#AFORISMO 749/ MÚSICA DE SILÊNCIO PURO - UMA SÚPLICA MANOELENSE# - GRAÇA FONTIS: PINTURA/ARTE ILUSTRATIVA/Manoel Ferreira Neto: AFORISMO...



II PARTE


Vós me ouvis, Senhor?


Quisera amar, Senhor,
Preciso amar.
Todo meu ser é um imenso desejo,
Vontade, esperança;
Meu coração, meu corpo
Dentro da noite se tesam e retesam como quem busca
Um desconhecido para amar.
Meus braços batem no ar
E não posso, não consigo apanhar
Um objeto para meu amor.


Estou sozinho, Senhor, e queria ser dois.
Falo, e ninguém para acolher-me a vida.
Por que ser rico assim e não ter ninguém a enriquecer?
Por que tanto amor no peito e não haver a quem entregar
Com volúpia e êxtase, com alegria e felicidade?
Donde vem esse amor?
E para onde vai?


Quisera amar, Senhor,
Preciso amar.


Aqui está, Senhor, esta noite, todo meu amor inativo


Escuta, meu filho,
Pára um pouco, e faze, silenciosamente,
Uma longa romaria até o fundo do seu coração.
Caminhai ao longo do teu amor novinho “em folha”,
Como quem remontasse à corrente de um regato para encontrar a nascente.


E bem no fim, já no fundo, no infinito mistério de tua alma
Conturbada Me encontrarás a mim,
Pois meu nome é amor, meu menino amado,
E desde sempre outra coisa não fui senão amor,
E o Amor está em ti.


Fui eu quem o fez para amar,
Para amar eternamente,
E seu amor passar para um outro você mesmo:
É aquela que procura,
Fica tranqüila, ela está em seu caminho,
O caminho desde sempre, na Estrada de meu Amor.
Há que esperar que ela passe,
Ela se aproxima,
Você se aproxima,
Vos reconhecereis,
Pois para você fiz seu corpo, e fiz o seu para ela,
Para ela fiz seu coração, e para você o seu.


Procurai, filho, as duas, dentro da noite,
Em “minha” noite que se fará em luz se me mostrais confiança.


Guarde-se para ela, meu filho,
Como ela se guarda para si.


Eu vos guardarei um para a outro,
E já que tem fome de amor, coloquei no seu caminho
Todos os seus irmãos a amar.


Crede-me, filho, é um aprendizado bem longo o do seu amor,
E não há muitas qualidades e espécies de amor:
Amar, sempre é deixar-se para ir aos outros...
Sempre, como dizia Camões, “é um andar solitário por entre a gente”


Senhor, ajuda-me a esquecer-me por meus irmãos os homens,
Para que um dia, dando-me, eu aprenda a amar...


Senhor, vós me ouvis,
Tenho fé, sinto-a; tenho esperança, contemplo-a?
Não, Senhor, dirijo-me a vós,
E clamo que me ouvis,
Sei que me ouvis.
Outros são os momentos, mesmo vós que me ouvis,
Não compreendeis bem o porquê
Destas entrelinhas o húmus de outros tempos que vivo,
Não compreendeis o porquê de a re-presentação destas linhas
De recordação, memória, lembranças,
Mostrar um itinerário, mas acabo de me despertar noutra manhã,
E sinto profundo outras anunciações e revelações,
Desde que vos dirigi a palavra, estando a sentir-me angustiado, triste
Cabisbaixo e melancólico.


Será que deveria Senhor,
Não vos pedir apenas que ouça a minha “fala”,
A minha “confissão”,
A minha "súplica",
Pedir-vos, Senhor,
Prestar mais atenção no que ora lhe digo,
Quando as emoções, sentimentos, estados de espírito
E de alma, são outros.
Outros são os tempos, Senhor, e os tempos são outros,
Contudo,
Devo dizer-lhe que me sinto livre, a liberdade
Da águia que sobrevoa os horizontes
De ontem,
De hoje,
E nos leva em suas asas a desejar contemplar
O que nos habita profundamente,
Claro, Senhor, hás-de convir comigo
Que tenha sido mais verdadeiro, enfim era uma dor
Pujante, dilacerante,
Que trespassava-me por inteiro,
Então, escolhendo as letras não como modo de me expressar,
Um estilo de exprimir o que dentro trago em mim,
Para dizer, contemplar o que em mim habita o íntimo,
Sendo verdadeiro, digno, honesto comigo,
Em todos os momentos,
Dores e sofrimentos são trilhas nas razões
In-versas dos horizontes e universos
Que nós os homens necessitamos trilhar a cada passo,
Só que penso e sinto na dignidade,
No amor,
Na esperança,
Na fé,
Na fidelidade,
Na lealdade,
Em busca de horas, terras e bosques onde
Possamos nós os homens sonhar e desejar
Outros caminhos e becos, por onde
Continuar a andança pelas estradas da busca
De que sou,
De meu conhecimento,
E em mim o desejo eterno
Da imortalidade, da eternidade.


