**LEITORES!... SÓ TÊ-LOS PARA SABÊ-LOS** - Manoel Ferreira


Leitores!... - só tê-los para sabê-los. Dei hoje férias às palavras. Encontro-me sentado na minha cadeira, ouvindo músicas, o ventilador ligado, perscrutando o tempo que passa, vazio in totum, nada de idéias, nada de pensamentos, vazio de sentimentos, emoções. A vida sem letras não tem sentido algum, é ridícula, é insossa. Contudo, nada posso fazer. Não posso ir atrás delas. E isso é impossível, não sei em que lugar estão, em que sítio, em que retiro, em que fazenda, em que cidade, em que Estado estão. Os amigos estão sarapalhados por todos os cantos e recantos. não lhes deixarão de visitar, hoje lá, amanhã acolá, até passar um mês, é esperar que retornem, deem o arzinho da graça.
Não há um leitor que se digne a dizer-me com todo o carinho, amizade: "Estou aqui com você. As letras estão de férias, mas estou aqui. Não se sinta sozinho, abandonado, desconsolado." Ninguém mesmo. Ninguém me quer, ninguém me ama, estou jogado às traças. Sem letras, sem leitores, sem ninguém. As horas vão passando, passando, passando. Ouço músicas, amo músicas. Contudo, não é a mesma coisa sem as letras. Elas amam ouvirem música, dançarem, cantarem desafinadas, enquanto as registro nas linhas da folha de papel. Estou me sentindo péssimo hoje.
Leitores!... - só tê-los para sabê-los. Quem entende? Correm léguas de nostalgias, melancolias. Odeiam. Mas quando se diz respeito ao poeta versificar melancolias, nostalgias, leem, comem as palavras com feijão e angu, faltam comer o livro com salada de alface, pimentão e cebola, bastante vinagre. E se o poeta deixa um instante de melancolias, nostalgias, lá veem os leitores reclamando, estão com saudades delas. E hoje, estando as palavras de férias, não escrevo coisa alguma. E não há um leitor que vocifere: "Comunique-se com as palavras. Exija que voltem das férias. Não deveria ter-lhes dado férias. Os leitores é que sofremos. Precisamos delas, precisamos das nostalgias, melancolias, são elas o pão de cada dia." Ninguém. Leitores ingratos, desumanos. Nem uma palavrinha amiga. Pode deixar comigo... Vou lhes dar o troco, troco bem dado. Retornando de férias as palavras, vou instigar-lhes a descerem o sarrafo, a pua, o cacete nos leitores. Não vão ficar por menos esta ingratidão, essa desumanidade. Sozinho, vazio, e nem uma palavra de consolo.
Queria ver a reação dos leitores, quando bater com as dez e todas as outras mais! As palavras fenecem comigo. Não existirão mais nostalgias, melancolias como o pão de todos os dias, nada mais existirá. Dirão todos com a língua em riste: "Ai que saudades do poeta! Certa vez, dera ele férias às palavras, sentira-se só, desconsolado, abandonado, vazio..., e não lhe demos a mínima, nem uma palavra pronunciamos para consolá-lo. Agora está fazendo muita falta em nossas vidas".
Leitores!... - só tê-los para sabê-los.



Manoel Ferreira Neto.
(02 de março de 2016)


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