**NADA OBTUSO - REVISADO** - Manoel Ferreira
Nada...
Essa palavra sempre - quê á -gonia! Coloque-se á-gonia para se sentir
profundo o que é ela sempre. Começar uma obra com ela em evidência, primeiro
parágrafo é colocar-me em situação desagradável: "Sera que este escritor
não conhece outra palavra?! Mude a faixa do disco de vinil!"
Com certeza é incólume verdade. Enchafurdei-me no nada, não saio dele
nem a troco de pauladas, machadadas, pedradas. O nada tornou-se cobertor,
coberta, travesseiro, durmo aconchegado no nada. Isso quando não me acorda
altas horas da manhã para registrá-lo.
Mas quem disse o sentido dela seja igual a todos os outros que já
apresentei? Aquela surrada história desde Lourenço, aquele do
"cerca-lourenço" dos paulistas e paulistanos que significa
simplesmente "dar uma dura"; antes do louco passar na rua já se lhe
joga pedras; quando ele passa, pedras não mais existem a serem jogadas, o louco
começa a atirá-las à revelia. Contudo...
Estou-me nas tintas para as metáforas do nada que perenizam o obtuso
absoluto; assim sendo laureado por quem sente sarnas e comichões por se livrar
das angústias e solidões. Amiga já disse que para se sentir bem, para não estar
diante das violências e agressões da sociedade, ela procura ler a minha obra.
Se o nada obtusa o absoluto, está justificada a vida-para a morte, deita-se no
berço esplendido e glorifica a farinha do saco, joga-se-lhe outras farinhas e
prolonga-se por fraqueza. A fraqueza é o eidos do etéreo eterno, é o cerne do
eterno efêmero, é o núcleo do diamante que risca o inaudito do sempre-nunca. Vou
hoje andar de ponta-cabeça com o nada na sola dos pés à luz dos universos e
horizontes, confins e aléns. Quem sabe o nada assim se alimente até se fartar
dos raios de sol e vá se refestelar, fazer a sesta nas frestas do vazio. Só lhe
desejo que não se nauseie com as sombras, penumbras, brumas do ininteligível.
Escrevi esta obra faz um ano - está mais viva ainda. Engatinhou,
arrastou-se pelo chão, na hora dos primeiros passos, caiu e machucou-se, mas
agora está caminhando alegre e saltitante. Hoje, dei férias às palavras, foram
passear, divertirem-se. O nada nem parece ter um ano de vida neste texto,
parece estar com os seus dez anos, tais são as suas perpicácias, ironias e
cinismos, até sarcástico(coisa que nunca foi).
Pouco, muito pouco, nada mesmo, me estou para o nada das esperanças e
sonhos que origina a saltitância da alma entregue às polkas dos prazeres
idílicos do eterno-sempre, nutrindo-se da cintilância das estrelas,
perscrutando o deserto lúdico das melancolias do tempo do onça, dançando o zagaia
das melancolias, nostalgias e saudades... Meu Deus como o nada é ridículo, o
perfeito imbecil. mas o imbecil que não é ridículo ironiza o tocó de seu rabo e
o ridículo que não é imbecil cinisma as orelhas que se abanam sem quaisquer
ventos. Todavia o nada continua na cena do picadeiro, inutilizando as
performances da arte do riso e da gargalhada livre e solta, ao deus-dará das
nad-itudes. Aqui e acolá nos horizontes do universo do nada pomposo e egrégio,
o gesto de mim é a banana da mão e do antebraço aos pálidos ocasos que refletem
nos epitáfios das tumbas, do jamais-eterno, a evidência trans-lúcida e
trans-parente das cinzas que se tornarão des-verbos do imaculado, insurrecto,
herege.
Estou-me ileso frente a todas as gerações que esperam a sombra brilhar no
in-terdito de todas as penumbras dos aquéns e aléns das numbras do insólito.
Vou dormir de banda, lado esquerdo ou direito, decidi-me inda não, olho aberto,
outro não, para sensualizar o nada do nada, fazer-lhe gozar sob o espectro da
lua romântica que esplende seu brilho na lagoa da eter-itude. Assim chamega a
crepitude das ilusões, quimeras e idílios.
Surrealista do nada? Não. Surrealismo ao nada, no sentido de
"abaixo o nada", desde que o"sur" do realismo identifique o
nada na imagem refletida do obtuso.
Manoel Ferreira Neto.
(02 de março de 2016)

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