**SAUDADE... - REVISADO** - Manoel Ferreira


Epígrafe:



"... e sigo aquelas gauchadas do antipoema." (Manoel Ferreira Neto)



Palavras escritas à mercê da pena deslizando nas linhas, letras góticas, bordadas à luz da sensibilidade, das dimensões sensíveis, racionais, trans-cendentais todas, sem preocupações com as idéias, pensamentos, linguagem e estilo, sentidos profundos, abismáticos, estética, a eternidade a alcançar, ser objeto de leituras dos homens por todas as gerações, obra importante para a compreensão e estudo da dialética da existência, para a estética, beleza do verbo que se torna carne, que se torna In-finito, que se torna Eternidade. Palavras registradas nas páginas apenas. Palavras... palavras... palavras. Viver de letras, ser letras, ser de letras.
Não era feliz, angústias e tristezas habitavam os interstícios de minh´alma, desejava a complexidade, letras de grande profundidade. Queria-me por inteiro, queria minha identidade "eu". a vida de quem sou. Tinha de ser feliz, esquecendo-me das horas todas, mister largar mãos dos medos dos problemas psíquicos, neuroses, antes que o nada e o vazio carcomessem-me as entranhas, tornassem-se necroses, sine qua non re-velar-me, manifestar-me, dizer-me com as palavras todas em riste á luz dos linces de todos os olhares, interpretações, discriminações, preconceitos, censuras, era viver de quem sou, a imagem nítida nula refletida no espelho da existência, o escritor completo, o manque-d´être do poeta, ser e não ser, um homem descaracterizado, dupla personalidade.
Ser feliz é mais fácil que escrever - isto já se tornou vulgar de tanto dizer, na esperança de uma frase imortal, a que revela os caminhos da obra -, mas escrever sendo feliz, sendo feliz em escrever, por escrever. Ser e letras, letras e ser. Quê jornada pôr em questão!
Nas Letras, ainda mais que na Vida, não há o salto, só no tempo, no decorrer das experiências, vivências, dores, sofrimentos, o "ser" da obra vai se elaborando, burilando, mas sempre aberto ao que há-de vir, quando tudo antes foram quimera, sorrelfas, tempo de re-fazendas, re-novações, tempo de negar tudo o que escrevera antes, virar a página, rasgar as sílabas das alteridades intelectuais, culturais, tempo de des-aprender e aprender tudo de novo, mesmo com as angústias da separação, divórcio do pretérito, sempre olhar o ocaso do crepúsculo, crepúsculo dos casos da vida, sempre projetar a vida àquela simples sorrelfa de existir é o horizonte, o universo do caminhar sempre, pisar pedregulhos, enfiar os pés na poeira, no lamaçal...
Saudades não restituem o pretérito perfeito ou imperfeito, são apenas objetos que surgem nalguns instantes, imagens que perpassam na memória, felicitam ou entristecem, inspiram sentimentos, emoções, alguns escritos, prosas ou poemas, até mesmo autobiografias. Saudades vão, saudades vêm...
Que sentido possuem as saudades das letras livres sendo registradas nas páginas, a pena deslizando leve, se agora são pensamentos, idéias elaborados, sentimentos e emoções con-templados à luz de desejos da beleza, do estético, da profundidade, filosofia literária, literatura filosófica. Ademais, quem fora a mim nas pontes partidas do tempo com as experiências, vivências, transliteralizou-se, outras características, outras visões-de-mundo, outros iguais, sonhos, utopias, a esperança, não há duvidar, será o panorama silvestre dos pampas à luz do resto é silêncio, no alvorecer de águias voando na plenitude de horizontes e uni-versos a numinância de outros confins e arribas, embora não mais havendo as saudades que nos interstícios de seu espírito deram origem às letras que compus.
Após tantos anos, longas décadas, com a pena na mão, olhar na distância, a vida entregue ao ser das letras, mais que ao ser da vida, num átimo de tempo, as saudades nas sendas de mim à luz da querência do verto de con-templ-orar o inaudito do eterno, digo que as características, valores estéticos, literários e filosóficos não tem mais qualquer sentido, nonadas ao léu do vazio. Quem sou hoje é apenas um início, aquela vontade tresloucada de loucura e paixão de no templo do cócito das verdades a sensibilidade habitando as letras, bráscuba o espírito insondável e inaudito dos pretéritos da morte, subjuntivos do estar no nada à busca impreterível das travessias de nonadas.
Além... Além... Além...
Saudades findam, outras dimensões do resto de silêncios se revelam, outros pampas cinchaditos no más se apresentam, e sigo aquelas gauchadas do "antipoema".



Manoel Ferreira Neto.

(02 de março de 2016)

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