**MEDIDA DE TODA PAIXÃO** - Manoel Ferreira
Cada artista, não há duvidar, vive à busca de uma verdade que seja a
sua, deseja o verbo de seu ser. Se possuir autêntico talento - o verbo da
sensibilidade lhe habita o recôndito do ser -, cada uma de suas obras o
aproximará ou, ao menos, o fará gravitar sempre mais perto desse centro, sol
dissimulado, onde tudo deverá vir queimar-se um dia. se for mesquinho, todavia,
cada uma de suas obras o afastará e, então, o centro se dispersará por toda
parte, desfeita a luz. Mas, na busca obstinada de um artista, os únicos que lhe
poderão valer serão aqueles que o amam, e também aqueles que, amando ou criando
por sua vez, encontram nessa paixão a medida de toda paixão, a medida de toda
fascinação e, por isso mesmo, sabem julgar.
O que o artista é, o que tem de ser, é suficiente para preencher suas
vidas e ocupar seus esforços.
Escritor algum jamais ousou descrever-se tal como é. Há aquela fala
muito peculiar: "quem conta um conto aumenta um ponto." Quem descreve
a si tem aquela necessidade compulsiva de devanear, fazendo poesia de si mesmo,
poesia solipsista, cria, inventa, recria, refaz; também omite, mente, esconde
certas nuanças do caráter e da personalidade, não fica bem expor-se em público,
roupa suja se lava em casa. Os bufões de Dostoiévski vangloriam-se de tudo,
sobem às estrelas e terminam expondo suas vergonhas na primeira praça pública.
O artista, por uma obrigação de sua natureza, conhece os próprios limites, a
sua paixão é a liberdade.
À medida em que isto fosse possível, o escritor descrever-se tal como é,
teria gostado de ser, ao invés do que sou, um escritor objetivo. Denomino
objetivo o escritor que se propõe temas, sem jamais colocar-se a si próprio
como assunto da obra. A fúria avassaladora de nossa contemporaneidade, no
sentido de confundir a personalidade do escritor com o tema por ele escolhido,
não saberia con-sentir com essa relativa liberdade do autor. E assim os
escritores tornam-se profetas do absurdo.
O absurdo pode ser considerado somente como um ponto de partida, mesmo
quando sua lembrança e sua emoção acompanham pesquisas ulteriores. O absurdo
limita-se à idéia de que nada tem sentido e de que, portanto, se faz mister
desesperar de tudo. As trevas de Eurídice e o sono de Ísis, eis os desertos
onde os escritores recuperarão o autodomínio de seus pensamentos, a mão fresca
da noite sobre um coração agitado.
Manoel Ferreira Neto.
(03 de março de 2016)

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