**Caríssima Mestra, Rita Helena Neves** - Manoel Ferreira
Há esta passagem de seu Ensaio-Crítico-Existencial que prescinde de um
esclarecimento: "...o Nada é tão parte integrante da existência humana,
quanto a própria existência do infinito do SER."
A Filosofia de Sartre sofreu e sofre todos os preconceitos,
discriminações, incompreensões, pois que "parece" que não há saída
para o homem, está e estará sempre condenado às contingências do mundo, dores e
sofrimentos, angústias, depressões. Para Sartre, a Consciência é Liberdade, a
Liberdade, Consciência, mas isto não liberta o homem de suas contingências
todas.
Não, em absoluto não. Há-de se mergulhar profundo na filosofia sartreana
para trazer a lume todas as suas dimensões. A angústia a que se refere Sartre,
a angústia que está presente em toda a sua obra, é justamente a ausência da
espiritualidade.
Falou-se em espiritualidade, logo, logo se lhe comunga às religiões, ao
cristianismo, em particular, ao budismo, a todas as religiões. Os cristãos
ocidentais não con-sentem com a filosofia sartreana, ele é ateu, herege,
insurrecto. Nega Deus, nega o Espírito, nega a Espiritualidade. A
espiritualidade, conforme as religiões, é coisa de "rebanho", a
espiritualidade outra coisa não significa senão Redenção, Ressurreição, elas
são de todos, pertencem a todos, são vocações de todos. Enquanto que - não
digamos que a espiritualidade nasce com os homens, nasce no seio dos homens,
habita-lhes, são-lhes inerentes -, a espiritualidade é des-coberta,
des-vendada, des-velada a partir das contingências, como o Nada se re-vela nas
situações e circunstâncias da condição humana de estar-no-mundo.
Aí é que está o "x" da questão da dialética Ser e Nada do
Existencialismo. Mergulhando profundo na Consciência da Liberdade, na Liberdade
da Consciência, nas ipseidades da contingência, no Nada, o bater de frente com
o mundo, com a vida, descobre-se a Espiritualidade, a Espiritualidade que é de
cada um, a sua identidade, o seu "Eu", e Espiritualidade significando
o "ec-sistir" segundo o fazer-se no mundo conforme as dimensões da
Ética, Moral, da Estética. O "In-finito do Ser" é justamente a
Espiritualidade, o homem diante de sua Vida, diante das dimensões contingentes
e trans-cendentes.
O Nada é Espiritualidade, desde que o homem sinta, compreenda, entenda,
que só ele pode se fazer no mundo, ninguém vive por ele, ninguém morre por ele,
só ele constrói os seus caminhos. Espiritualidade são esperanças, utopias,
sonhos da vida ser Vida.
Faz muito que deixei nas poeiras de minhas estradas os dogmas, preceitos
religiosos, a fé no Deus da Sagrada Escritura. O Deus da Sagrada Escritura é
ridículo e insosso. A espiritualidade aprendi-a com a efemeridade de todas as
coisas, com as dores e sofrimentos que me habitam a alma, com as minhas angústias,
dúvidas, inseguranças, questionamentos, inquietações. Ousei radicalmente viver
o Nada, ser-lhe, fazer-me no mundo. Estou seguindo em frente, livre e criando a
vida, criando a espiritualidade, a minha que só a mim pertence.
A excelência e perfeição de seu ensaio-crítico-existencial desta obra
TABERNÁCULO DO ETERNO - ELEGIA AO NADA reside nisto: você soube sensivel e
intelectualmente mostrar, revelar, manifestar toda a dimensão de meu
pensamento, de minhas idéias, de minha filosofia.
Um grande abraço, Mestra.
Manoel Ferreira Neto.
(02 de março de 2016)

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