COMENTÁRIO DA MESTRA E AMIGA RITA HELENA NEVES AO TEXTO "LIRISMO PUNGENTE"
LIRISMO
PUNGENTE
Manoel
Ferreira
E
no jogo do contrário, o poeta quer viver a vida na plenitude da simplicidade.
Remeteu-me a
Alberto
Caeiro: viver a vida como práxis!
Que
maravilha, Manoel Ferreira Neto!
Rita
Helena Neves.
**LIRISMO
PUNGENTE**
Não
quero alcançar a perfeição: a perfeição é imperfeita de perfeições. Não quero
alcançar a verdade: a verdade não é verdadeira de/nas verdades. Não quero
alcançar o céu: no céu não há labirintos, cavernas de estalactites, terrenos
baldios. Não quero alcançar o inferno: não vou penas nas chamar ardentes, lá
não há fogo. Não quero alcançar o uni-verso: o uni-verso é longínquo. Não quero
alcançar o sublime: as sublim-itudes do sublime nas suas sublim-idades não são
sublimes.
Não
quero compor um soneto de versos metrificados: não tenho fita métrica para
medi-los. Não quero sentar-me à soleira da porta, con-templar as estrelas e a
lua: estou deitado, olhando para o teto, só letrando o silêncio. Não quero um
amor que alegre o meu viver: quero um amor que des-faça as minhas alegrias,
faça-me triste, angustiado. Não quero sentir o sabor do vazio: quero beber o
nada em pequenos goles para sentir-lhe preenchendo as minhas ausências e forclusions.
Não quero ouvir lírica de música: quero recitar o som ritmando a melodia do
silêncio. Não quero rosas e feras sintéticas, elétricas guitarras, um solo
triste, sinfonia louca, lirismo pungente, demente da gente: quero ver o
cruzeiro do sul. Não quero a vigília da insônia: quero a insônia lucilando as
estesias e ex-tases, as estética do prazer sem limites. Não quero a morte
genesis da vida: quero a morte morrida de tanto morrer.
Não
quero rir de felicidade: quero a felicidade rindo de tanto sentir o prazer de
ser feliz. Não quero debulhar as contas do terço, rogando a redenção e
ressurreição: quero todos os pecados lucilando nos recônditos da alma. Não
quero alvorecer com os pássaros trinando no ipê amarelo: quero uma tempestade
daquelas anunciando o novo dia. Não quero o despetalar de "bem me quer/mal
me quer": quero a rosa no jardim, respingada de orvalho. Não quero a
poesia poetizando a poiésis do poema: quero simplesmente palavras sem
semânticas e linguísticas. Não quero cartas dizendo o meu destino: quero o
destino jogando as cartas aos naiples do eterno.
Não
quero mergulhar com volúpia e êxtase no mundo para in-vestigar a sua genesis:
quero tropeçar em pedras, quero a pedra do tropeço. Não quero saber quem pintou
o urubu de preto: quero o resto da tinta para engraxar a minha botinha. Não
quero o tudo que é nada: quero simplesmente o nada que é nada, o nada puro, sem
princípio e sem metafísica. Não quero fogo para acender o cigarro: quero o
cigarro no canto da boca apagado.
Manoel
Ferreira Neto.
(03
de março de 2016)

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