Sim, senhor, o conhecimento histórico,
o conhecimento de mim,
sem medos e peias,
sem correntes e algemas,
mesmo sofrendo, sentindo dores,
às vezes dilacerantes,
brota sempre de novo,
de fontes inesgotáveis, as coisas estranhas
e disparatadas que vivemos intimamente,
complexas e difíceis de serem entendidas,
e nesse momento vejo, vi e verei nitidamente,
com estes olhos que a terra há-de comer, como temos nós,
as suas criaturas amadas, o costume de dizer
quando se deseja ser o mais sincero e digno,
sinto presente os limites,
o que me parecia haver sido real-izado,
embora tenha sido noutros ângulos e perspectivas,
é apenas esperança, fé, de alcançar a minha ressurreição,
redenção, ser merecedor, Senhor, do Paraíso Celestial
como Vós nos prometestes aos homens,
e que Deus em Sua Plenitude doa a quem seguir as Suas Palavras,
as Palavras de Amor, Solidariedade, Fé, Compaixão.


Vós me ouvis, Senhor?


São horas de cinza de espírito,
não tenho a ousadia, não sou aventureiro, pudera sê-lo,
não me pergunto para que é isto que não é para coisa alguma,
para nada,
estaria apenas tentando preencher o vazio das horas
com algo sem sentido, não há resposta,
nem posso entender que, não tendo resposta,
como uma pergunta fora criada, fora feita.


Tenho-me esquecido do tempo, em verdade.
Vivo um tempo que não sei decorrer,
um espaço para que não há pensar, não há imaginar,
não há sentir, não há desejo e nem vontade,
um decorrer fora do tempo,
uma extensão que desconhece as emoções e sentimentos,
conhece o saber como é suave saber que a espiritualidade,
o conhecimento, a contemplação, na clepsidra deste imenso desejo,
sonho, vontade do sublime, entregar a vida a esta busca,
esperançoso de vir a sentir o gosto do sublime,
gotas regulares de esperança, de fé, marcam horas irreais.
Lá fora, a noite tão longínqua!
Sonho e de por trás da minha atenção sonha comigo alguém...
E eu, que pela manhã da distância, da lonjura que vai o dia
quase a esqueço, é ao lembrar-me dela que sinto em mim desejos
os mais excêntricos, os mais inusitados de,
num recanto afastado da sabedoria o ritmo íntimo das vozes
que ouço a dizer-me próximo à alma do alto silêncio,
mostre se a vaga à pressa resvala como um cúmplice fugaz,
perante a noite confusa;
se a poesia íntima dos versos da canção embala o que está perdido
e as sendas que servirão de trilha para o encontro revela a saudade
que o sudário esconde;
sinto em mim o espanto que as horas de desassossego,
para além da linha externa das montanhas,
são hábitos de estilo, costume de formas, e para além dessa não há nada...


Os olhos não são escuros, mas claros,
e é apenas a sombra das longas pestanas que os escurece.
Penso poderia estar alhures.
De mim já se afastou a última esperança.
Acaso a natureza ou nobre alma agora um bálsamo não têm,
que me traga bonança?
Por vezes, não sinto limites no corpo.
Con-templo ora o sorriso cínico e irônico,
revelando rebeldia e meditação acerca de o cristianismo
con-templar a morte e não a vida,
dizendo-me da melancolia e nostalgia.
Ponho em nível de suas sensações as extremidades
algo longínquas das mais nobres emoções.
Imagino estar algures.


Vós me ouvis, Senhor?


Hesito, agora, em continuar a idéia que se me revelou na mente.
Não há muito que, encostando-me ao parapeito da janela,
após a estiada da chuva,
olhando à distância a neblina,
e agora, tudo se me afigura um sonho.
O coração bate descompassado,
não estou nem um pouco consciente da emoção
que se me revelou a ponto de o coração bater descompassado,
para isto, para o fazer bater descompassadamente, há-de ser algo emocionante, inusitado.
Em princípio, ouço com um sorriso calmo e paciente,
que raras vezes me abandona;
mas, pouco a pouco, uma expressão de espanto e, em seguida,
de medo transparecem e se fixa no meu olhar.
O sorriso não desaparece de todo;
mas, por momentos, parece vacilar.
Na neblina da montanha,
chovera por quase três dias seguidos,
pela manhã de hoje estava toda encoberta,
já vislumbro e vejo as musas passarem dançando, e, em que depois, descansando quieto no equilíbrio da alma matinal
de por baixo de alguma árvore,
encostado ao seu tronco,
dessas copas e ramagens me sejam lançadas coisas novas,
inusitadas, excêntricas e claras,
dádivas de espíritos livres que moram na montanha,
no bosque e na solidão...


Vós me ouvis, Senhor?


(**RIO DE JANEIRO**, 12 DE MAIO DE 2018)


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