**FÉRIAS DAS LETRAS** - Manoel Ferreira
A lei é nada escrever hoje, nem mesmo
única palavra, única letra. Quê se faça cumprida diante da Constituição!
Verdade é que alvoreci nesta manhã sem inspiração alguma, todavia quem disse
que necessito dela? Faço inspiração da ausência de inspiraçao. Quê não me falte
a iluminação! - aí o nó é górdio, de pés e mãos atados. Não tenho a perspicácia
e a sensibilidade de fazer da ausência de iluminação iluminação. Não escrevo
nada.
As letras também precisam de
descanso, férias. Precisam passear, fazerem uma viagem para se encontrarem e se
divertirem com os ditos, inter-ditos, com as metáforas, signos, símbolos,
semânticas, linguísticas, trocarem dedos de prosa, numa pracinha pública,
assistindo à passagem dos transeuntes, entrando e saindo de ruas, alamedas, avenidas,
sentados numa tora de madeira à soleira do portão da casa, con-templando
estrelas e a lua, aquele diálogo divertido, gostoso, aquela leveza de papo, de
causos. Quem disse que as letras não tem seus causos? Tem sim. Não são causos
do autor quando está criando a obra com elas.
Será um dia interessantíssimo:
passá-lo sozinho, sem as letras. São as companheiras nas poerias das estradas,
nos campos silvestres, na biblioteca, perambulando pela cidade, tomando uma
cerveja no botequim. Nada bebem, não tem esse vício, mas me respeitam. Relação
sincera, verdadeira, eivada de amor e carinho. Jamais tivemos qualquer
quiproquo, qualquer insatisfação, não ficamos alguns minutos de "rabo
azedo" um com o outro, e sempre estamos sorrindo, brincando, divertindo-nos.
Na hora de dormir, é que o "bicho" pega, é preciso lugar para todas
na cama, durmo rodeado de palavras. O "f" e as suas filosofias é que
me incomodam. Quer porque quer dormir no meu peito, bem aconchegado no meu
coração, ouvindo-lhe as pulsações. O "l" vocifera porque é o lugar
dele com as suas literaturas, trocam amenidades, e lá vai o "l"
dormir no meu ventre, cedendo lugar ao "f". O "p" com os
seus versos e estrofes poéticos é que incomoda mais, gosta de escarapachar-se
nas minhas costas. Gosto de dormir de barriga para cima e tenho de dormir de
lado para atender aos caprichos do "f", do "l" e do
"p". Todas as outras letras dormem tranquilas e serenas, sono
profundo. O "n", o "v" e o "e" acordam de duas em
duas horas, vão para o alpendre de nossa residência para se embeberem das
cintilâncias e brilhos da lua, são extremamente românticos. Não demoram muito.
Voltam para a cama. O problema é quando sou quem necessita de satisfazer
necessidade biológica, há letras que caem da cama e começam a resmungar. A noite,
o sono são maravilhosos com as letras todas na cama. Pela manhã, quando
acordamos, todas dizem em uníssono: "Bom dia! O que há para hoje?".
Saímos todos juntos para eu comprar pão, cigarros, leite. As pessoas olham de
soslaio, de banda, de esguelha para mim acompanhado de tantas letras. Fazemos
os nossos projetos, expomos mutuamente os sonhos, as utopias, as esperanças. O
"v", o "e", o "n", o "l", o
"p" e o "f" ficam eufóricos, extremamente tomados de si, e
todas as outras dizem: "Aquietem o facho! Tudo será possível! Vocês vão
realizar o dia de vocês." Tomo o meu café. As letras sentadas na mesa, em
todos os cantos da cozinha, observando-me. O "s" gosta bastante de
contar piadas de salão com todo o seu arzinho sarcástico, ele é o sarcasmo irreversível,
implacável, nada lhe escapa. Todas as letras riem, gargalham e dizem:
"Quem dera eu ser possuidora deste talento e dom, S." E ele responde
de seu modo carinhoso, afetuoso: "Todas vocês têm os seus dons e talentos,
cada uma de vocês cumprem a tarefa com perfeição".
Terminado o café da manhã, hora de
sentar-me à cadeira, iniciar o meu dia. Todas as letras ao meu lado, por todos
os cantos da biblioteca. E passamos o dia juntos, alegres e satisfeitos.
Mas hoje estou sozinho. Dei férias às
letras. Já arrumaram as mochilas e partiram para o encontro com os amigos.
Deixei algumas lágrimas descerem-me a face na hora da despedida. Abraçaram-me,
beijaram-me. "Queremos que você fique bem. Não vamos demorar muito. Logo
voltaremos e continuaremos nossas vidas juntos. Quando voltarmos, vamos
surpreendê-lo com outras novidades. Fique bem".
Manoel Ferreira Neto.
(02 de março de 2016)

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