**NA ORLA DA TERRA" - Manoel Ferreira


E o poeta me disse:
"A poesia é fruto da noite e da solidão à meia-luz, guia da mente em festa. A esperança é o sabor dos desejos e vontades, o sabor de viver à busca da palavra, do ritmo que evoca o silêncio. N escrita do poeta, a noite baila romântica na orla da terra, dança e beija a barra do mundo, alcova onde repousam os raios da luz, quando não in-terceptados pela fúria da natureza.
Mas não é tudo festa ou dança. Não é tudo prazer, felicidade, alegria. Também é trapézio despencando, é criança chorando na rua da amargura, na esquina da miséria, é velhice gotejando no pedaço da visa, são trôpegos passos de um homem de barba longa, de mãos vazios e face cansada, pedindo abrigo na noite de Natal..."
Perguntei ao poeta:
"Por que as flores ficam tristes, quando enfeitam o altar da morte? Por que a dança dos pássaros é descompassada, quando o sol desmaia na barra do tempo? Por que a criança é folia e a velhice é solidão? Por que a silhueta faz bailado no telhado da vida, se o corpo desce no profundo silêncio do submerso?"
O poeta deu um trago no cigarro, tossiu, olhou-me e respondeu:
"Assim, lá como cá, por fora ou por dentro do muro, a vida compassa ao som de um violino em desafino, na cantiga da letra sem rima... Não se dá tom a vida, não se dá colo a noite".



Manoel Ferreira Neto.
(05 de março de 2016)


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