#AFORISMO 751/ ASSIM FALAVA O GURU FESMONE# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO
Sentindo-me distante, deixe-me vagar pelo deserto, onde não há rumo,
destino - exuberância do ser libertador. Sentindo-me disperso, deixe-me
cantando a canção onírica das quimeras, no canto quieto, inquietas as sensações
dos questionamentos sem respostas, perguntas des-conexas, sem sensos e lógicas,
sou vazio de id, ego, superego, sou nada de razão, intelecto, feito
fortuitamente do inacabado frutífero, sou o branco das páginas sem linhas para
escrever, as trevas da alma sem idéias e ideais para pro-jectar, sou o
"ec" sem "sistência", porfio no que andará pelo espaço,
pervago solene pelas nuvens azuis, pelo branco horizonte do infinito.
Ser visto por olhos de lince lega-me o sentimento de orgulho, lisonja,
faz-me sentir humano, habita-me o ser da humanidade; ser enxergado por olhos
apenas traz-me às prefundas da alma a perquirição: "Serão isto olhos? Ou
simplesmente duas bolas, de um lado e outro do nariz?" Os olhos de lince
impõem a si o dever de in-vestigar e avaliar os valores, as virtudes. Possa o
destino sempre colocar no meu caminho gentes de olhos de lince - quê inferno
delicioso! -, haverá sempre a responsabilidade de pensar o pensamento que
pensa, sentir o sentimento que sente. Os remordimentos educam ao morder. Mordo
os valores e virtudes contemporâneos.
Deixe-me distante, deixe-me disperso - quiça as ad-versidades do
absoluto e pleno sejam a tese, antítese, síntese do nada re-verso na imagem
pro-jectada no espelho dos rebos rijos, dos etéreos diamantes que
trans-literalizam as insolências do inferno, divinas comédias da poesia sem
poiésis, da prosa sem eidética, tudo que cunha e que desabrocha é embrião em
prenhez de índole ou Númen, a arte pura da des-fantasia, a metalinguística
inócua das trevas do caminho, o "it" das águas vivas que jorra da fonte
a vereda por seguirem.
Tempo demais ardi em anseios, perscrutando o longínquo, in-vestigando as
distâncias entre o efêmero, o que hoje foi criado, composto, feito, e o eterno,
o que ontem foi pensado, questionado, perquirido, até que com-preendi o alimento
da sabedoria está no aqui-e-agora, o conhecimento está nas dores e sofrimentos,
tristezas e desolações.
Tempo demais gastei ouvindo os nonsenses dos poetas, as fantasias dos
escritores, as crendices das multidões, da plebe. Andam eles na calçada direita
da rua esquerda, ando no canteiro de palmeiras, no meio da alameda.
Tempo demais pertenci às algazarras da paz, da solidariedade, da
compaixão.
Pertenço à solidão, hoje. Falsos valores, hipócritas virtudes, palavras
ilusórias: são estas as desgraças deslavadas dos mortais, a fatalidade ressona,
dorme, tira soneca neles.
Tempo demais desperdicei ouvindo utopias, projetos irreais, desleais, em
nome das fugas das conjunturas sociais, políticas, declamadas, recitadas pelos
"salauds", perfeitos re-presentantes da sociedade nos seus níveis de
moral e ética retrógradas, mentirosas, inclusive brindando drinks com eles nas
mesas de restaurantes. Comecei de não sair de casa para coisa alguma, por
alguns dias, e depois nas ruas esquivar-me, mudar de calçadas, correr alucinado
fugindo deles. Tudo o que desejavam de mim era irreal, expectativas imorais,
re-verenciá-los, tecer-lhes críticas as mais sublimes, endeusar-lhes,
abrir-lhes portas para todos os louvores. A compaixão é uma emoção vulgar e
intrinsecamente depressiva, enfraquece e leva à sede de nada.
O ser verbo de sonhos literaliza a angústia das imperfeições, a náusea
das mais-que-imperfeições, o vazio dos limites, trans-literaliza os atos falhos
e incapacidades, os lapsos da memória. A essência verbal da carne
pres-ent-ifica o vácuo das melancolias, a gruta de estalactites das nostalgias,
a cisterna de água fresca e límpida das saudades, o nada das ipseidades e
facticidades, vers-ejando o nada das esperanças, vers-ificando a nonada das
utopias, a travessia das "querenças", a sétima lâmina dos desejos
corta simples, em sublimes fatias, as buscas do absoluto, os volos da verdade.
Para estes poetas de hoje, não quero ser a poética do fogo; para estes
escritores de hoje não quero ser a eidética da verdade; para estes sábios de
hoje, não quero ser a luz, não quero chamar-me luz; para estes sonhadores de
hoje, não quero ser raios numinosos. Quero, a estes, cegá-los, silenciá-los.
Há uma demoníaca, mefistofélica hipocrisia nos que querem o que está para
muito além de suas capacidades, dons e talentos. Nada é mais raro e precioso,
aos meus olhos, do que a honestidade, a verdade nas mãos.
Nos intervalos secretos da alma, conjunturas, instantes, vocábulos não
fluem expressões, des-apoquentação, carmes, estâncias não asseveram o carme
construtivo, incomunicação, renques, alamedas, terreiros, locais interiores,
veredas ermais, veredas de remotos e retrógrados apetites, no corpóreo a
comparência da chama, da brasa, sem desígnio, sem orientação, sem desconsolo,
sem moléstia, sem constrição, sem taciturnidade. Nentes.
Incomunicação. Ermal.
(**RIO DE JANEIRO**, 13 DE MAIO DE 2018)

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