**NADICA DE NADA** - REVISITADO E AMPLIADO** - Manoel Ferreira


Engolir o nada inteiro, mesmo mastigando bem, é difícil: pode ficar atravessado na garganta e levar a egregíssima pessoa à morte, pode ser indigesto, causando indesejável diarréia, daquelas que é melhor ficar sentado no vaso o dia inteiro, gritando alguém: "Traz um gole de café para mim!" ou "Traz o meu suquinho de jenipapo". Então, como o nada é delicioso, só de falar nele a boca fica saturada, o aconselhável é comê-lo às nadicas, pedacitos pequeninos, sente-se-lhe o gostinho, um primor. Nadica de nada à passarinho com um aperitivo faz-se necessária a moderação. 
Não é só comestível o nada, a nadica de nada, serve a outros propósitos sutis e são mais que recomendáveis para a vida fresca e saudável.
Nadica de palavras para dizer o que se pensa e sente, não um resumo, não uma economia, não uma síntese, mas a essência, mais ou menos o "dizer na lata" dos paulistas e paulistanos. Palavras à nadica de nada frontalmente é pior que o sacratíssimo sapo seco na garganta por sempre, jamais se terá resposta, a nadica obstrui os neurônios, necrosa os miolos e o cidadão por toda a eternidade ficará con-templando ao leu do vazio a imbecilóidia. Deus me livre de palavras à nadica. 
Nadica de preconceitos, discriminações... Conforme forem eles a Lei bate com o martelo, ver-se-á o sol nascer quadrado, as estrelas convexas e côncavas. Mas preconceitos e discriminações à nadica, dose a dose, côdea a côdea, soma o absoluto da verdade, e nem Deus vai negar: de bago em bago enche-se o papo.
Nadica de preceitos morais e éticos: o bem não vence o mal, o mal não é vencido pelo bem, o eterno é a redenção das contingências, o efêmero é a ressurreição das náuseas e vazios, nossa, a vida no mundo e no além é a plenitude do tempo, de trigo em trigo, de joio em joio, a bestialidade dos conceitos e definições se fazem presentes, presentificam-se nas frestas do vazio das nadicas do nada, do nada de nadicas.
Nadica de valores eternos, do absoluto das verdades imortais, temperada com sal grosso, pimenta malagueta, se se quiser, pimenta do capeta, limão galego, desperta e alimenta os instintos do coice afiado para as hipocrisias e simulações, só a sombra delas, ainda que furtiva, já leva um tão, tão bem dado que atravessa todas as fronteiras do inferno, indo parar nas terras serenas do "PQP". Aconselha-se o temperado moderado porque as orelhas da pessoa podem ficar em pé, tempestade de vento não as abana mais.
Nadica de poemas de amor endereçados à amada, sem revelar o nome do remetente, acelera-lhe o coração, faz-lhe sentir aquele frenesi na libido, só lhe restando ler as obras de Apuleio ou as do satírico Manoel Ferreira, para o clímax perpétuo.
Nadica de solidariedade, com tempero à moda gaúcha de churrasco, de maledicências, farsas, dissimulações, é asseverar com garantia e segurança, depois do Juízo Final, frente ao eminentíssimo São Pedro, refestelar na sombra da Árvore Proibida, antes de ir para as prefundas do inferno, o paraíso celestial é apenas baldeação.
Nadica de taradice, temperada a molho pardo de frango ou galo velho, canela de perdiz de preferência, faz a vítima do estupro gozar de paixão e êxtase, a violência é fissura do capeta por estar no lugar do tarado. Aconselha-se ao tarado colocar meia xícara de açucar no molho pardo ou na canela de perdiz, caso contrásio jamais, em tempo algum, sua "coisinha" se erejerá... De tarado a viado o limite é ínfimo, num átimo de segundo a ruela gira.
Nadica de analfabetismo, daquela que conjuga o verbo Ser sempre no "era" deixa de ser imperfeita, torna-se perfeita, se o analfabeto entrega-se de corpo e alma a comer e degustar as salsinhas da estupidez, aquela que sintetiza o desejo incólume, insofismável da essência do nada da inteligência e sensibilidade e o absoluto das verdades.
Nadica de quem sou, de quem vive de mim e por mim, só no nada do efêmero, vazio, náusea do ser e não-ser, satisfazem o meu apetite do eterno, ressurreição, redenção, na contingência mesma estarei degustando o sabor das concuspicências da liberdade e do livre-arbítrio.


Manoel Ferreira Neto.
(05 de março de 2016)



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