**ÁGUA PURA DA REMINISCÊNCIA** - Manoel Ferreira


Lucilo vago iluminado, a rua escassa, rala e íngreme da humanidade, e a lucidez, transparência da perplexidade fura-me a pele, parecendo pua. Ladeiras insones que galgo aflito, ansioso, até temeroso, derramando essa luz mentirosa, esses raios imaginativos, criados e fantasiados – não chegam a ser sussurro, cochicho, murmúrio. A consciência é frágil rosa que agoniza cumprindo o velho rito sob os rios da aurora pressurosa, do crepúsculo esplendoroso, da noite sonhadora. Se no caldo escuro, viscoso da insônia, fluísse a água pura da reminiscência e eu molhasse a memória e a fronha com a mádida lembrança da inocência de meu passado, ah, limpo, nítido, em clara infância onde tudo era simples, tão transparência, tão nítido e nulo, não debatia ainda em rios de ânsia nem mergulhava no açude da vivência; mas em raso córrego carregava o riso, nadava tranqüilo, o mundo dava pé.
Lucilo disperso alumiado, a madrugada leniente, leniência que en-vela os abismáticos questionamentos do Ser, as náuseas do mundo que rola nas égides da hipocrisia, falsidade, farsa, que no terreno baldio de princípios edifica a ausência de caráter, de personalidade, dignidade e honra, o vazio pleno institui com louvor e glória, e a angústia, trans-parência da insatisfação, sentir-me perdido, sem cafundós, não sou deste mundo, atravessa-me a garganta, compondo o glorioso nó górdio.
Ruas e avenidas ornamentadas de palmeiras em que trilho passos comedidos, respiração contida, circunspecto, introspectivo, destituído de mim, indicando distância, longa distância para lugar algum, árvores nas calçadas, pensamentos sem quaisquer valores, inventados, ilusórios - não chegam a ser silêncio, solidão. A alma é carência, carência de visão de algum oásis no deserto onde se refugia na doce quimera do encontro com o espírito do verbo que lhe guiará pela areia, sob os raios de sol escaldante, noite fria, deixando seus rastros, a caminho do porto da verdade, ela que é trajeto e porto. Se na alcova silenciosa, solitária, pres-ent-ificada de minha insônia, brilhassem em todos os cantos idéias, reluzissem utopias e eu as re-colhesse, acolhesse, com elas criasse um tapete longo, tapete que conduzisse os carentes da verdade ao cimo da montanha de onde vislumbrar, con-templar o vale de orquídeas brancas, o uni-verso, o sol, a lua, as estrelas, a natureza, a terra, seguindo o trajeto possuídos de ideais os mais abissais. Ah, trans-parente, visível, em verdejante adolescência onde tudo era puro sonhar, a vida futural seriam alegrias, prazeres, êxtases, não perdia o sono alta madrugada, punha-me a pensar nas intempéries da con-ting-ência, nas dores e sofrimentos, nas tristezas, angústias, na insatisfação, no mundo não haver qualquer verdade, dormia tranquilo, sereno a noite inteira, e, pela manhã, alvorecendo-me, abria as janelas do quarto, deixava os raios de sol adentrarem, colocava um disco de vinil na eletrola, alto volume, ia tomar o banho matutino, cantando desafinado com o cantor, o café da manhã, tudo era tão simples, tão mágico. A vida dava pé, não corria qualquer perigo, ameaça de afogar-me nela.
Alvorece. Com que silêncio balbucio esta palavra. Abro a porta. O clima está ameno, o dia está nublado, ensimesmado. Vou-me embora para Catuíbira, a vida me chama. Acena-me. Sonhos? Não. A realidade de outras coisas.



Manoel Ferreira Neto.

(03 de março de 2016) 

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