**SÍNTESE DO MISTÉRIO** - Manoel Ferreira
Sou a jabuticaba que toda boca morde e cospe fora as sementes. Sou a
água que todos bebem, saciando-lhes a sede. Sou o solo onde todos os pés
trilham seus caminhos. Sou a tempestade forte que deixa a cidade sem energia
elétrica. Sou abstenção de teorias e conceitos, estou no mundo.
Sou música romântica que arfa o peito de saudade do ente amado. Saudade
é dor que dói, é lágrima que fere. Saudade é lâmina que corta, é sal que salga.
Saudade é vida... sem ela não existe vida... é morte. Saudade dos benditos e
dos sábios, tema de poetas e razão dos alcoólatras, resignação dos que se recolhem
no tempo, dos que se prostram no altar dos templos.
Sou eu quem ilumina o jardim e concebe o brilho mágico no olhar que come
a beleza das flores ali plantadas e regadas em todos os alvoreceres. De minhas
entranhas, sem linguísticas e semânticas, partem as magias para onde nascem os
murmúrios, sussurros, lamentos, gemidos.
Sou homem como síntese do mistério; sou homem, nada mais do que homem. O
homem é bendito, porque é ceus; é maldito, porque a alma insensata lhe é
feitio; miserável porte dos viventes, veste a manta do mendigo; intolerável
pedaço de luz dos anos, alimenta-se de hóstia. O homem é a síntese, viva, do
sopro da fé, que se con-verte em carne. Esmaece, nos seus dias vividos, a tenra
ignorância do mistério do infinito.
Nada de fantasia. Tudo real. A realidade é dura. Os caminhos são duros,
secos e sem fim.
Sentinela do espaço é o homem. Confidencia-se no confessionário dos
pedintes, acalentando-se no colo da absolvição. É intolerável guerreiro de si
mesmo, presa fácil da escravidão.
Ao toque mágico da música, ritma melodia de sofrimentos com acordes de
quimeras, é poeta dos ares, mas morre angustiado, entristecido, na espuma dos
mares mansos. O homem, este ser amado e louco, perde-se de amor na toca da
angústia.
Manoel Ferreira Neto.
(05 de março de 2016)

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