando a dizer: “nada mais profundo que a vida, quando
dela temos conhecimento; nada mais divino, quando mergulhamos em nós mesmos e
descobrimos nossa essência”.
Aliás, como algum de vós num outro
discurso chegara a mim, após minha apresentação, a leitura de meu discurso,
numa linguagem jornalística, o editorial, dizendo-me que muito se admirava com
a minha sensibilidade humana e pangarética, nenhum homem será capaz de
imitar-me, de plagiar-me, correndo o risco, se o fizer, de passar por um grande
imbecil, o maior que a humanidade já teve, como Van Gogh é considerado o mais
esquizofrênico homem de todos os tempos da humanidade e da capacidade de
análise e interpretação. Agradeci-lhe tão profunda compreensão de meu universo,
a comunhão dos instintos e da razão em busca do paraíso perdido, das sendas
esquecidas, da ternura e simplicidade de uma música de Alan Jackson, Living on
Love, que amo, sou apaixonado por ela, e foi ao som desta música que vos estou
escrevendo este diário de um homem-pangarético, como costumo definir, o que os
amigos e íntimos pedem para tomar cuidado, qualquer dia desse me torno um jegue
em todos os sentidos e imaginações, poderes do imaginário. Recomendo-vos
procuráreis ouvir tal canção e pensáreis nas minhas palavras, nestas idéias e
pensamentos ad-versos, o in-verso de invernos jejuns, se é que vós podeis
compreender-me e entender-me.
Orgulho-me de paixão com essa
comunhão divina que se operou no meu espírito, desde que pela janela de minha
residência vi e contemplei o jegue que puxava a carroça com latas de leite.
Desde então, sempre desejei conhecer a fundo os instintos “jeguéticos”. Mas
este pangaré que se aproximou com palavras tão sábias, elogiando-me as tintas,
chegara a dizer que imaginava uma professora na idade da razão lecionando para
escolas particulares em todos os níveis, até ao superior, analisando os meus
discursos, torcendo o rabo ao contrário, quais certos porcos, as cretinices a
que chegam a conclusão, só mesmo pangarés para compreender com perfeição,
merecia sim o Pantheon dos deuses pangaréticos. “E vos digo isto, Janiscroque
Serafim dos Anjos, sentindo-me orgulhoso por vos reconhecer os méritos”. Não
lhe arranquei a ponta da língua por extrema solidariedade que se me revelou no
momento, entendi que estivesse troçando de meus conhecimentos.
A reação instintiva aqui encontra
seus fundamentos e raízes de lídima confiança, pois que o meu nome sempre fora
motivo de troça das pessoas, as crianças gritavam pelas ruas da cidade, tiravam
sarro de mim, e por isso não conseguia tirar notas boas, aprender as coisas com
facilidade, ainda mais para os sabichões, professores, artistas, escritores,
dizendo-me que o nome significa João-Ninguém, noutros termos, um homem sem
quaisquer valores sensíveis, instintivos, inútil. Admiravam-se muito que o
cartório tenha tido a coragem de registrar esse nome, deveriam ter orientado os
meus pais.
Tendo de dizer-lhes que o fizeram
sim, disseram-lhes o que meu nome significava, mas o meu pai bateu o pé, era o
nome de seu filho, fora uma promessa que fizera para eu ao menos ter alguma
inteligência, pelo menos fora a primeira coisa que a enfermeira dissera, está
nascendo um homem de grande inteligência....
Sim, senhores, estou-vos a elogiar
com toda a sensibilidade e subjetividade de meu coração, não podendo dizer do
corpo porque a diferença dos nossos é imensa, a começar por sermos os homens
bípedes e vós, quadrúpedes, por terminar que nós os humanos não temos rabo,
tínhamos, disseram-me alguns cientistas do ramo, não podendo torcer-lhes a bel
prazer. Deixemos os porcos, centremo-nos nos pangarés, que é todo o propósito
nesta tribuna deste egrégio senáculo de pangarés. Nem da alma porque a nossa é
habitada de sofrimentos, dores, dúvidas as mais atrozes até mesmo da existência
de Deus.
Pergunto-vos com todo respeito
“tendes alma”, desculpai-me, mas desde que me entendo como homem-pangarético,
desde a idade de três anos e oito meses, ouço dizer que os pangarés só têm
instintos e os mais primitivos, dizendo alguns serem da idade da pedra lascada.
Sobre de quem ouvira isto, ouviu do outro com quem trocava dedos de prosa, a
diferença entre ele e os pangarés não era muito, a dele, da pedra polida, só
algum tempo depois.
Bem, deixemos os pormenores de lado,
entremos nas questões primordiais, não podemos perder o pique, temos de manter
o nível de diálogo e conversa... Para a boa acolhida das idéias, para serem bem
mastigadas e engolidas, o estômago as receba com satisfação, os preâmbulos são
fundamentais, esclarecem as intenções divinas e escusas, nisto os artífices das
palavras são em demasia incompetentes, confundem preâmbulos com
“conversas-para-jegue-ouvir”.
Nas minhas idas a São Paulo, capital,
tive oportunidade de almoçar nalguns restaurantes da famosa rua Augusta, e as
entradas eram com efeito deliciosas. Mas neste propósito, quando fora pela
primeira vez a São Paulo, quando cheguei à loja especializada nos vasos
sanitários, a atendente fora logo dizendo: “você é mineiro”, o que me deixara
irritado porque vislumbrei um deboche nas suas palavras. Conhecem-nos os
paulistanos, é o nosso jeito.
Aliás, senhores, esquecia-me
continuar a debulhar o terço da conversa que tivera com alguém de vocês, sobre
quem venho mencionando nos últimos tempos de minha linguagem e estilo, já sob o
som de outra música, que me deixa extasiado; aí quanto aos instintos pangaréticos,
chegara a dizer que todas as minhas palavras são para jegue acordar e olhar os
ipês roxos e amarelos floridos, terem a esperança do instinto absoluto,
sublime, supremo e eterno, daqueles que imortalizam, e para que isto seja
realizado mesmo só com o evento do recebimento do Prêmio Nobel concedido pela
Academia Sueca, sendo-vos sincero e digno, não retiro vírgula sequer, aliás,
cuido sempre delas com muito apreço. Não há um só instante que a vossa
instintividade não esteja voltada para a eternidade como os homens, alguns,
devendo considerar que já nasceram póstumos, e esta postumidade sempre fora
conflito, dores, sofrimentos, misturados a êxtases inomináveis, indescritíveis
a luz de quaisquer razões e credos.
Admirava-se bastante com a minha
habilidade de ler os beiços dos pangarés, saber com perfeição traduzir-lhes os
instintos em palavras, já que não podia falar, este dom da palavra não recebera
gratuitamente de Deus. Traduzi-lhe o que me revelava nos beiços, a língua às
vezes para fora, as narinas ofegantes, os dentes, o que queria passar-me. Se
fosse um homem, as coisas seriam bem diferentes, entenderia isto como
oportunismo, aproveitar de meus talentos e dons para se beneficiar, satisfazer
o ego, na realidade não entendera qualquer coisa do que estou a vos dizer. Há
aqueles que ainda têm a pachorra de dizer que jamais conseguirei escrever
outros discursos como estes, tudo o que escrever daqui para frente não terá
tanta profundidade, isto porque tem algum medo de meus discursos ultrapassarem
as suas obras em todos os sentidos, a posteridade irá isto reconhecer. Há
tantos que nem importa descrever os restantes.
Manoel Ferreira Neto
(JUNHO DE 2005)
(#RIODEJANEIRO#, 05 DE SETEMBRO DE
2018)

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