**ALBERTO CAIEIRO E EU** - Manoel Ferreira
Quando conheci Alberto Caeiro, aos dezesse anos, nas aulas de Literatura
no Curso de Magistério, Instituto Santo Antônio/Curvelo, com a professora Vilma
Simões, apaixonei-me de paixão des-enfreada, alucinada.
Há um verso num poema dele "O universo não é uma idéia minha",
verso que custou à professora meia hora após o término das aulas, na sala dos
professores, para me explicar o que Alberto Caeiro queria dizer com o universo
não é idéia dele.
Ao longo da vida, vamos acumulando paixões literárias, poéticas,
filosóficas. Na época da faculdade, a paixão literária era outro heterônimo de
Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, muito embora já houvesse sentido grande
atraçao por ele nas aulas de Vilma Simões. Escrevi uma análise de A TABACARIA
para um trabalho de Literatura Portuguesa, o professor carregou este ensaio,
prometendo devolver-mo, nunca mais o vi - não tinha cópia.
O mais interessante da vida são os sonhos. Desde a adolescência, queria
viver a simplicidade da vida, a vida como práxis. Ficcionei aqui, imaginei ali,
fantasiei acolá. E sempre o questionamento: "O que é isto - práxis da
vida?". Compreender já havia compreendido, entender era a questão. Só na
vida, ao longo dela.
Passaram-se quarenta e três anos para que sentisse íntimo o que é isto -
viver a vida como práxis, alfim hoje estou entendendo isto profundamente,
É tudo sim o que quero: viver a vida como práxis, viver a simplicidade
da vida. **LIRISMO PUNGENTE** nasceu de uma lembrança: Adriana no Natal do ano
passado esteve em Curvelo e, fazendo o almoço, perguntou-me: "Agora que
você vai fazer 60(sessenta) anos, o que deseja da vida?" Respondi-lhe que
nesta idade começam as grandes re-flexões, as ansiedades da realização dos
sonhos passaram, desejava viver simplesmente. Era até muito interessante a sua
pergunta porque o sonho da realização das letras estava acontecendo à soleira
dos sessenta anos. E viver simplesmente significava sentir a vida na sua
simplicidade, e para isto mister mergulhar mais fundo ainda em mim, saber-me as
profundidades e profundezas.
No comentário da Mestra e Amiga Rita Helena Neves dissera ela que o
texto remeteu-lhe a Alberto Caieiro, é a filosofia dele: viver a vida como
práxis. No momento da pergunta de Adriana, estava eu folheando OS SIMPLES, de
Guerra Junqueiro.
Estava descansando um pouco, deitado. Levantei-me da cama e compus o
texto, pensando naquela famosa pergunta que às crianças é feita: "O que
quer ser, quando crescer?" Já cresci, quero a vida na plenitude da
simplicidade, mesmo sendo a vida de escritor hermética e complicada.
Nem me lembrei de Alberto Caieiro, de minha paixão apaixonada por ele.
Aí está uma das obrigações do crítico: fazer o escritor remeter-se ao
Inconsciente, à Memória, trazer-lhes à luz. A crítica literária Rita Helena
Neves tem este grande poder, suas análises penetram-me profundo.
Alberto Caieiro sempre fora a paixão dos heterônimos de Fernando Pessoa.
Há a paixão também por Álvaro de Campos, mas esta é do tempo das
intelectualidades, dos desejos intelectuais. Álvaro de Campos era o sonho da
vida, viver a vida. Aquilo mesmo de "Como é que quero viver a minha
vida?", que todo adolescente faz.
Manoel Ferreira Neto.
(04 de março de 2016)

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